Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros. Mostrar todas as mensagens

13.4.09

Esperança em tempos de cólera

Is this the place, we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?
(Somewhere Only We Know, Keane)


Ninguém está a salvo dos seus (falsos) pressupostos. Muito menos eu. Tenho vivido todos estes anos plenamente convencido de que nunca me apaixonei para valer e, de tanto o repetir, o que começou, na verdade, por ser uma mera interrogação acabou por tomar ares de certeza (quase) definitiva. E ai transformou-se num daqueles postulados idiotas que não me suscitam orgulho, mas também não me provocam dramas existenciais e/ou recriminações. Foi mais o tipo de coisa que deixamos dobrada no fundo de uma gaveta, na qual até remexemos de quando em vez, mas que não nos damos ao trabalho de despejar para fazer uma selecção do que fica e do que vai fora porque deixou de servir.

Agora, colocando vários episódios recentes em rewind, já não tenho tanta certeza assim... Acho mesmo que há a chance, séria e real, de me ter apaixonado, quiçá até mais do que uma vez, e de não ter dado conta... Parece altamente improvável, esdrúxulo até, eu sei, mas quem se apressar a pensar assim estará, porventura, a cometer o mesmo erro grosseiro que eu.
Entre outros devaneios que não são para aqui chamados, passa-me pela cabeça que eu poderei ser do tipo que não sabe reconhecer em si os sinais da paixão. Dito de outra forma, começo a desconfiar de que, vá-se lá saber porquê, eu ter-me-ei persuadido que paixão era uma determinada coisa, uma coisa tão arrebatadora e tão inequívoca que, ao passar por mim, eu teria, necessariamente, de parar para lhe prestar atenção. E por arrebatador e inequívoco leia-se arrepios na espinha, estômago embrulhado e pernas titubeantes se essas fossem imagens poéticas do meu agrado, mas esse talvez esteja a ser o meu mais terrível e traiçoeiro engano.

Talvez a paixão não me deixe indisposto. Talvez ela me deixe antes disposto para cometer loucuras e actos apressados. É que, para quem se diz intocado pela paixão até hoje, eu tenho cometido vários de cada nos últimos tempos. O que me leva a matutar: se eu sou capaz de loucuras e de gestos grandiosos por pessoas a quem apenas quero bem - ou me suscitam curiosidade, que é uma palavra cautelosa que eu passei a empregar amiúde para salvar a face em caso de derrocada iminente -, o que farei quando realmente achar - tiver a certeza? - que estou arrebatadora e inequivocamente apaixonado? O chão vai tremer? Os sinos vão dobrar? Vai parar de chover? Cristo desce novamente à Terra? Provavelmente, não; provavelmente, não. Percebem onde quero chegar?

Se não entenderem também, não é caso para se incomodarem. Até porque nada do que escrevi até estas linhas é para fazer (muito) sentido. É mais um exercício de lógica e de purga a que me sujeito num dia em que acordei de bem com a vida e comigo. Não que seja raro eu acordar de bem com a vida e comigo, pois passo ao largo das criaturas que foram amaldiçoadas com um despertar rabugento e ácido, mas acontece que sobrevivi a uma manhã particularmente merdosa. Uma manhã em que me vi sozinho num lugar onde não queria estar, sem referências e sem um rosto familiar por perto. Pior, descobri-me longe das pessoas com quem deveria realmente estar naquela manhã de celebração.
Não vou armar-me em forte nem em blasé e dizer que tirei de letra aquela manhã; não tirei. Ela custou a passar e foi dolorosa. Demorei horrores para sair daquele lugar; e demorei ainda mais para me libertar do que me conduziu àquela manhã. De certo modo, uma parte de mim ainda está presa naquela manhã. Mas, como disse, sobrevivi. E sobrevivi inteiro e em paz.

Não se iludam. Não faço minimamente a linha dos que dão a outra face sem ripostar, sem ferir. Mas, não gosto de passar por uma provação sem ficar com o consolo de que, ao menos, aquilo me serviu para aprender a lição. Por isso, em vez de estar furioso e de querer esmurrar alguém que, apesar de todas as vigílias nocturnas, ainda não atingiu o grau de humildade e humanidade necessário para se colocar, por um instante que seja, na pele do outro, eu estou grato.
Porque quando alguém bate a porta, a meio de uma madrugada chuvosa, sem se importar com o que deixa para trás - porque não soube apreciar a nossa companhia, porque não se ralou muito em perceber os nossos gostos e nem sequer hesitou ante a certeza do que tivemos de abdicar para estar ali -, é caso para perder o sono. Mas não é caso para perder a esperança.

Naquela manhã, arrependi-me duramente de não ter dado ouvidos à minha intuição que, por mais de uma vez, me segredou para não ir. Teimei e fui, paguei um preço alto, mas conquistei na adversidade algo inesperado: se, com todas as minhas limitações, desacertos e dúvidas, decidi ir ao encontro - num gesto quem sabe precipitado, admito, mas que me exigiu generosidade e coragem - de alguém que, não obstante a inconstância, a imaturidade e até um certo desapego a roçar a frieza, me tem inspirado, mais do que tesão ou desejo, um carinho genuíno e uma vontade legítima de tentar ir mais além (porque falar em química é vago), então eu ainda tenho esperança. A esperança de que, tarde ou cedo, eu vou deixar de ser uma excepção para passar a ser uma regra. A regra dos que se apaixonam, com ou sem arrepios, com ou sem borboletas, nem que para isso tenham de partir a cara mil vezes.

Cansei-me de ser a excepção que confirma a regra. A manhã passou; ficará o orgulho ferido, quando muito, e uma mágoa que nem sequer é (só) de agora. Mas o que aprendi sobre mim naquelas horas, isso eu vou querer lembrar sempre.

15.1.09

"Por ai, eu não vou"



Day one, day one
Start over again
Step one, step one
I'm barely making sense
For now I'm faking it
(Not As We, Alanis Morissette)


A semana fecha com mais um equívoco. Não sei se chego a lamentar. Não sei se há realmente algo a lamentar. Deixei uma porta entreaberta, mais por descargo de consciência do que por convicção de que poderá valer a pena. Não cheguei a tirar os pés do chão e ainda tive de andar a disfarçar, como um adolescente, o chupão no pescoço.

--------------------------------------------------------------------------

Há mais ou menos uma semana, estava eu, banho tomado, a secar o cabelo num dos espelhos do balneário quando um dos personal trainers veio dividir a bancada comigo. Nada de mais, não fosse o facto de eu estar vestido, como é normal, e ele totalmente nu. Já o vi várias vezes no ginásio: mais de um metro e oitenta, moreno, boa pinta e corpo musculado. Claro que lhe tirei as medidas pelo espelho, mas tentei ser o mais discreto possível para não lhe dar a satisfação de "alvo atingido". Não faço a menor ideia se o fulano é gay ou não; tão pouco me dei ao trabalho de ficar ali plantado mais tempo do que o estritamente necessário para um tira-teimas. Mas, a ser verdade que ele se estava a fazer a mim, não deixa de ser lisonjeiro, pois o fulano deve ser o sonho de consumo de muito macho por ai, mas não levo jeito para este tipo de engate com linguagem cifrada. E se não é gay, o que eu duvido pela forma como se exibiu, tem imenso talento para a coisa, pois nunca vi um tipo levar tanto creme para um ginásio e colocar tamanho empenho na aplicação de um corrector de olheiras. S-E-I.

------------------------------------------------------------

Há dias, nesse mesmo espelho, de novo a secar o cabelo (sim, eu sou dos que não saem para a rua de cabelo molhado). Assim como quem não quer a coisa, o mesmo tipo com quem ainda há pouco tinha cruzado o olhar enquanto estávamos os dois a fazer cardio, chega-se à bancada com o pretexto de se ajeitar antes de sair. Fico com a sensação de que os seus gestos saem meio atabalhoados e que tudo não passa de um pretexto esfarrapado para trocar mais um olhar comigo. Dá-me mesmo a impressão de que, por uma fracção de segundos, fica à espera de alguma reacção minha. Azar. Eu realmente não levo jeito para este tipo de coisas. O fulano acaba por se ir embora e é uma pena. Não me importava nada de ter ficado com o seu número, just in case...

--------------------------------------------------------------

Escrevi há pouco que deixei uma porta entreaberta, não foi? Ah, já me arrependi. Esqueci-me que por cada porta fechada, Deus abre-nos uma janela. Do nada recebo um sinal de fumo de alguém que julgava já perdido para quem o soubesse apanhar... Leio na mensagem "É só para saber se está tudo bem contigo...". S-E-I. Acho que vou responder: estava uma merda, mas agora pode ficar óptimo.

--------------------------------------------------------------

Um dia destes, eu ainda me canso de ser um homem decente e enveredo de vez pelo mau caminho. Bem ao género "Oh God make me good, but not yet".

6.11.08

Passa a outro e não ao mesmo...


They only want you when you're seventeen
When you're twenty-one
You're no fun
They take a polaroid and let you go
Say they'll let you know
So come on

(Seventeen, Ladytron)


Como já dizia o outro, não sei bem quem, mas também não vem ao caso, não há fome que não dê fartura. E não há fartura que não dê enjoo, acrescento agora eu. Depois de várias semanas a brincar ao gato e ao rato, resolvi que merecia umas tréguas. Não, não tirei o meu da recta, salvo seja, mas um bom estratega sabe sempre a hora certa de se retirar de campo. Sai de cena, mas estou disposto a voltar a jogo logo que a ocasião surja. Neste meio tempo, aproveitei, por exemplo, para me entupir de DVD's e para ver ao vivo os Ladytron no Lux - adoro a liberdade de poder andar na boa-vai-ela (sempre quis usar aqui esta expressão e descobri que vem no Houaiss!) numa terça à noite, ainda para mais tendo por companhia uma amiga que é tudo de bom na minha vida (e pensar que estive a ponto de trocar a sua companhia no concerto por um tipo que virou abóbora...).

Mas, e para provar que não rio apenas da desgraça alheia, permitam-me que vos faça o apanhado rápido de um, talvez o mais caricato, dos meus désaires mais recentes:
No post anterior contei-vos do antropólogo, que vim a saber depois ser também professor universitário - segundo o meu amigo Latinha, eu demonstro uma propensão alarmante por académicos...

A forma como tudo começou parecia tirada de um filme. Em menos de um ano, saía-me na rifa um gajo que tinha o nome do meu primeiro ex-quase namorado, e olhem que não é um nome lá muito comum, e que sabia escrever - e como escrevia bem, o filho da mãe! Desarmou-me pelo meu ponto mais erógeno, o cérebro, e entre tanta coincidência e gosto comum não nos tornámos amigos de infância porque, enfim, já não íamos a tempo.

Só que, mesmo quando cativado, eu não deixo de ficar atento e havia nas entrelinhas pequenas pistas semeadas que me perturbavam sobremaneira: percebi, por exemplo, que a relação de que ele queria tanto sair - ou não, não cheguei a entender... - tinha alguns contornos bizarros, quase doentios... Fiquei de sobreaviso. Ai, como quem não queria a coisa, começou a dança do acasalamento com pérolas do género "Estou com vontade de te despentear, no sentido literal" ou "Tou com uma insónia de todo o tamanho (...) Eu não devia escrever-te à uma e tal da manhã, n'est-ce pas? O que é que o Oz vai pensar do F.? Don't let him know that you are alone, thinking of him in the middle of the night...".

Tinha uma certa graça, ou por outra, eu achava uma certa graça àquela corte à luz das velas, embora na altura, verdade seja dita, eu andasse entretido a teclar madrugada fora com o ninfeto formado em Literatura Clássica (outro académico... o Latinha bem sabe o que diz...) - que grande sacana, pensei eu, afinal também sou capaz de agir como um sacana!, e quase rebentei de orgulho. Mas, à medida que se aproximava a passos largos o momento em que íamos ficar face to face, a luz vermelha começou a piscar e não mais parou; vai ele e atira à queima-roupa: "Mas já agora, há algumas coisas sobre mim que talvez seja melhor saberes antes que se torne ou irrelevante ou complicado de falar delas. Não me dou assim muito bem com homens que têm o culto excessivo dos banhos e dos produtos de higiene, um pouco como as mulheres têm (...) O que eu quero dizer é que, para mim, um homem é um homem, o seu estado mais atraente é o seu estado natural, com pelos e cheiro a «suor, mijo e esperma», para citar a fórmula do Perfume".

Okay, pensei, sou um tipo arejado, deixa-me cá não levar isto ao pé da letra e dar o devido desconto semântico. Só que ele voltou à carga para desfazer as dúvidas: "Se for for meu amante, a única coisa que eu peço é que me deixe também usufruir do seu corpo (e da sua roupa interior) quando está com cheiro a homem".

Nessa altura, acabaram-se igualmente as minhas dúvidas: este gajo não me apanha entre os lençóis, eis a minha sentença. Tenho-me, no entanto, na conta de um tipo que sabe separar as águas. Pensei, na minha santa ingenuidade - e eu todo ufano por, ao mesmo tempo que lhe dizia talvez, manter outras opções em aberto... -, que cada um sabe do que gosta e que, chegados àquele ponto, seria um desperdício descartar um fulano que poderia vir a ser um amigo - se um amigo sente gozo em ir para a cama com homens a cheirar a cavalo e em snifar cuecas meladas, posso até torcer o nariz, mas é lá com ele!

Escusado será dizer que o trovador não queria amigo porra nenhuma. Ele queria mesmo era um gajo que alinhasse na rambóia. Assim que percebeu que eu sou lavadinho e não dou as minhas cuecas a cheirar, não deu parte de fraco, mas não perdeu tempo a mandar-me umas linhas, sempre em prosa elegante, já não mais a querer despentear-me, mas a despachar-me, literalmente é claro.

Toma e embrulha. Tão cedo, se esta me serviu de lição, não me volto a meter com alguém que não seja do meu tamanho...

13.10.08

Confessions on a dance floor


So slide over here
And give me a moment
Your moves are so raw
I've got to let you know
I've got to let you know
You're one of my kind


I need you tonight
'Cause I'm not sleeping
There's something about you girl
That makes me sweat

(Need You Tonight, INXS)


"Gajo, adorava foder contigo". Tout court. Dizem que quem anda à chuva é para se molhar, mas, ainda assim, este é o tipo de abordagem straight to the point que, por norma, me deixa algo indiferente. Há quem diga que tenho pruridos a mais, que me comporto, não raras vezes, como um "donzelo" e que, para uma queca (transa) descartável, não é preciso estar cá com coisas. Talvez o problema seja esse, o das quecas descartáveis. Não tenho nada contra uma boa queca descartável, mas já o mesmo não digo das pessoas. Não gosto de quecas com pessoas descartáveis a priori. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Garanto-vos que não é.

Agora o reverso da medalha...

O Médico, boa conversa, um ano mais velho do que eu. Diz que a sua relação de vários anos está em crise, que me acha atraente, interessante, rebeubéu, pardais ao ninho... Acena-me com um jantar, mas, como mostro alguma reserva, sugere antes um copo... Não gosto de blind dates; insisto que antes vai ter de se mostrar. Desaparece do mapa.

O Oficial da justiça e O Advogado. O primeiro vai bem lançado nos trinta, o segundo está quase a chegar lá. Nenhum dos dois me deixa extasiado do ponto de vista físico, mas parecem pessoas agradáveis e de bom trato. Conversamos, mas, quase sem me darem tempo para mais nada, já estão a fazer cobranças, a reclamar exclusividade e a amuar. É delete sem contemplações.

O Arquitecto, primeira metade dos trinta, corpitcho bom todos os dias. A conversa começa bem. Tipo inteligente, com sentido de humor e bom gosto. Numa noite de insónia, manda-me uma mensagem. Mas, lá está, dá-me a impressão de que não andamos bem ao mesmo. Estamos num impasse. Está morno. Quase frio.

O Louro Alto que se julga o Pequeno Príncipe, só que em versão sei-que-sou-bonito-e-safado. Começámos a trocar farpas sem grande consistência, mas a coisa arrasta-se e ele nunca me deixa sem resposta. Tem namorado, diz ele - e eu julgo que até sei quem é, um moreno de parar o trânsito -, mas ainda assim está cheio de graças para o meu lado. A dar alguma coisa, vai ser só putaria da grossa.

O Gestor de linha férrea, seja lá o que isso quer realmente dizer. Não é bonito, mas tem um bom corpo e sabe conversar. É dos tipos que mais se interessou por mim, fora a embalagem, nos últimos tempos. Num só dia mandou-me 11 mensagens e não esconde que está muitoooooooooo a fim, mas fá-lo com elegância. Detalhe: tem uma relação aberta com o seu companheiro de há 13 anos... À última da hora inventei uma desculpa para ganhar tempo. Acho que vou sair de fininho enquanto ainda posso. Não tenho pedalada para estas coisas muito modernas.

O Antropólogo, a mesma idade, com namorado na Polónia. Diz que quer ser meu amigo, mas não arrisca um "desta água não beberei". Estou fascinado com a sua inteligência, com o seu sentido de oportunidade e pela forma como me desafia. É daqueles que dá luta e isso deixa-me muito, mas mesmo muito curioso. Está-me a conquistar pelo cérebro e isso é perigoso. Não sei onde isto vai dar. Vamos jantar na sexta.

O Contabilista, idade de Cristo, bem menos sonso e inocente do que parece ao primeiro olhar. Está louco para arranjar um namorado, o que me deixa de pé atrás. Não me atrai, mas ainda assim, e como tratou logo de me passar o seu número e de insistir imenso para irmos beber um café, eu lá resolvi tentar. Na hora, o tipo fez-se de caro e depois desculpou-se imenso. Fiquei fulo. Purgatório com ele.

O Investigador na área de Humanidades, com apenas 24 anos. Sacrilégio. Não era, não é, meu propósito envolver-me com alguém tão novo. Abro uma excepção e, desde logo, a primeira conversa revela várias afinidades... Desde então, a afinidade não pára de crescer e ele revela uma maturidade que eu não estava à espera. Tenho imensas reticências, mas não nego que a coisa está a tomar um rumo inesperado. Marcámos um café na quinta.

A lista é extensa e nem sequer está completa. A avaliar pelo tamanho da encrenca em que me estou a enfiar, muitos, não duvido, dir-me-ão que mais valia, por ventura, eu dar ouvidos a quem não perde tempo com floreados ou converseta de salão e vai directo ao que (lhe) interessa: "gajo, gostava de foder contigo". Pois é, acontece que eu gosto de preliminares e de jogos de salão.
"Oh God, make me good, but not yet!".

22.9.08

It's on the house


Got no boundaries and no limits
If there's excitement, put me in it
If it's against the law, arrest me
If you can handle it, undress me

(Give It 2 Me, Madonna)


Não há mal [nem neura] que dure muito por estes lados. Na manhã seguinte ao post anterior já o meu safe mode estava activado, pelo que senti um leve embaraço ao reler certas passagens... Bom sinal, pensei, mas não retoquei uma vírgula que fosse. Arrependo-me, talvez, de algumas coisas que fiz (de outras tantas que deixei de fazer, também), mas não do que (e como) escrevi. Foi um momento catártico [o meu momento catártico] e como tal não totalmente isento de exagero. Mas até isso, no devido contexto, eu encaro como parte do processo de desintoxicação. Entendo sem culpa que estou sujeito a fraquejar de quando em vez, mas enxoto com veemência a auto-comiseração. Carpir mágoas e acusar o universo de estar a conspirar contra mim não faz parte do meu repertório, por isso mesmo, logo que pude, lambi as feridas, arejei as ideias e retomei a vida. Só não me apressei, como tinha prometido, a colar os cacos - juntei-os, para não me estorvarem, e tenho estado a olhar para eles, indeciso entre voltar à forma antiga ou arriscar um novo formato...
Expiada a crise existencial, devo dizer-vos que a minha semana não correu nada mal: não deixei de ir suar as estopinhas no ginásio (aproveitei até o facto de ter um cartão de membro que me permite mudar de pouso para ir "lavar a vista" fora dos domínios usuais, mas isso é assunto, quem sabe, para outro post), comecei um novo curso, estou a organizar mais uma viagem de trabalho, almocei a meio da semana com vista para o rio, reservei parte de uma noite para rever Breakfast at Tiffany's e recebi mimo de vários amigos, o que, além de me aconchegar, ajudou a sossegar o ego fragilizado.
Sexta à noite, reencontrei o Will. Pois o Will, tão despachado que me chega a deixar cansado só de ler tudo o que é capaz de fazer num único dia, passou o Verão em estado de graça. Está apaixonado e não o esconde de quem se quiser dar ao trabalho de reparar. Cumprida a habitual ronda de má-língua, emendámos a happy hour com o jantar, o que permitiu ao F. se juntar a nós. Foi um serão agradável, ainda mais porque era suporto irmos à abertura do Queer Festival. Conversa vai, conversa vem, o certo é que perdemos a hora e tivemos de escolher, à pressa e ali mesmo, um filme qualquer para ver... O Will, que não é nada distraído, bateu os olhos nos dois rapazes em cuecas do cartaz, ponderou as implicações do título Gomorra e deve ter pensado "Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé". Eu que já tinha lido a sinopse - e sabia por isso tratar-se de um retrato a sangue-frio, muito cru, das máfias que controlam Nápoles, no sul de Itália - percebi logo que não íamos ter sorte nenhuma, mas deixei que fossemos ao engano. No final, acabei por me prender à estória, mas era notório o ar francamente desapontado de outros rapazes à saída... Hummm, aposto, só por vergonha alguns deles não foram dar queixa por publicidade enganosa [e o mesmo deve estar a pensar quem viu a foto de abertura deste post - by the way, se alguém conhecer o paradeiro do rapaz tatuado na coxa, faça-me a fineza de lhe comunicar que dou tecto, cama, roupa lavada, férias e décimo terceiro - e se deu ao trabalho de ler até ao final! Quem manda...]

26.8.08

Esperando aviões - Parte III

O "meu" voo SP-BH prestes a decolar de Congonhas. By Latinha

I find you in the morning
After dreams of distant signs
You pour yourself over me
Like the sun through the blinds
You lift me up
And get me out
Keep me walking
But never shout
Hold the secret close
I hear you say

(Cuts You Up, Peter Murphy)



Salto da cama ao toque do despertador, sem delongas e sem dar sequer tempo ao corpo de fazer manha. Ainda assim, Latinha faz-se anunciar antes do que previa ― por um triz, escapo à suprema vergonha de ser surpreendido de cabelo em pé, amarfanhado e a cheirar a ontem. Abro a porta. Aquele rosto, de sorriso escancarado, é-me extraordinariamente familiar, por mais que esta seja a primeira vez que estejamos, para valer, frente a frente.
Noutros tempos, é bem provável que eu e o Latinha trocássemos longas cartas, que demorariam semanas (quiçá meses) para chegar aos seus respectivos destinos, e nos tratássemos por “meu muy estimado amigo”. De certa forma, parece-me, há qualquer coisa nas nossas condutas e posturas que nos faz continuar a sentir, não raras vezes, como ovelhas tresmalhadas entre pares ― e foi isso, mais até do que a feliz coincidência de escolhermos o mundo de Oz e a estrada de tijolos como analogia para uma nova fase das nossas vidas, que nos aproximou ― e a sentirmo-nos fora de contexto, ou, em outras palavras, lost in translation.

Ironia ou não, o facto é que foram, precisamente, as novas ferramentas do mundo moderno a permitir que, no espaço de um ano e pouco, nos tornássemos amigos e, até certo ponto, confidentes. Por isso, naquela manhã parda de uma São Paulo a prometer (finalmente) chuva, dei-lhe um abraço, puxei-o para dentro e tratei de o instalar, dispensando maiores cerimónias, numa cadeira enquanto me continuei a barbear. Latinha saíra ainda de madrugada da sua cidade, mas não acusava o menor vestígio de cansaço. Pelo contrário, mostrava-se ansioso em retomar a conversa no ponto onde havíamos parado dias antes. E foi o que fizemos. Não mais por MSN, por e-mail, por Skype ou até de webcam ligada, mas como dois antigos roomates que se reencontram. A grande diferença foi que desta vez, para variar, não tivemos nem um Atlântico, nem um fuso ingrato de cinco horas a separar-nos.

Alguém se lembra de Os amigos de Alex (The Big Chill no original)? Este filme de Lawrence Kasdan marca-me até hoje. E, por curioso ou inusitado que vos possa parecer aqui a referência, o certo é que a minha passagem por São Paulo, que serviu de pretexto para estar com o Latinha, teve ainda um outro efeito colateral que me trouxe à memória esse filme. No estranho (e fabuloso também) mundo à parte dos blogues estabelecem-se afinidades e ligações que desafiam a lógica. Quando me iniciei em A Metamorfose de Oz, não tinha de todo a intenção de fazer amigos; muito menos de me dar a conhecer. Só que a vida troca-nos as voltas e, sem que me desse conta, fui quebrando, uma a uma, várias regras que me tinha imposto.
Além do Latinha, o Edu foi outra das pessoas que me "obrigou" a reconsiderar a minha postura e a baixar as defesas. O meu contacto com Edu extra-blogue é limitado, para não dizer mesmo escasso, ainda assim ele soube conquistar um espaço entre os meus afectos pelo seu humor certeiro, pela forma como encara a vida, pelos seus valores e, muito importante, como, de uma maneira ou de outra, ele arranja sempre maneira de se fazer presente. Latinha e eu brincamos que Edu é uma espécie de guru para nós, pois durante muito tempo fomos (e ainda somos, até certo ponto) os dois “gays” mais teóricos até onde a vista alcança nesta vasta blogosfera.
Na realidade, eu não sou muito de pedir conselhos, mas gosto de observar (mesmo que a uma distância segura). Edu, juntamente com Ricardo ― ora ai está outra figura-chave, já falei dele antes; ao contrário de Edu, não chega de mansinho, pois entrou de rompante na minha vida, soube antes de mim que íamos ser amigos e não esmoreceu quando me mostrei, tantas vezes, esquivo e arredio; hoje, além de um querido amigo, é também alguém que me ensina a não ser tão definitivo nas minhas apreciações ―, é quem está mais próximo de mim na faixa etária, mas olho para ele, e para a relação cúmplice e equilibrada de quase 9 anos que tem vindo a construir com o M. (aka Bichinho ou Mau-Mau), e não deixo de me sentir um quase “adolescente tardio”.
Excelente a tarde e noite que passámos juntos: Edu e M. vieram-nos buscar ao nosso hotel na Paulista e levaram-nos a passear pela “sua” São Paulo mais a norte. Fomos dos primeiros a visitar a casa nova, a experimentar as poltronas acabadas de estrear e a partilhar o leito da cama super king size (nada de pensamentos impuros, que só estivemos sentados à conversa e a troçar do ar desconfiado do vizinho da frente…). Fomos também voluntários na importante missão de testar a qualidade das pizzas locais.

Na manhã seguinte, eu e Latinha fizemo-nos à estrada. À nossa espera, em Campinas, tínhamos Z., amiga do Latinha há uns bons anos, uma daquelas pessoas que nos conquista desde o primeiro momento. Além de nos abrir as portas da sua casa por uma noite, Z. foi uma anfitriã que me guiou, apesar do tempo chuvoso, por lugares da sua cidade como a feira dominical de artesanato, o Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim ou o restaurante Bráz. Mas, mais até do que isso, o que me cativou mesmo foi a sua disponibilidade para a vida, o seu olhar arguto e a sua mentalidade transversal. Falámos das nossas sexualidades sem tabus e sem falsos pudores. Rimos, brincámos e levei, pela primeira vez, eu acho, a sério alguém que me aconselhou a enfrentar o divã do psicanalista.

Até agora, só tenho falado dos encontros que aconteceram durante esta viagem, mas também houve desencontros. O primeiro deles ocorreu com o Jackson, que, na última chamada, não se deu. Já combinámos que ficará para uma próxima. O segundo foi com alguém que insiste em não sair da minha vida, mas que, nos momentos cruciais, não se comporta como um amigo, o que dirá de quem se diz com pretensões a ser muito mais do que isso. O terceiro, para ser justo, não chegou a ser bem um desencontro, pois, vendo a frio, só eu ponderei seriamente a ideia de um encontro. Não é muito do meu feitio correr riscos, sobretudo quando há luzes encarnadas a piscar e já fui avisado, mais do que uma vez até, a não tomar aquele atalho.
Ainda assim, trocámos várias mensagens telefónicas durante quase toda a minha estada no Brasil. É um jogo sem fim à vista, para já. Há afecto (e cumplicidade até onde ele deixa e eu estou disposto a ir), mas uma coisa chamada tesão impede-nos de sermos só amigos ― e seria, acreditem, muito mais fácil (e sensato) para os dois se nos ficássemos pela amizade. Mas não dá. Já tentei ser uma espécie de irmão mais velho, de me ficar pelo papel seguro de quem vê de fora, mas, a dado momento, a coisa resvala sempre para uma tensão que pede cama. Pergunto-me agora se algum dia ele terá maturidade, coragem e foco para sair da toca do lobo e se mostrar de corpo inteiro, despido de artifícios e ciente de que a paixão, como a vida, terá sempre o seu quê de impoderável.

Por fim, e após um breve retorno a Belo Horizonte, regresso a casa com muitos mais quilos na mala ― entre outras coisas, não resisto a trazer vários pares de sapatos e ténis. Em compensação, estou mais magro. Não suficientemente magro, mas já naquele ponto em que a minha mãe vai olhar, desconfiada, para o fundo das minhas calças e achá-lo com pano a sobrar... Mas, coração de mãe, é sabido, fraqueja; o mesmo já não posso dizer, infelizmente, dos Aussiebum e dos Blueman guardados na gaveta, que não enganam nem fazem favores. Santa futilidade, dirão alguns. Não se apoquentem. Esta viagem deu-me tempo de sobra para (re)pensar algumas coisas. Ainda não sou o homem que gostaria de ser, mas também já não sou mais o Homem que era ontem. Sei por onde vou, só não sei quando vou lá chegar.

Fim

18.8.08

Esperando aviões - Parte II

Por Jordi Labanda

I’m only human
Of flesh and blood I’m made
Human
Born to make mistakes

(Human, Human League)


Deixo Belo Horizonte ao final da tarde, já com a sensação de que ficam para trás rotinas, lugares e pessoas que se tornaram por demais familiares nos últimos dias. O meu avião para São Paulo imobiliza-se na pista de Confins quase uma hora, à espera provavelmente do okay de Congonhas, mas isso, por mais que me irritem atrasos de última hora anunciados aos bochechos, em nada interfere com os meus planos. Amigos e conhecidos estranham a minha escolha. Para eles, o lógico seria eu ir de malas aviadas para a Bahia, talvez para o Rio, mas não para São Paulo, essa metrópole desmesurada, com mais habitantes do que Portugal inteiro, conhecida pela sua neblina fina e pelas libelinhas ruidosas que riscam os céus ― tantas que a capital paulista só perde para Nova Iorque ― na esperança de fintar o famigerado trânsito. Em São Paulo, todas as horas são de ponta.
Mas eu gosto de São Paulo. Aliás, já gostava de São Paulo ainda antes de ali colocar os pés pela primeira vez, há uns bons anos. Logo, volto sempre que posso. Como todo o bom urbano-convicto, eu não me intimido com ruas maltratadas, gente a mais, condutores mercenários ou criminalidade. Não me incomoda também o lado anónimo da grande cidade, porque em (quase) todas elas eu sou capaz de traçar a minha geografia afectiva. É um facto, raramente fico sozinho em São Paulo ― e sim, isso faz muita diferença na hora de a enxergar a uma escala mais humana ―, mas eu gosto da arquitectura, dos restaurantes, das livrarias, das lojas, dos museus, do teatro, dos “inferninhos” da Augusta…

Três noites e dois dias. Não é muito para matar a saudade. Não vai dar tempo de passar no Ibirapuera, de comer no libanês do Paraíso, de ficar indeciso na padaria do Benjamim Abrahão, em Higienópolis, de me tentar com os pastéis do Zé, em Pacaembu, ou de me esbaldar na happy hour da Vila Madalena, mas, em compensação, não falho a taça de açai gelado na esquina da Augusta com a Oscar Freire, nem os meus pousos de sempre na Lorena, onde gosto de ficar à conversa com os empregados da Cavalera, de beber o expresso com muffin do Suplicy ou de me perder por entre as estantes da Livraria da Vila ― não é tão grande, nem tão diversificada, como a Cultura da Paulista, mas tem um traçado e uma disposição primorosos.
Na primeira noite, chego já tarde e sem disposição para uma balada feroz. Gosto de andar a pé, mesmo fora de horas e em São Paulo; aproveito que não estou longe, e que o espaço fica aberto até tarde, para ir comer o hambúrguer premiado do Ritz. Os mais poupados dificilmente acharão bem empregue o dinheiro que se paga por um pedaço de carne embrulhado em pão, mas os hambúrgueres do Ritz inscrevem-se na não-tão-nova-assim lógica de fazer de um prato rápido algo mais caprichado e (quase) gourmet. A carne é muito tenra, desfaz-se na boca, e a clientela… bem, a clientela da casa na Alameda Franca é famosa por ter feito dali um animado e concorrido point gay. Saboreio a carne, poupo a garganta ainda inflamada com um suco de abacaxi com hortelã e deixo-me ficar, entretido, a observar as manobras de diversão dos rapazes, a solo, em dupla ou em matilha. A noite está só a começar para eles, mas para mim o dia vai longo. Cama.

Sexta-feira. Passo os olhos rapidamente pela Veja São Paulo e, quando dou por mim, já vou a meio da Augusta à cata de ingressos para essa mesma noite. A crítica não poupa elogios à Festa de Abigaiu, uma peça adaptada a partir de um texto de Mike Leigh ― realizador de Closer, um dos meus novos “clássicos” ―, em cartaz há um ano. Confesso que, à partida, não sou grande entusiasta de comédias, mas esta, sobretudo na metade final, acabou por me arrancar umas boas gargalhadas.
Ainda não é meia-noite quando saio para a rua, mas a Augusta já está num frenesim de dar gosto. Não posso dizer que me sinto totalmente tranquilo por ali, mas o meu lado assumidamente voyeur sempre leva a melhor. Aquela coisa decadente do chamado Baixo-Augusta, na Consolação, outrora point da Jovem Guarda e zona chique na década de 1970, continua a ter muito de Boca do Lixo, que os apreciadores de uma estética trash-cult têm sabido manter. Gosto daquela mistura explosiva de cerveja barata e clubes nocturnos de putas e michês (os nossos chulos). Pelo meio ficam vários “inferninhos” dignos de nota, como é o caso do Vegas.
O Vegas foi-me apresentado por uma amiga paulistana há uns dois anos e desta vez, mesmo sem estar na cidade, ela não desarmou. Como ainda era cedo, comi à pressa uns temakis que não me deixaram saudades e lá me fui colocar na fila para entrar no Vegas ― muito organizada, a minha amiga havia-me colocado na lista de entradas dessa noite, mas eu esqueci-me de confirmar… Entrei à mesma. O Vegas mudou a decoração e, dizem as más-línguas, está a tentar imitar a iluminação do D-Edge. Os “informantes” da minha amiga, parece, também não aprovaram por completo a frequência da casa nessa noite, mas eu, que não sou freguês habitual, não quis nem saber e joguei-me na pista de copo na mão.
Achei o Vegas, liberal por vocação, muito mais gay do que da última vez, mas confesso que gostei de ver os dois “ursões”, que destoavam da maralha, a passar de mão dada sempre que iam aviar mais um copo ao bar. Lá pelo terceiro vodca com energético ― misturado com uma dose cavalar de Naldecon, não fosse a gripe querer ser mais teimosa do que eu… ―, o DJ de serviço é atacado por uma onda de nostalgia e vai repescar, mas com a devida batida techno, um clássico dos late 80’s. Não devo ser o único da casa a reconhecer Human, dos Human League, pois canta-se em uníssono. Eu bem tento juntar-me ao coro, mas, na altura do refrão, a voz atraiçoa-me ― grande maldade… sabe-se lá quando volto a ouvir Human League num porão escuro...
Só sei que o vodca, os Human League, as luzes, tudo junto, desviaram o meu foco para um casal. Estou para saber até hoje se eram namorados, mas isso também não vem ao caso. A cumplicidade entre eles era evidente. Ela, muito bonita, tinha um dragão enorme tatuado nas costas nuas, já ele apresentava-se com um look no melhor estilo “bom rapaz, mas tenta-me e verás”, e era igualmente delicioso ― pelo menos, àquele adiantado da hora, pareceu-me… Não me perguntem como, só sei que ― shame on me ― me insinuei claramente para eles. Já estava quase colado aos dois a dançar quando o meu alarme soou:
- Mas que porra é esta? Onde é que eu quero chegar?
Tudo bem que continuo a ser assaltado por uma certa ambiguidade, mas daí a envolver-me num triângulo de vértices pouco definidos não me pareceu o melhor caminho. Não agora. Não ali. Discretamente, bati em retirada antes que fosse tarde demais. Assim como assim, tinha a desculpa de não me poder esticar muito na noitada… Afinal, ainda antes das sete da manhã teria o Latinha a bater-me à porta do quarto…

(continua…)

11.8.08

Esperando aviões - Parte I


E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
(
Esperando Aviões, Vander Lee)



Jeans brancos. Botas, camisa e blusão pretos. Acho que já passa das dez da noite quando me vou encontrar com eles. A Cantina do Lucas fica dentro do edifício Maleta, antigo reduto da boémia mineira, mas não os acho de imediato nas mesas do lado de fora. Toca o telefone. Aliviado, levo a mão ao bolso das calças e atendo; não me apetece nada ficar ali, especado, a revistar um por um todos os rostos até encontrar algum que me seja vagamente familiar ― claro que ser míope, e insistir em sair para a rua sem lentes, também não facilita a tarefa! São duas da manhã em Portugal, mas em casa querem saber se cheguei bem ― sim, cheguei bem.
Nisto, vejo alguém, que reconheço das fotografias, levantar-se de uma das mesas e acenar para mim. É o Ricardo. Será ele o primeiro que abraço. Ser o último a chegar ― a bem da verdade, não fui o último, já que Ludo e J. chegaram depois, mas deles falarei mais à frente ― tornou aquele momento menos óbvio do que esperava. Mas há, por mais que já tenhamos falado com aquelas pessoas antes, que já as tenhamos visto em fotos ou que até saibamos detalhes da sua vida pessoal que muita gente mais íntima desconhece, coisas que precisam de um tempo para acontecer. Todos se conheciam entre si, já tinham bebido o primeiro copo de cerveja gelada e não precisavam de articular o seu português para se fazerem entender. Eu, sabia-o desde o início, é que vim baralhar um pouco as regras do jogo e introduzir um elemento de novidade no grupo – um papel que, convenhamos, tirando uma certa timidez que ainda me deixa sem graça nos minutos iniciais, me agrada.
Assim que nos acostumámos à presença física uns dos outros ― curiosa, muito curiosa, essa coisa de termos um retrato robô pronto, que é preciso agora ajustar à pessoa que passa a estar, ao vivo e a cores, na nossa frente, do nosso lado… ―, e que eu desacelerei o meu sotaque lusitano, tudo fluiu naturalmente. E o resto do serão, na companhia do Ricardo, do Marco, do Leandro, do Ludo, de J. e de outras pessoas que se juntaram a nós, foi o que era suposto ter sido: um encontro de amigos e uma forma muito prazenteira de eu assinalar o meu regresso a Belo Horizonte.


O apartamento de Marco, onde ficaram Ricardo e Leandro, acabou por funcionar como quartel-general, onde as tropas se reuniam, em amena cavaqueira ― na verdade, as conversas eram calorosas; amena esteve quase sempre a temperatura em BH, apesar dos protestos veementes da infantaria carioca, habituada a um Inverno de trinta e muitos graus! Rsssss ―, ao redor de taças de sorvete com generosas colheradas de doce de leite Viçosa (um vício de Marco altamente contagiante, tanto que eu, antes de me ir embora da cidade, fui ao Mercado Central abastecer-me de tão precioso levanta-moral). Como Marco é um rapaz recatado(?), estou, até hoje, em crer que o entra e sai de tanto homem junto naqueles dias terá provocado um ou outro franzir de sobrolho na portaria do prédio. Mas tudo decorreu sempre no maior decoro… até mesmo naquela manhã de domingo, em que eu, Marco e Ludo, depois de termos varado a madrugada na Jô ― a mais badalada e elitista boate gay da capital mineira, com direito a descamisados sem ruga no peito nem prega no colarinho, gogo boys rebolativos, cenas a três, cenas a dois e cenas múltiplas, mas sem que ninguém se tenha de sentir desconfortável por isso ―, irrompemos pelo apartamento e acordámos Ricardo, Leandro e Arthur na batucada (os dois primeiros ficaram de molho devido ao clima “ameno”; já Arthur, o namorado de Marco, aproveitou a desculpa para ficar a dormir que nem um justo). Para compensar, havíamos passado antes na padaria e comprado pão fresco e broa mineira (que, para minha surpresa, leva coco!) para o primeiro café do dia da rapaziada. Vencidos pelo cansaço, Marco e Ludo, que já foram namorados e hoje são os melhores amigos, "apagaram" na cama de casal; não sem antes me oferecerem, encarecidamente, uma vaga. Achei melhor declinar o convite, não por nós ― que somos todos rapazes de família! Rsssss ―, mas por ter a certeza de que não se escapa incólume duas vezes de uma situação embaraçosa.
[Momento rewind: final de noite na Jô, ainda tomados pelo álcool, eu e os rapazes achámos por bem realizar, como lhe poderei chamar sem melindrar os profissionais do ramo?, uma pequena performance num dos queijos onde antes tinham actuado os gogo boys].
Dessa vez, felizmente, não houve fotos para mais tarde recordar, mas desta feita eu sabia que não teríamos a mesma sorte, pois o “capeta” andava de máquina à espreita… Fui flagrado sim, mas sozinho, no sofá da sala, antes de me levantar estoicamente para acompanhar os madrugadores de plantão numa incursão à feira dominical da avenida Afonso Pena ― e lá fui eu, não muito viçoso, mas ainda assim airoso, sem óculos escuros para aliviar a ressaca, de caveira ao peito e correntes à cintura!


“Meu pai é que tinha razão… Como é que uma pessoa do meu nível social e intelectual poderia ficar com uma bichinha afectada como você”. Estou sentado a duas mesas de distância, mas ainda assim ouço, sem esforço algum, todo o desenrolar da novela que ele, “a bichinha afectada” em pessoa, conta com detalhes sumarentos.
Na realidade, ele fala para os seus dois amigos, um homem e uma mulher que mal abrem a boca, mas o seu tom de voz faz com que boa parte dos transeuntes da calçada, dos restantes clientes e dos empregados que àquela hora serviam à mesa no Café com Letras, um espaço para lá de simpático na Antônio de Albuquerque, ficasse a par do seu desaire amoroso e de como o “namorado o maltratava só pelo facto de deixar a escova de dentes molhada na mesa”…
BH é hoje, para minha relativa surpresa, uma cidade cada vez mais gay friendly. Claro que não nos podemos deixar iludir pelas aparências, até porque os mineiros são conhecidos pelo seu conservadorismo, mas o certo é que, além de se multiplicarem na cidade vários espaços assumidamente gays, é fácil detectar na rua ― e em pontos públicos tão diversos como o Mercado Central ou a Feira de Artesanato, que possui mesmo um Ponto G! ― a presença de “colegas”.
E isso, às vezes, acontece mesmo em lugares inusitados, como é o caso do MP5, um clube-galeria, lá para os lados da avenida Raja Gabaglia, onde insisti em ir numa terça-feira à noite. Nem Marco nem J. conheciam o espaço, mas a minha experiência anterior tinha-me revelado um local animado, com boa batida electrónica e gente bonita. Chegados ali, não demorámos nem cinco minutos a perceber que a casa, além de meio vazia, estava por conta dos rapazes. Rapazes que gostam de rapazes, entenda-se. Enfim, não arrepiámos caminho de imediato, dançámos, fizemos por não entrar em rota de colisão com a “loura alucinada”, tirámos as fotos da praxe ao colo do patinho cintilante da entrada – não tirem conclusões precipitadas, o pato é uma graça! Rssssssss ― e acabámos num posto de abastecimento, a aquecer cachorros com molho cheddar no microndas. De brinde, além de animarmos a noite dos pobres miúdos que trabalhavam sem música no posto, ainda levámos para casa porta-sapatos.


Nesta minha passagem por “Belzonte” ― piores do que nós, portugueses, para “engolir" sílabas, só mesmo os mineiros, sobretudo os do interior, que ainda assim têm um sotaque cantado delicioso ―, fui quase sempre apresentado como “amigo do Marco”. O Marco, é bom que se diga, além de excelente pessoa, é um advogado que trabalha no duro para se afirmar, orgulho do pai, da mãe e dos amigos. Marco é também discreto na sua postura perante o mundo e a sociedade, mas muita gente à sua volta tem sabido, progressivamente, da sua orientação sexual. Logo, ser apresentado como “amigo do Marco” acabou por ter um peso e por, desde cedo, me dar uma “cor” à qual não estou habituado.
Não vou dizer que encarei isso de ânimo leve, mas, pela primeira vez na minha vida, aceitei não fazer disso um cavalo de batalha. Aceitei, inclusive, que muitas daquelas pessoas, que não tinham qualquer juízo prévio a meu respeito, fizessem as suas deduções. Se me incomodou? Incomodou um pouco, não vou mentir, mas ajudou-me também a constatar que a grande maioria daquelas pessoas encara a homossexualidade de forma aberta. Tão aberta que se permitem mesmo fazer algumas piadas a respeito, o que é sempre bom para quebrar o gelo.
Entre todas elas, houve uma com quem acabei por conviver de muito perto, até porque foi ela, na ausência de Marco ou Ludo, a minha grande companhia nas tardes de ócio. J. é o que se pode chamar, se quisermos colocar um rótulo, de fag hag, uma espécie de Grace na vida do Will/Marco. A cumplicidade entre os dois é algo muito bonito de sentir, mas foi um processo que exigiu amadurecimento de parte a parte: J., como tanta mulher que se vê rodeada de gays e passa a fazer disso uma realidade, demorou a perceber que tinha de ter a sua vida, os seus amigos e os seus amores fora deste círculo restrito; Marco aprendeu que pode tê-la sempre por perto, mas que há coisas que ela precisa viver sem tê-lo ao pé para apagar os fogos.
Conversei muito com J. Passeámos no shopping, tomámos chocolate quente no Kahlua, almoçámos no Minas Clube, estivemos na sua casa a ouvir música, a ver fotos de família… Ela falou-me dela e quis saber de mim. E eu, que gosto tanto de observar as mulheres, de ver com elas mexem no cabelo, como se movimentam, como tocam, fiquei fascinado com a espontaneidade e a graciosidade de J. ― mesmo quando a flagrava a tentar medir a minha reacção à passagem de outros homens ou quando ela, sem dar parte de fraca, armou um encontro “casual” entre mim e um seu vizinho gay… J. tornou-se, em poucos dias, uma amiga querida e devolveu-me a certeza de que eu, por muitas voltas que a vida dê, vou sempre viver rodeado de mulheres. Elas fazem-me muito bem.

(continua…)

20.4.08

Numa noite de chuva...


I've been looking for a savior in these dirty streets
looking for a savior beneath these dirty sheets

(
Crucify
, Tori Amos)


Não falta muito para as cinco da manhã quando o Will me deixa na esquina. Insisto que posso percorrer a pé a meia dúzia de metros que me separam da porta do prédio, apesar da noite chorar copiosamente. Gosto de chuva, mas prefiro vê-la da vidraça, já a salvo, enquanto me liberto da roupa impregnada de tabaco. Apetece-me cair na cama, mas antes atiro para o fundo da chávena um punhado da mistura perfumada que trouxe. Verto a água em ponto de fervura sobre a infusão e dela se desprende, aos poucos, o aroma a canela. Está pronto o chá. Noto agora, estou ligeiramente ressacado.

Ainda oiço, cada vez mais distante, a voz de Tori Amos interrogar-se: why do we crucify ourselves? Sei lá eu… tenho sono e não estou para pensamentos profundos a esta hora. Aninho-me no edredão em vez de me esparramar na cama que esta noite tenho só para mim. Adormeço ao som da chuva, como gosto.

O domingo amanhece indeciso. Levanto-me amarrotado. Decididamente, estou ligeiramente ressacado. Saio para comprar o jornal e decido tomar o pequeno-almoço na rua, rodeado de gente sem nome. Esta coisa de ser um rosto anónimo na grande cidade nunca me incomodou. A cidade está-me nos genes.

Curioso, porque na véspera, por umas horas, despi a máscara do anjo negro e mostrei-me apenas como um homem. Sem asas e sem a distância segura da escrita. Um salto sem rede calculado, ainda que não seja fácil chegarmos fashionably late – com diria o sacana arrogante, mas bom todos os dias, Brian de Queer as Folk – a um jantar com 30 e poucos bloggers e não bloggers (não os contei…). Sobretudo quando todos os olhos se viram na nossa direcção e nós apenas reconhecemos um ou dois rostos, no máximo, e isto porque os vimos antes em fotos. Felizmente tinha o Will como fiel escudeiro – aliás, e porque nunca é evidente quebrar o gelo com tanta gente em tão pouco tempo, foi ele, mais do que todos os outros, que fiquei a conhecer ainda melhor. Mas gostei, por exemplo, de confirmar que o Pinguim é exactamente aquilo que dá a ver no seu blogue; que o Papagueno, afinal, também é o Special K; que o Teddy Bear e o Little Teddy Bear estão focados um no outro mas não excluem os demais; que citar Clarice Lispector, mais do que oportuno, foi um acto de generosidade do Paulo e do Zé; que a Keratina soube encarar com galhardia o facto de ser a única mulher entre muitos homens madrugada fora; ou ainda que o Luís Galego, hábil na arte de lançar o enigma como ardil, daria ele também um bom objecto de análise.

E mais haveria, por certo, a comentar, mas eu, que gosto sempre mais de observar do que ser observado, resolvi que me apetecia, mais do que tudo, dançar e beber. E foi isso que fiz até decidirmos, eu e o Will, que estava na hora de bater em retirada. Ainda não chovia.