
I think I saw you in the shadows
I move in closer beneath your windows
Who would suspect me of this rapture?
(Black Hearted Love, PJ Harvey and John Parish)
Hi5, orkut, facebook, twitter... A todas elas eu torcia o nariz, mas, instigado por amigos ou pela curiosidade, a desconfiança inicial, justificada ou não, acabou por abrir brechas. Não veio dai mal ao mundo, pensei quando cedi pela primeira vez... Só que a tentação de espreitar pelo buraco da fechadura é uma coisa lixada - diria mesmo que perversa - e, de cedência em cedência, só praticamente o hi5 não me levou a melhor até hoje.
O que fazer quando a fraqueza humana, mais do que sugerida ou permitida, é estimulada, induzida? Nos últimos tempos, confesso, não resisti a espreitar a várias janelas no cada vez mais escancarado universo rainbow. Fi-lo não tanto movido pelo instinto de caça - embora também não esteja acima de suspeita -, mas mais pela adrenalina de poder andar por ali a bisbilhotar à vontade, sem compromisso e sem culpa - porque o risco de passarmos nós a ser o alvo da curiosidade alheia faz, desde logo, por muitas precauções que se tome, parte das premissas do jogo.
Nem fui mais longe, fiquei-me apenas pela rede portuguesa do facebook. Primeira conclusão óbvia: a avaliar pela amostra, não se pode chamar universo ao que não passa de uma aldeia. Se (ainda) não se conhecem todos, a rapaziada de uma certa comunidade gay imita muito bem. Chega a ser assustadora a facilidade de encontrar quem se procura - e quem se acha sem estarmos sequer à procura... Adiante. Próximo reparo: fico pasmo com a quantidade de gajos po-dres de bons no pequeno burgo de Lisboa e arredores (onde é que se escondem, durante o dia, essas criaturas?). Nem é que sejam todos bonitos, muitos têm é corpos de fazer inveja (inveja a tipos como eu, entenda-se, que não passo da cepa torta apesar das boas intenções...).
Como não é um meio onde me mova ou interaja, qualquer que fosse a direcção seguida, eu sentir-me-ia, inevitavelmente, um penetra num clube só para sócios. Guiei-me na minha busca por algumas referências, não só estéticas, que pudessem ser comuns e fiquei, não digo surpreso, mas intrigado quando, independentemente da profissão ou do nível intelectual - e sim, tenho plena consciência de que, ao ligar-me a estas variáveis, já estou a fazer um (pré)julgamento -, 8 (vá lá, 7) em cada 10 gajos parecem gémeos idênticos... O mesmo tipo de compleição física (com cinturas de vespa capazes de fazer inveja a muita menina e quase invariavelmente depilados de alto a baixo), de corte de cabelo, de acessórios (com destaque para os óculos de aviador, as camisas cintadas e as t-shirts com decote em V coladas à silhueta), de poses e até de cenários [das boates Frágil ou Lux até às mo(á)vidas de Ibiza ou Miami]...
Dá que pensar... Sobretudo, quando eu, repito, me tenho mantido à margem de toda esta realidade paralela e, ainda assim, já me reconheço nalguns (não todos, felizmente) tiques. M-E-D-O.