
You made me smile today
You spoke with many voices
We travelled miles today
Shared expressions voiceless
(Numb, Sia)
Em vésperas de somar mais um aniversário* ― o que é sempre motivo de reflexão, sobretudo desde que entrei na fase “Opá, mais um?! Mas tem MESMO de ser? Estava tão bem assim… não quero brincar mais a isto! ―, tenho constatado nas últimas semanas que a vida moderna, entre outras benesses, abriu novas possibilidades aos trintões como eu. Para começar, hoje é-nos permitido, se assim o entendermos, continuar a fazer aquilo que nos dá na real gana sem medo de estarmos a ser “ridículos” e/ou de sermos taxados com piropos do tipo “lá estão eles a fingir que ainda têm vinte anos”! Não temos de fingir. Não temos sequer de gostar das mesmas coisas que gostávamos aos vinte anos, mas também não temos de nos sentir mal se, por acaso, ainda nos apetece fazer muitas das coisas que fazíamos aos vinte.
Os trinta trazem-nos cabelos brancos e um metabolismo mais lento – a alguns trazem ainda mulher, marido, sogra, filhos, cães, um empréstimo para pagar nos próximos 30 ou 40 anos, um Plano Poupança Reforma e, com alguma sorte ou azar, um ex ou uma ex que nos vão infernizar um bom tempo―, mas estão muito longe de ser o fim da linha em matéria de diversão ― com uma vantagem comparativa nada desprezível se tudo correr pelo melhor: temos mais dinheiro no bolso para estourar nas coisas boas desta vida (e são tantas!).
Confesso que, há uns anos, vi a coisa mal parada quando, de repente, dei por mim rodeado de amigos já casados e a pensar em criancinhas. Mas, curiosamente, se a dada altura senti maior dificuldade em arranjar companhia para sair e beber uns copos, a culpa foi mais minha, que me afastei e me "ausentei" tantas vezes a pretexto do trabalho, do que deles. O certo é que agora, olho à minha volta, e não me faltam amigos que continuam solteiros como eu, que voltaram a ser solteiros ou que ainda não tiveram sequer tempo para deixar de o ser.
E é assim que, aos trinta e poucos, aos trinta e picos, ou aos trinta e muitos, continuamos a fazer jantaradas, a correr vários bares numa só noite, a gastar 60 euros para ir ver a Madonna ou a ponderar a possibilidade de acordar de madrugada nos feriados para aguentarmos a pedalada das sessões do Europa, com Dj’s convidados, entre as 6 e as 10 da matina.
O reverso de ser trintão e de continuar disponível no mercado? Existe, óbvio que existe. Por exemplo, a amizade sincera entre homens e mulheres na casa dos trinta não é uma utopia, mas, admito, presta-se a alguns mal-entendidos. Especialmente quando, como acontece comigo, as cartas não estão todas em cima da mesa. Não nos iludamos: a maioria dos trintões que permanece solteira não faz disso um drama ― e até gosta, já que ir para a cama deixou de ser um problema ―, mas isso não quer de todo dizer que se tenha descartado a meta de encontrar um(a) companheiro(a) estável. As mulheres trintonas, mais do que os homens, pagam uma factura pesada ― sobretudo as que dão ouvido ao tic-tac impiedoso do seu relógio biológico ― pela sua emancipação social e sexual. E ai chegamos ao clássico e muito batido pregão: os homens livres depois dos trinta ou são mulherengos ― logo fogem do compromisso como o diabo foge da cruz ―, ou são gays ― logo se não forem aliados, ao menos que não sejam adversários.
De fora da equação matemática ficam os que, como eu, se encontram no limbo. Tenho uma relação bastante cúmplice com as minhas amigas, pelo que não me importo de fazer as vezes de confidente, mas, por outro lado, nunca permiti que me deixassem de ver como Homem, porque, independente de ser ou não gay, acho muito mais interessante quando existe sempre alguma tensão sexual.
Sei que muitos encaram isto como uma incapacidade minha para me aceitar como realmente sou ou até, em certa medida, como uma demonstração de desonestidade para com os outros e para comigo. Não é, nem nunca foi, essa a intenção. Mas boas intenções não chegam e, assumo, a minha postura dúbia coloca-me, agora mais do que antes, frequentemente naquilo a que os brasileiros chamam de “saia justa”. Neste preciso momento, tenho uma amiga, recém-chegada à casa dos trinta, que está, digamos, numa fase confusa a meu respeito... Olha para mim, vê o homem gentil que lhe abre ou fecha a porta do táxi, o tipo divertido com quem vai para os copos mas com quem também pode conversar sobre praticamente tudo, e pergunta-se: mas se estamos os dois livres e temos uma boa química, por que raio não se chega ele à frente? Ai a dúvida instala-se… E, em caso de dúvida, o que faz uma mulher? Eu arrisco dizer que joga em duas frentes e ora tenta fazer ciúmes para provocar uma reacção, ora parte do princípio – que muitos querem tornar universal ― de que um gay como amigo vale muito mais do que uma amiga. Culpa dos filmes, já se vê, que deram vida a esse monstro do “seria o homem ideal, mas como é gay ficou o meu melhor amigo”.
Nesta lógica distorcida, quem fica em maus lençóis sou eu, está-se mesmo a ver, que agora tão depressa sou picado pela entrada em cena de um “motoqueiro galanteador”, como sou intimado a pronunciar-me sobre as investidas dele e o que poderão querer dizer no manual masculino. E só me apetece responder: não me faças ciúmes, que não vale de todo a pena, mas não te atrevas, por outro lado, a querer fazer de mim o teu Will ou o teu Rupert Everett de trazer por casa, que nem tu és a Grace ou a Madonna tampouco. Sim, estou mais cínico. A boa ou a má notícia é que isto só tende a piorar com a idade.