21.2.08

Distorção

Imagem de Greg Gorman distorcida por OZ

I watch it for a little while
I love to watch things on tv
(…)
I’ve been told that you’ve been bold
With Harry, Mark and John
Monday, tuesday, wednesday to thursday
With Harry, Mark and John

(Satellite of Love, Milla Jovovich & The MDH Band
, música dedicada por Einstein)


Começou a segunda temporada de Brothers & Sisters na Fox Life. Sou fã desde a primeira hora. Lá pelas páginas tantas, Kevin, o gay assumido da família Walker ― agora há também o tio Saul, ainda no armário apesar de já ir nos 60 ―, faz uma cena ao saber que o seu namorado vai passar um ano em missão humanitária na Malásia e acaba por ouvir deste aquilo que não quer:
- Que direito tens tu de me pedir para mudar a minha vida quando tu ainda nem foste capaz de me dizer “amo-te”.

Esta técnica vem em qualquer manual elementar de “dar o devido troco” e responde pelo nome de “colocar o dedo na ferida” ou, se preferirem, “acertar onde dói mais”. Agora a sério. Há realmente coisas na vida que precisam ser ditas… mas, permitam-me o contraditório, precisam ― e devem ― ser ditas no momento certo e, arrisco-me ainda a acrescentar, em pleno uso das faculdades.

Não é implicância; nem pouco-caso de quem ficou de fora do clube dos românticos empedernidos. Juro. Digo isto porque, ultimamente, dá-me a impressão que, por medo de ficar literalmente na mão, muito homem feito apressa-se a cair no extremo oposto ao banalizar o uso do “amo-te”, como se este fosse o tipo de coisa para ser proferida antes de tempo e/ou de ânimo leve… Não é. Não para mim, pelo menos. É duro, cruel até, não responder na mesma moeda a alguém que se vira para nós e nos diz “amo-te”? É, mas ainda assim preferível à desonestidade tremenda de fazê-lo precipitadamente, e irreflectidamente, apenas por dever de retribuição.

Isto leva-me também a uma tendência muito curiosa que tenho vindo a observar nas minhas conversas mais recentes com alguns dos bloggers que conheci através deste blogue ― não se assustem, não vou cometer nenhuma inconfidência. Para meu relativo espanto, o grande objectivo dos mais jovens, mesmo daqueles para quem a sua (homo)sexualidade é ainda um dado recente, parece ser o de encontrar um namorado! Numa cultura que sempre viveu associada à promiscuidade e à inconstância nas relações ― e que continuará a viver, não vamos dourar a pílula ―, não deixa de ser, até certo ponto, uma inversão de valores a ter em conta. Tanto mais que este desejo de querer assentar com o “parceiro ideal” era, regra geral, atribuída, quando muito, aos gays mais maduros ― a quem bateu um certo vazio depois de experimentar o que havia a experimentar ― ou aos gays que vibram com as heroínas dos musicais e comédias românticas e, tal como elas, passaram igualmente a suspirar pelo príncipe montado no cavalo branco (podemos trocar o cavalo branco por um alazão, o que vos parece?).

Quer isto dizer que o mito do príncipe encantado tomou a comunidade gay de assalto? Na verdade, palpita-me não ser de hoje, o que talvez seja novidade é o facto de haver um número cada vez maior de gays, até para se demarcarem do que era, e é, o padrão mais reprovado, que não se envergonha de o confessar em voz alta. Em grande parte, tenho para mim que esta é claramente uma tendência pós-Brokeback Mountain, um filme que, mais do que mudar mentalidades de quem está de fora, teve o mérito de mostrar a quem está dentro que o amor entre dois homens não é assim uma coisa tão improvável de acontecer… e durar.

Há, como não podia deixar de ser, o reverso da medalha. Ao ouvi-los falar do que querem, e, sobretudo, de como o esperam conseguir, fico com a nítida sensação de que, grosso modo, estamos perante um ideal mais abstracto do que concreto. Na impossibilidade de encontrar na esquina mais próxima um príncipe de medidas perfeitas, pronto a desembrulhar, muitos desesperam pelos sapos que terão ainda de engolir enquanto esperam pela sua vez. Isto, claro está, até descobrirem que para se saber reconhecer um príncipe de verdade é preciso ter beijado alguns sapos. E que tal como muitos sapos viram príncipes, muitos príncipes também se tornam sapos.

13 comentários:

Einstein Halking disse...

Percebe que as relações entre pessoas do sexo oposto estão se desfazendo cada vez mais? É quase comum ver um hétero experimentar pessoas do mesmo sexo, na idéia de satisfazer a curiosidade. Enquanto tudo isso acontece, entre os gays nasce a necessidade cada vez maior de viver um relacionamento consistente que virá a ser uma família. Eu acredito que futuramente as relação entre pessoas do mesmo sexo será tão normal (mais do que hoje, é claro), que existirá um certo preeconceito ao ver pessoas que se relacionam com pessas do sexo oposto. É o meu ponto de vista a tudo que estou percebendo.

A eh.FACTORY está prestes a retornar. Desenvolvemos uma coleção muito bacana que está com previsão para o lançamento em março. Aguarde!

Abração!

papagueno disse...

As pessoas sempre gostarm de generalizar mas há promiscuidade não é caso típico dos homossexuais, para o provar há relações entre homens que já duram há anos.
Bastante interessante e pertinente o comentário do Einstein.
Um abraço

Megafashionist disse...

Tb tenho essa mesma sensação! Não sei porque isso acontece... mas a vontade da cabeça de cima, parece não corresponder com a vontade da cabeça de baixo!

edu disse...

Eu sempre "senti" as pessoas, independente da idade e de "partido" sexual, muito carentes. Todas buscam o amor e a tranqüilidade, mas é/era a promuscuidade (de apenas um dos lados, porque sempre existiu no "mudo hétero" também) que aparece/ia mais na mídia. Não vejo, portanto, nenhuma mudança de comportamento, apenas um maior conhecimento geral de que somos todos iguais, enfim, buscando afeto sincero. Claaaaaro que é melhor beijar um ou dois sapinhos que ficar parado esperando príncipe enquanto isso, né? :-)

P.S.: Distorceu/omitiu justo a bunda do mancebo?? Ah...

Mans disse...

eu nunca fui de buscar amor na internet, sou rapaz de tradições clássicas... curto mesmo é um bom galanteio à base de troca de olhares

Râzi disse...

Padeiro, Padeiro, o que andas a adicionar a esse seu cacete???

Hjauahauhauhauhauahauha!

Antes de mais nada, cacete é pão!!!

Bom, meu lindo,que post nervoso! Digo, nervoso pra mim! Deixou-me alvoroçado! Deveras!

Em alguns pontos concordo com vc, em outros tive sanhas assassinas com relação à vossa pessoa!

AHauhauahauahauhauahauahua!

Acho que não dizer "amo-te", em muitos casos, possibilidade essa que tu não cogitaste, é simples corvardia! Medo de se comprometer!

Porque muitos estão a comer o cacete (pão) de olho no que ainda pode vir a sair do forno, e querem estar livres pra poder largar aquele e pegar um mais quentinho! E citar que aquele cacete (pão) estava duro equivaleria a não dizer que ama!

Ai , que complicado! Hauahauhuahau!

Bom, mas acho realmente que essa coisa da idealização existe e é fortíssima! Só que o mundo é feito de realidade e não de abstração!

Tem que colocar a mão na massa e sovar muito, além de modelar e meter no quente, até que o cacete (pão / adoooorei! hauahuaha) esteja pronto pra ser abocanhado!

Hauahauahauahuahauhaua!

Beijão, meu padeiro predileto!

:D

socrates dasilva disse...

este post chama-se "tocar na ferida".
abraço

Mike disse...

Querido, essa é uma teoria antiga minha... acho que os gays mais novos, por causa de uma maior liberdade, acabam não só se mostrando ao mundo como também exigindo os mesmo direitos e ideais dos héteros, ou seja, arrumar um parceiro fixo, viver um romance...

Eu sempre achei que os gays mais velhos é que são mais promíscuos (o que não é regra, antes que alguém inicie um protesto) em virtude de terem feito parte de uma geração anterior, mais reprimida e, por consequência, mais promíscua (já que toda oportunidade de sexo deveria ser aproveitada)...

Com relação ao post anterior, o tal do triângulo, vale cada erupção cutânea... :-)!

L. Antão disse...

É por causa de posts como este que volto aqui muitas vezes.
Não sei que pensar do comentário do Einstein. Inversão total dos valores relativos ao relacionamento entre pessoas? Não me parece que se esteja a caminhar nesse sentido, aliás nem me parece razoável encarar um relacinamento hetero com preconceito. Se me disserem que se caminha para que as relações homo sejam encaradas com naturalidade, sim; tornar os outros não-naturais: não.

Goiano disse...

ozzz eu quero um namorado
huahuauha e o pior euprocuro em todo lugar
ate na net
hauauha
mas nao tem dado certo
se vc morasse mais perto ne.,.

Will disse...

Isso a mim faz-me um bocado de confusão:

1) Não ando à procura de nada porque não perdi nada;

2) Quero ser feliz (se isso passar por estar ao lado de um namorado, 'bora lá);

3) No entanto, não acredito que a felicidade venha com "um" namorado; vem com "o" namorado;

4) Ora, "o" namorado é sempre algo meio transcendental... é assim a modos que como o Euromilhões: não é impossível, mas é difícil;

5) Solução: acreditar que "o" namorado pode aparecer mas não viver em função disso; não descartar outras formas de felicidade (sim, eu sou dos que acreditam que se consegue ser feliz sozinho);

E acho que é isto...

Latinha disse...

Putz... eu concordo com sua visão sobre a questão do "amo-te", conta-se nos dedos de uma mão (e ainda sobrarão dedos) a quantidade de pessoas a quem disse essa frase, e assim mesmo confessar que em uma das vezes o disse pelas razões erradas.

Em uma visão muito particular, eu penso que depois que a gente percebe que pode ser feliz sem obrigatoriamente ter alguém ao lado, e que este quando vier, apenas podera completar essa felicidade, os parametros mudam.

Apesar de "tudo", eu ainda acredito que existe um local onde o abstrato e o real se tocam e quem sabe poderemos encontrar um "Sapo encantado" por ai. ;-)

Post delicioso!!! Inquietante... ehehehh

pinguim disse...

Este post, como tantos outros teus, dá pano para mangas...
Todos querem ter alguém, uns procuram, outros não; os que procuram, nem sempre o fazem como deve ser; os que não procuram, continuam "à espera de Godot" e depois queixam-se...
Quando encontram, e enquanto a paixão dura, tudo nas "sete quintas"; passada essa fase, e se não há solidez, lá vai tudo por água abaixo...
O que fazer então? Apenas estar disponível e atento antes, e principalmente, ter respeito depois; a vida não é feita de linhas rectas, tem curvas e é preciso sabe-las contornar; mas uma coisa é certa, viver sem ninguém a vida inteira, não é viver!
Abraço.