18.8.08

Esperando aviões - Parte II

Por Jordi Labanda

I’m only human
Of flesh and blood I’m made
Human
Born to make mistakes

(Human, Human League)


Deixo Belo Horizonte ao final da tarde, já com a sensação de que ficam para trás rotinas, lugares e pessoas que se tornaram por demais familiares nos últimos dias. O meu avião para São Paulo imobiliza-se na pista de Confins quase uma hora, à espera provavelmente do okay de Congonhas, mas isso, por mais que me irritem atrasos de última hora anunciados aos bochechos, em nada interfere com os meus planos. Amigos e conhecidos estranham a minha escolha. Para eles, o lógico seria eu ir de malas aviadas para a Bahia, talvez para o Rio, mas não para São Paulo, essa metrópole desmesurada, com mais habitantes do que Portugal inteiro, conhecida pela sua neblina fina e pelas libelinhas ruidosas que riscam os céus ― tantas que a capital paulista só perde para Nova Iorque ― na esperança de fintar o famigerado trânsito. Em São Paulo, todas as horas são de ponta.
Mas eu gosto de São Paulo. Aliás, já gostava de São Paulo ainda antes de ali colocar os pés pela primeira vez, há uns bons anos. Logo, volto sempre que posso. Como todo o bom urbano-convicto, eu não me intimido com ruas maltratadas, gente a mais, condutores mercenários ou criminalidade. Não me incomoda também o lado anónimo da grande cidade, porque em (quase) todas elas eu sou capaz de traçar a minha geografia afectiva. É um facto, raramente fico sozinho em São Paulo ― e sim, isso faz muita diferença na hora de a enxergar a uma escala mais humana ―, mas eu gosto da arquitectura, dos restaurantes, das livrarias, das lojas, dos museus, do teatro, dos “inferninhos” da Augusta…

Três noites e dois dias. Não é muito para matar a saudade. Não vai dar tempo de passar no Ibirapuera, de comer no libanês do Paraíso, de ficar indeciso na padaria do Benjamim Abrahão, em Higienópolis, de me tentar com os pastéis do Zé, em Pacaembu, ou de me esbaldar na happy hour da Vila Madalena, mas, em compensação, não falho a taça de açai gelado na esquina da Augusta com a Oscar Freire, nem os meus pousos de sempre na Lorena, onde gosto de ficar à conversa com os empregados da Cavalera, de beber o expresso com muffin do Suplicy ou de me perder por entre as estantes da Livraria da Vila ― não é tão grande, nem tão diversificada, como a Cultura da Paulista, mas tem um traçado e uma disposição primorosos.
Na primeira noite, chego já tarde e sem disposição para uma balada feroz. Gosto de andar a pé, mesmo fora de horas e em São Paulo; aproveito que não estou longe, e que o espaço fica aberto até tarde, para ir comer o hambúrguer premiado do Ritz. Os mais poupados dificilmente acharão bem empregue o dinheiro que se paga por um pedaço de carne embrulhado em pão, mas os hambúrgueres do Ritz inscrevem-se na não-tão-nova-assim lógica de fazer de um prato rápido algo mais caprichado e (quase) gourmet. A carne é muito tenra, desfaz-se na boca, e a clientela… bem, a clientela da casa na Alameda Franca é famosa por ter feito dali um animado e concorrido point gay. Saboreio a carne, poupo a garganta ainda inflamada com um suco de abacaxi com hortelã e deixo-me ficar, entretido, a observar as manobras de diversão dos rapazes, a solo, em dupla ou em matilha. A noite está só a começar para eles, mas para mim o dia vai longo. Cama.

Sexta-feira. Passo os olhos rapidamente pela Veja São Paulo e, quando dou por mim, já vou a meio da Augusta à cata de ingressos para essa mesma noite. A crítica não poupa elogios à Festa de Abigaiu, uma peça adaptada a partir de um texto de Mike Leigh ― realizador de Closer, um dos meus novos “clássicos” ―, em cartaz há um ano. Confesso que, à partida, não sou grande entusiasta de comédias, mas esta, sobretudo na metade final, acabou por me arrancar umas boas gargalhadas.
Ainda não é meia-noite quando saio para a rua, mas a Augusta já está num frenesim de dar gosto. Não posso dizer que me sinto totalmente tranquilo por ali, mas o meu lado assumidamente voyeur sempre leva a melhor. Aquela coisa decadente do chamado Baixo-Augusta, na Consolação, outrora point da Jovem Guarda e zona chique na década de 1970, continua a ter muito de Boca do Lixo, que os apreciadores de uma estética trash-cult têm sabido manter. Gosto daquela mistura explosiva de cerveja barata e clubes nocturnos de putas e michês (os nossos chulos). Pelo meio ficam vários “inferninhos” dignos de nota, como é o caso do Vegas.
O Vegas foi-me apresentado por uma amiga paulistana há uns dois anos e desta vez, mesmo sem estar na cidade, ela não desarmou. Como ainda era cedo, comi à pressa uns temakis que não me deixaram saudades e lá me fui colocar na fila para entrar no Vegas ― muito organizada, a minha amiga havia-me colocado na lista de entradas dessa noite, mas eu esqueci-me de confirmar… Entrei à mesma. O Vegas mudou a decoração e, dizem as más-línguas, está a tentar imitar a iluminação do D-Edge. Os “informantes” da minha amiga, parece, também não aprovaram por completo a frequência da casa nessa noite, mas eu, que não sou freguês habitual, não quis nem saber e joguei-me na pista de copo na mão.
Achei o Vegas, liberal por vocação, muito mais gay do que da última vez, mas confesso que gostei de ver os dois “ursões”, que destoavam da maralha, a passar de mão dada sempre que iam aviar mais um copo ao bar. Lá pelo terceiro vodca com energético ― misturado com uma dose cavalar de Naldecon, não fosse a gripe querer ser mais teimosa do que eu… ―, o DJ de serviço é atacado por uma onda de nostalgia e vai repescar, mas com a devida batida techno, um clássico dos late 80’s. Não devo ser o único da casa a reconhecer Human, dos Human League, pois canta-se em uníssono. Eu bem tento juntar-me ao coro, mas, na altura do refrão, a voz atraiçoa-me ― grande maldade… sabe-se lá quando volto a ouvir Human League num porão escuro...
Só sei que o vodca, os Human League, as luzes, tudo junto, desviaram o meu foco para um casal. Estou para saber até hoje se eram namorados, mas isso também não vem ao caso. A cumplicidade entre eles era evidente. Ela, muito bonita, tinha um dragão enorme tatuado nas costas nuas, já ele apresentava-se com um look no melhor estilo “bom rapaz, mas tenta-me e verás”, e era igualmente delicioso ― pelo menos, àquele adiantado da hora, pareceu-me… Não me perguntem como, só sei que ― shame on me ― me insinuei claramente para eles. Já estava quase colado aos dois a dançar quando o meu alarme soou:
- Mas que porra é esta? Onde é que eu quero chegar?
Tudo bem que continuo a ser assaltado por uma certa ambiguidade, mas daí a envolver-me num triângulo de vértices pouco definidos não me pareceu o melhor caminho. Não agora. Não ali. Discretamente, bati em retirada antes que fosse tarde demais. Assim como assim, tinha a desculpa de não me poder esticar muito na noitada… Afinal, ainda antes das sete da manhã teria o Latinha a bater-me à porta do quarto…

(continua…)

13 comentários:

pinguim disse...

Caro Oz
tanto o texto anterior, sobre BH, e mais focado nos amigos que aí reencontraste como este sobre S.Paulo, descrevem da maneira hábil e cuidado a que já nos habituaste, várias coisas: a alegria do reencontro com o "teu" Brasil, quer nas pessoas, quer nos lugares; o teu tão comum gosto de introduzir o elemento feminino no conjunto das descrições gays, mas sobretudo a continuada dança que é teu apanágio entre o ser "abertamente" e o apenas ser "interiormente".
Cá fico à espera da continuação, e posso confessar algo? Tenho pena que tivesses "fugido" à sedutora tentação com que terminas este post...
Abraço.

Goiano disse...

tenho certeza q to na parte 3!!!
uhauahuauha

dragao que chama por tras?
que medo!

Râzi disse...

Meu amor... onde estão as pessoas????

Caramba, vc foi lá só pela cidade mesmo???

Espero que estejam na terceira parte... e quen ão sejam nem os ursos e nem os outros lados do triangulo, dizendo que acordaram em um motel!!!
haahauaauhau!

Beijão!

Latinha disse...

Rapaz...

São Paulo é meio que o quintal de casa para mim... cresci por ai! È bem verdade que já não sou mais o habitante descolado de outrora... mas as coisas me são familiares.

Não voltaria a morar... mas adoro os lugares, adoro o frenesi...

Que xiqui... ganhei até um "teaser" para minha entrada! ehehehe

Grande abraço para ti!

Tarco Rosa disse...

Estou esperando a continuação...
Um grande abraço

Jackson Jr. disse...

adorei o relato das noites.
seu atnite! xD

beijo.

Paulo disse...

Nossa, amei sua programação por Sampa, são os lugares que eu frequento tb! Amo o Vegas e a D-Edge, os lugares com o pessoal mais bonito e descolado daqui!

Sem falar no pastel do Zé e o libanês... adoro as esfihas abertas de lá!!!



abração!

Edu disse...
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FOXX disse...

a pergunta do Razi foi deveras estimulante
hehehe

Edu disse...

Tá vendo, seu Paulo? Devia ter se juntado à turminha pra conhecer o Oz de perto... :-)

"Latinha Teaser" rulez!! :-)

Como ocê escreve gostoso, seu Oz...

Marco disse...

São Paulo é uma cidade que me fascina. Numa intensidade parecida com o Rio, mas de uma forma muito diferente.

Mais uma vez, um texto delicioso, uma narrativa envolvente, e um gosto de "quero mais" no final.

Pelo visto, teremos capítulos semanais, e a viagem vai render assunto de um mês no blog.

Hehehe.
Bjs.

Paulo disse...

a continuação promete!
gosto do efeito Xerezade :))

abraço

Ludo disse...

Sabe, fui a SP cerca de três vezes. Era ainda um garoto, e não pude conhecer os bons redutos paulistas.
São Paulo não agradou muito. Em todas as minhas estadias por lá, faltou-me céu para admirar. Mas, ainda assim, gostei muito do ritmo daquela cidade... daquelas caóticas linhas de metrô; da agitação da Augusta, da 31 de março (data do meu aniversário); dos sabores e aromas do Liberdade...
Há tempos tenho vontade de voltar a Sampa para (re)conhecê-la de verdade! Ao ler teu post, fiquei ainda mais instigado!!!
Por falar em ficar instigado... rss... essa última "cena" me deixou muito curioso... hehehehe... "Onde será que este mancebo chegaria não fosse a lucidez bater-lhe à mente?" rssss
Agora, uma música roda na minha cabeça: "Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João..."
XD