Mostrar mensagens com a etiqueta Desabafos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desabafos. Mostrar todas as mensagens

1.12.08

Strangeluver

by Joe Oppedisano


Looking everywhere, I see nothing but people
Looking everywhere, but I see nothing but people
Where have they gone? I always thought I could never leave them
They are calling me, but they don't know I can't stay all night long

(Dr. Strangeluv, Blonde Redhead)



Há uns bons anos, num daqueles jantares que antecediam uma noite de copos e desvarios no Bairro [Alto], alguém me perguntou, já não me lembro a propósito do quê (nem isso interessa para o contexto), se me considerava romântico... Sem pensar muito, soltei um lacónico "Tenho dias" que suscitou um risinho nervoso entre os presentes e uma aquiescência generalizada que valia por um "Lá está ele a armar-se em diferente". Ainda hoje recordo a cena, com um misto de orgulho e de pesar, e dou por mim, não tão raro como isso, a reflectir no peso (e nas implicações) que essa mesma postura ambígua, cultivada com igual bravata mas também com algum desconforto à mistura, tem tido na minha vida amorosa ao longo dos anos como Homem adulto.


Não sou romântico, facto assente, mas, mais do que ser capaz de gestos românticos, eu cultivo até, quando estou para ai virado, certas intenções românticas. O que não é bem a mesma coisa. Talvez por isso, não sei ao certo, nem sempre me faço entender; todavia, pior do que não ser inteiramente compreendido nas boas (e más) intenções, é a dificuldade, mais minha do que dos outros, em conseguir achar um ponto de equílibrio entre o não ser (ou não querer ser) romântico e o poder estar romântico - que é como quem diz: eu não sou romântico,
mas estou muitas vezes romântico. Não vejo nisto uma contradição de termos, mas admito que possa estar equivocado.


Da mesma maneira que ontem me escapulia de mulheres terrivelmente cor-de-rosa em busca de um porto seguro, agora não escondo igualmente a desconfiança sempre que me vejo às voltas com homens assumidamente românticos que me passam a sensação de uma vulnerabilidade e de uma dependência extremadas - algo que passei a definir por "sindroma do domingo à tarde no sofá" e que me coloca quase de imediato, como nos desenhos animados, em sinal de alerta! Escrito por outras palavras, eu diria que manifestações do tipo "Quero tanto encontrar alguém com quem possa me enroscar aos domingos à tarde, num sofá, a ver filmes" desperta em mim a mesma apreensão, para não ser bruto e falar antes em aversão, que me dizerem "Quero ter alguém para me aquecer os pés"!

Não me entendam mal, eu adoro tardes de preguiça num sofá e não sou insensível à questão dos pés frios - em sentido figurado ou não -, mas só acho brochante ter isso logo por condimento numa altura em que a conquista dita outro tipo de pimenta.
Para falar honestamente, ando um bocado assustado com o número impressionante de gajos aos suspiros que me tem aparecido nos últimos tempos... A partir de que momento é que os homens caíram na ratoeira de também eles andarem à procura do príncipe encantado? Não é por nada, mas quando se está mais interessado em seduzir e em ser seduzido, a ideia de passar directamente à sala e ao sofá não me é nada estimulante...

Há muito que tenho claro não fazer minimamente o género "foder-como-se-não-houvesse-amanhã-sem-olhar-a-quem, mas, por outro lado, também não faço de todo a linha "homem-para-casar-e-prestes-a-calçar-as-pantufas. Procuro um meio-termo, mas o meio-termo não tem sido nada fácil de encontrar. Ou então, lá está, eu é que não tenho sabido hastear a bandeira certa e isto de não ser, mas poder estar, romântico não passa de mais um mito urbano.

6.11.08

Passa a outro e não ao mesmo...


They only want you when you're seventeen
When you're twenty-one
You're no fun
They take a polaroid and let you go
Say they'll let you know
So come on

(Seventeen, Ladytron)


Como já dizia o outro, não sei bem quem, mas também não vem ao caso, não há fome que não dê fartura. E não há fartura que não dê enjoo, acrescento agora eu. Depois de várias semanas a brincar ao gato e ao rato, resolvi que merecia umas tréguas. Não, não tirei o meu da recta, salvo seja, mas um bom estratega sabe sempre a hora certa de se retirar de campo. Sai de cena, mas estou disposto a voltar a jogo logo que a ocasião surja. Neste meio tempo, aproveitei, por exemplo, para me entupir de DVD's e para ver ao vivo os Ladytron no Lux - adoro a liberdade de poder andar na boa-vai-ela (sempre quis usar aqui esta expressão e descobri que vem no Houaiss!) numa terça à noite, ainda para mais tendo por companhia uma amiga que é tudo de bom na minha vida (e pensar que estive a ponto de trocar a sua companhia no concerto por um tipo que virou abóbora...).

Mas, e para provar que não rio apenas da desgraça alheia, permitam-me que vos faça o apanhado rápido de um, talvez o mais caricato, dos meus désaires mais recentes:
No post anterior contei-vos do antropólogo, que vim a saber depois ser também professor universitário - segundo o meu amigo Latinha, eu demonstro uma propensão alarmante por académicos...

A forma como tudo começou parecia tirada de um filme. Em menos de um ano, saía-me na rifa um gajo que tinha o nome do meu primeiro ex-quase namorado, e olhem que não é um nome lá muito comum, e que sabia escrever - e como escrevia bem, o filho da mãe! Desarmou-me pelo meu ponto mais erógeno, o cérebro, e entre tanta coincidência e gosto comum não nos tornámos amigos de infância porque, enfim, já não íamos a tempo.

Só que, mesmo quando cativado, eu não deixo de ficar atento e havia nas entrelinhas pequenas pistas semeadas que me perturbavam sobremaneira: percebi, por exemplo, que a relação de que ele queria tanto sair - ou não, não cheguei a entender... - tinha alguns contornos bizarros, quase doentios... Fiquei de sobreaviso. Ai, como quem não queria a coisa, começou a dança do acasalamento com pérolas do género "Estou com vontade de te despentear, no sentido literal" ou "Tou com uma insónia de todo o tamanho (...) Eu não devia escrever-te à uma e tal da manhã, n'est-ce pas? O que é que o Oz vai pensar do F.? Don't let him know that you are alone, thinking of him in the middle of the night...".

Tinha uma certa graça, ou por outra, eu achava uma certa graça àquela corte à luz das velas, embora na altura, verdade seja dita, eu andasse entretido a teclar madrugada fora com o ninfeto formado em Literatura Clássica (outro académico... o Latinha bem sabe o que diz...) - que grande sacana, pensei eu, afinal também sou capaz de agir como um sacana!, e quase rebentei de orgulho. Mas, à medida que se aproximava a passos largos o momento em que íamos ficar face to face, a luz vermelha começou a piscar e não mais parou; vai ele e atira à queima-roupa: "Mas já agora, há algumas coisas sobre mim que talvez seja melhor saberes antes que se torne ou irrelevante ou complicado de falar delas. Não me dou assim muito bem com homens que têm o culto excessivo dos banhos e dos produtos de higiene, um pouco como as mulheres têm (...) O que eu quero dizer é que, para mim, um homem é um homem, o seu estado mais atraente é o seu estado natural, com pelos e cheiro a «suor, mijo e esperma», para citar a fórmula do Perfume".

Okay, pensei, sou um tipo arejado, deixa-me cá não levar isto ao pé da letra e dar o devido desconto semântico. Só que ele voltou à carga para desfazer as dúvidas: "Se for for meu amante, a única coisa que eu peço é que me deixe também usufruir do seu corpo (e da sua roupa interior) quando está com cheiro a homem".

Nessa altura, acabaram-se igualmente as minhas dúvidas: este gajo não me apanha entre os lençóis, eis a minha sentença. Tenho-me, no entanto, na conta de um tipo que sabe separar as águas. Pensei, na minha santa ingenuidade - e eu todo ufano por, ao mesmo tempo que lhe dizia talvez, manter outras opções em aberto... -, que cada um sabe do que gosta e que, chegados àquele ponto, seria um desperdício descartar um fulano que poderia vir a ser um amigo - se um amigo sente gozo em ir para a cama com homens a cheirar a cavalo e em snifar cuecas meladas, posso até torcer o nariz, mas é lá com ele!

Escusado será dizer que o trovador não queria amigo porra nenhuma. Ele queria mesmo era um gajo que alinhasse na rambóia. Assim que percebeu que eu sou lavadinho e não dou as minhas cuecas a cheirar, não deu parte de fraco, mas não perdeu tempo a mandar-me umas linhas, sempre em prosa elegante, já não mais a querer despentear-me, mas a despachar-me, literalmente é claro.

Toma e embrulha. Tão cedo, se esta me serviu de lição, não me volto a meter com alguém que não seja do meu tamanho...

16.9.08

Purga


So now for restless mind, I could go either way
(Don’t Bring Me Down, Sia)


Há já alguns dias que trazia este post alinhavado mentalmente e ia ser no meu melhor estilo leve-solto-e-não-sou-de-jogar-fora. Entre outras ligeirezas, ia falar do meu cabeleireiro, tema recorrente (para verem a importância que dou ao meu cabelo), que está cada vez mais abichanado para o meu lado, sem que eu consiga perceber se isso é bom ou mau sinal, e das massagens no escalpe para amansar o pêlo que ali recebo, uma maneira de compensar o tempo (o imenso tempo) de espera até o rapaz me colocar, salvo seja, as mãos em cima; ia falar do jovem actor, apareceu numa altura em que eu ainda estava descabelado (o que não é lá muito justo), com quem troquei olhares furtivos, a quem cobicei as botas e a quem invejei o físico; ia falar do Nanolift, que anunciam como uma espécie de "milagre" da cosmética (mais um), um cocktail pós-injecção, pós-laser, pós-cirurgia, pós-peeling, perfeito, dizem, para acabar com os pés-de-galinha à volta dos olhos; ia falar do estado catatónico em que andei, ao ponto de me rever em cada letra de música; ia falar de Before the Devil Knows You're Dead, um filme denso, (a)moral, onde Philip Seymour Hoffman (Capote, Magnolia...) é, mais uma vez, portentoso; ia falar do tipo, belíssimo exemplar com o seu quê de animal exótico, com quem tive uma espécie de encontro imediato, não fossem os sacos de compras (dele) e do ginásio (meu) terem atrapalhado a mobilidade.
Ia falar de tudo isso, e talvez ainda de uma ou outra insignificância de que me lembrasse à última da hora, mas já não vou. A minha semana começou mal. Minto. Não começou, porque, de certa forma, o que aconteceu assemelhou-se mais à última gota que faz transbordar o copo. Há um bom tempo que não ando nada bem; há um bom tempo que não gosto nada do rumo que a minha vida tomou. Só que, como tenho imensa dificuldade em dar parte de fraco, fui tratando de sacudir a poeira para debaixo do tapete. Permiti-me, de vez em quando, aqui e acolá, um grito de raiva, um desabafo. Mas nunca foi o suficiente para exorcizar os (meus) demónios.
O golpe de misericórdia, que me atingiu como se tivesse sido atropelado por um camião, chegou sob a forma de uma ruptura penosa. Uma ruptura que eu não fui capaz de fazer, de maneira definitiva e de forma a não deixar qualquer porta entreaberta, lá atrás. Permiti que a situação se arrastasse muito para lá do razoável - sei lá se por ingenuidade; sei lá se por vaidade oca de saber alguém incapaz de me esquecer; sei lá se por não saber dizer não taxativamente; sei lá - e agora isso tornou-me co-responsável deste desfecho triste. No fundo, deveria sentir-me aliviado, porque acabou de vez, mas não consigo ser egoísta e frio ao ponto de saber alguém de quem gostei mal sem que isso não me atinja também por tabela.
Sou cabeça dura; mesmo na merda, eu insisto sempre em extrair alguma coisa de positivo, na lógica do "há males que vêm por bem". Ao ter caído finalmente por terra, com os meus cacos espalhados por tudo o que é canto da sala, eu não tenho mais como seguir como se nada fosse - não me parece mal que assim seja. Mais: desta vez, não vou a correr juntar todos os pedaços para os colar à pressa, sempre na esperança bacoca de que, se me esforçar, ninguém vai perceber que estou remendado.
Preciso admitir, por muito que me doa, que não estou feliz. E não estou feliz porque, ao contrário de outras áreas que sempre consegui controlar, a minha vida sentimental é um barco à deriva. Choca-me perceber, eu que sempre fui tão racional (e talvez seja esse um dos problemas, o ser racional quando devia ser emotivo), que tenho uma propensão inegável para envolvimentos complicados - nunca me dou por inteiro a quem se apaixona por mim, antes me aproximo de quem nunca se vai apaixonar por mim. As minhas relações, além de incompletas, são desequilibradas. Constatar que isto se tornou um padrão é para mim igual a levar um soco no estômago, pois sempre me tive na conta de alguém difícil, mas, ainda assim, equilibrado. Que atracção é esta pelo abismo, pelo improvável, pelo que está fora de alcance? É masoquismo? É autodefesa? É auto-boicote? O que eu ganho, que prazer é que eu tiro de relações em que sou usado para tapar a solidão e a carência?
Não tenho resposta para nenhuma destas perguntas. Ou tenho, mas não são as certas. Não estou habituado a não saber que rumo dar à minha vida. Não estou habituado a sentir-me impotente quando se trata de me regenerar. Preciso de uma purga, mas esta não é daquelas que vai lá com uma crise de choro homérica para lavar a alma. Estou ferido, preciso sarar. Estou perdido, preciso parar e ter a humildade de pedir ajuda para achar o caminho. Sozinho não vou lá. Por ora, só me permito uma certeza: eu vou sair desta. Pode demorar, mas eu vou sair desta. E a cada música de Sia que escuto, melhoro um pouco, porque, perdõem-me a presunção, todas foram escritas para mim.

11.6.08

Com as calças na mão


Sexy boy, sexy boy ...
Où sont tes héros aux corps d'athlètes
Où sont tes idoles mal rasées, bien habillées
Sexy boy, sexy boy ...
Dans leurs yeux des dollars
Dans leurs sourires des diamants
Moi aussi un jour je serai beau comme un Dieu
Sexy boy, sexy boy ...

(Sexy Boy, Air)


Se for apanhado com as calças na mão, ao menos que esteja a usar um par de cuecas Aussiebum. Como não é o tipo de presente que se peça de aniversário à mãe ou à tia, eu mesmo tratei do assunto: fui direito ao site e fiz a festa. Ainda acho que a marca australiana deveria fazer uma forte campanha publicitária junto dos familiares que têm por (mau) hábito oferecer cuecas e meias ― sem um pingo de imaginação ― pelo Natal…

Enfim, para compensar tamanho arremesso de futilidade, aproveito os feriados e a chegada do Verão ― que já tardava! ― para colocar a leitura em dia. De uma penada só, devoro Hermann Hesse, Ian McEwan e José Eduardo Agualusa. Diz Siddhartha:
«Podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria. Podemos encontrá-la, podemos vivê-la, podemos ganhar importância com ela, podemos fazer maravilhas com ela, mas não podemos comunicá-la e ensiná-la.»

Partilhar conhecimentos é bom. Podemos sempre aprender alguma coisa com os erros e acertos alheios. Mas há limites para a partilha. Em vésperas de Santo António, em vez de ir desabafar com o santo casamenteiro, a minha amiga do post anterior, a confirmar os meus receios, cismou em fazer de mim seu cúmplice à força. Assim, antes de nos lançarmos na orgia de sangria, sardinha assada ― que eu dispenso! ― e manjerico, vou ter de passar pela dura provação de a ouvir contar-me, com detalhe e minúcia, o que se passou entre ela e o “motoqueiro galanteador”... As mulheres, mesmo as que se dizem modernas e muito à frente, são vítimas delas mesmas. Passo a explicar. No início, armam-se em fortes, dão trela a marmanjos que, está na cara, só as querem apanhar entre os lençóis, mas insistem... Argumentam elas que estão a dominar as regras do jogo e, como tal, são perfeitamente capazes de encarar o sexo como algo descartável. Siga para bingo.

O pior vem depois. Podem até não dar parte de fracas na altura, mas assim que deixam a toca do lobo e ficam a remoer no que ouviram da boca do gabiru ― o clássico “não tenho vocação para o compromisso nem para a fidelidade”, metido desajeitadamente entre uma garfada e um gole de vinho, e que vale como o seguinte aviso de navegação: não te iludas que o jantar a dois é mesmo só um pretexto porque parecia mal irmos para a cama a seco ―, mal disfarçam a falsa resignação de quem “foi comida e não gostou” . E como as amigas estão longe, e os seus sentimentos para comigo são algo ambíguos, sobrou para mim fazer as vezes de ombro amigo. Deve ser castigo… Só pode ser castigo. É nestas alturas que gostaria de ser apenas, e só, um sexy boy como aqueles rapazes que vêm nos catálogos da Aussiebum... Mostram o que está à vista e a mais não são obrigados.

3.4.08

A profecia

Alusão à cena bíblica em que Jacob luta com o Anjo, tema também de uma obra de José Régio que vale a pena conhecer.


Calling all angels
I need you near to the ground
I miss you dearly
Can you hear me on your cloud?
All of my life
I've been waiting for someone to love
All of my life
I've been waiting for something to love

(Calling All Angels, Lenny Kravitz)


Volto zonzo de mais uma viagem, com a sensação de estar esvaziado por dentro. Talvez a culpa não seja de quem me acompanha. Mea culpa, por não ter ao meu lado quem eu quero e preciso nas horas em que as camas de hotel se tornam demasiado pesadas. Ao regressar a casa, atiro-me ao que resta dos chocolates da Páscoa e no DVD coloco directo a série completa de Angels in America ― pergunto-me como foi possível ter passado todo este tempo ao lado de uma obra-prima como esta! Ainda para mais realizada por um dos meus realizadores de eleição, o Mike Nichols (de filmes como Closer, que adoro também!), e com actuações fabulosas de consagrados como Al Pacino e Merly Streep e revelações como Jeffrey Wright e Mary-Louise Parker.

Na sequência em simultâneo em que Louis abandona cobardemente o seu namorado, Prior, às portas da morte no hospital e em que um muito torturado Joe revela finalmente à mulher, Harper, que é homossexual, fico por uns segundos no limiar.

Recomponho-me.

Que bela escolha, estão a pensar alguns de vocês por esta altura, para alguém que estava na mó de baixo… Pois é, acontece que eu nunca tive medo de densidade emocional nem de bons argumentos, o que me assusta mesmo são as histórias de que deserto a meio porque deixo de querer saber como acabam, os orgasmos frouxos, os beijos que não me fazem perder a vigília e as pessoas que supostamente se apaixonam por mim não por aquilo que eu sou e lhes tenho para dar mas por aquilo que elas queriam que eu fosse no seu mundinho perfeito do faz-de-conta.

Porra, crucifiquem-me em praça pública, amarrem-me na lanterna dos inaptos para amar, por não querer ― ainda, não sei se um dia ― a casa, as cuecas misturadas no varal, o almoço de domingo, o amor sereno ou a mão dada no supermercado…

Eu quero e preciso é de perder o chão, do nó na barriga, da vertigem, do orgasmo que me faz quase perder os sentidos, do beijo que me deixa com vontade de mais e da inquietação de querer virar a próxima página para descobrir o que vem depois. Não me façam ultimatos. Obriguem-me antes a sair do pedestal e tornem-me vulnerável. E eu juro que vou. Nem que seja para ficar na cama ao lado a velar pelo teu sono.

14.3.08

Entre gajos



Went to school and I was very nervous
No one knew me
No one knew me

Hello teacher tell me what’s my lesson

Look right through me

Look right through me

And I find it kind of funny

I find it kind of sad
(Mad World, Gary Jules)




Viagens de trabalho são fodidas – e olhem que as minhas vêm acompanhadas de uma série de brindes, entre os quais dormir em hotéis cinco estrelas, comer nos melhores restaurantes e ter acesso a lugares e a pessoas que, de outra forma, me seria muito difícil, para não dizer impossível.
Mas, ainda assim, são fodidas as viagens de trabalho. Nem tanto porque deixo de ter domingos ou dias santos; nem tão pouco porque sou obrigado a pular mais cedo da cama do que o habitual - God knows como eu gosto de acordar cedo! -; nem sequer porque me vejo forçado a ouvir coisas que não me interessam e/ou a ver coisas que não me dizem nada. Tudo isso faz parte do pacote.

O que me deixa meio assim, cada vez mais, é o facto de elas me colocarem perante um facto consumado: o de que, por uma série de dias ou até semanas – e a minha paciência tende a diminuir na mesma proporção que o número de dias aumenta... –, vou ser obrigado a privar intimamente com os meus colegas. Não me entendam mal. Ao longo da vida já tive vários colegas que se tornaram óptimos amigos, mas, regra geral, não faço disso uma prática corrente e gosto de separar as águas.

O que fazer então quando as ditas das viagens nos colocam não só mais na mesma sala por várias horas, mas também, com um pouco de azar, no mesmo quarto, no mesmo carro, na mesma mesa e, pior, no mesmo bar ou boate a emborcar copos para relaxar por dias a fio? Sei que para muitos a ideia de ir para a farra com os colegas até pode soar a um bom programa – e nem digo que não seja, dependendo do que se bebe, onde se bebe e com quem se bebe -, mas o álcool traz consigo um pequeno detalhe: solta as línguas e estimula a troca de confidências. Revelações sem as quais nós sempre vivemos bem – aliás, sou mesmo da opinião que há coisas pessoais sobre os nossos colegas que nunca, em hipótese alguma, deveríamos saber! E é então que, fora de casa, largados no mundo, sem contas a prestar, começam as coisas de gajos. E os gajos querem o quê? Gajas, pois claro. E quantos mais forem os gajos no grupo, pior será, já que, é sabido, gajo que é gajo não gosta de dar parte de fraco à frente de outros machos.

Até hoje – orgulho-me disso – tenho conseguido gerir bem esses pepinos e muito raramente me lembro de ter cedido à pressão de sentir que tinha de provar fosse o que fosse aos outros machos da espécie. Não o fiz quando vivia como hetero; não o faço agora, por muito que não me apeteça especulações acerca de quem levo ou deixo de levar para a cama.
Estou consciente que, ao longo destes últimos anos, já terei levantado suspeitas em alguns dos meus colegas, mas sou discreto e ambíguo o suficiente para que ninguém possa ter certezas. Logo, na dúvida, sou mais um. Mais um que tem de ouvir – e ainda achar graça! – a piadinha rasteira lançada à empregada de mesa, de fingir solidariedade com uma classe que se diz ameaçada por um cada vez maior número de maricas assumidos - e esboçar um riso amarelo quando alguém se apressa logo a acrescentar o remoque da praxe: “por mim tudo bem, é da maneira que sobram mais mulheres para nós”! -, de gramar a tipa que, entretanto, se juntou a nós e graceja com o facto de ser o “homem” da sua loja – como se ser gay fosse necessariamente sinónimo de incapacidade para cumprir “tarefas masculinas” como trocar um fusível ou contratar um empreiteiro -, ou ainda de me conter para não lançar uma bojarda quando uma outra gaja se queixa da “tremenda” injustiça que é o facto de homens muito bonitos serem paneleiros…

Posto isto, devo dizer que não vivo, regra geral, num meio hostil aos gays. É mais aquela coisa – que pode também ser muito irritante e tão ou mais ofensiva, por ser encapotada – do famigerado politicamente correcto. O típico “ até tenho amigos pretos” de outrora deu lugar, parece-me, ao pouco convicto “não tenho nada contra os gays” de agora. Isso, desde que, claro está, os maricas não dêem muito nas vistas e se comportem como gente “normal”.

E tem sido assim que eu, que nunca sonhei em ter a minha vida limitada a uma Liberty Avenue (referência a Queer as Folk) – porque não gosto de guetos – e não frequento as Babylons da vida airada (nova referência a Queer as Folk) – porque prefiro a pluralidade de opções e de possibilidades (e ainda tenho um medo danado de boate gay, essa é a grande verdade que não cala! Hahahahahah) -, tenho compreendido melhor os gays que optam por socializar apenas em ambientes gay friendly. Não me estou a ver a fazê-lo – porque, repito, gosto muito de me dar com todo o tipo de pessoas -, mas percebo. É realmente uma violência grande essa a de termos de fingir ser uma coisa que não somos. Fingir gostar de algo que até gostamos, mas não da mesma forma nem para o mesmo fim.

Será talvez o preço justo a pagar por viver com um pé lá e outro cá. Mas já me custou menos. Bem menos.


25.2.08

Costas largas

O escritor Yukio Mishima numa alusão a São Sebastião, ícone gay

Reach out and touch faith
Your own Personal Jesus
Someone to hear your prayers
Someone who cares
Your own Personal Jesus
Someone to hear your prayers
Someone who's there

(Personal Jesus, Depeche Mode)


Na semana passada, o mundo escutou, entre a perplexidade de uns e o costumeiro encolher de ombros de outros, mais uma pérola proferida por alguém que insiste em interpretar a religião como um divisor de águas em vez de a entender como uma ponte para melhor entender e aceitar o outro, ainda que diferente.

Disse Shlomo Benizri, um dos 12 deputados do partido ultra-ortodoxo Shas, que integra a coligação do governo israelita no Knesset (parlamento):
- «O Talmud ensina-nos que uma das causas dos sismos é a homossexualidade legitimada pelo nosso parlamento».

Por outras palavras, este senhor atribuiu aos homossexuais a responsabilidade pela onda de sismos que atingiu Israel nos últimos meses, pois Deus ― segundo uma leitura muito particular, para não dizer deturpada, do Talmud (livro sagrado da religião judaica) ― advertiu que não se deve “menear” os genitais indevidamente. Não satisfeito, e ignorando estoicamente uma lei aprovada, em 1988, que reconhece os direitos dos homossexuais em Israel, Benizri fez ainda questão de acrescentar que de nada adianta implementar medidas tardias para combater os movimentos das placas tectónicas se não forem “eliminadas as causas”.

Habituado a declarações deste calibre, a reacção do presidente da Associação Israelita de Lésbicas e Gays, Mike Hammel, socorreu-se da fina ironia para responder à letra:
-"Se alguém pergunta por que os membros do partido Shas estão tão obcecados com a nossa comunidade, podemos responder recordando o caso daquele senador norte-americano que, depois de uma longa e feroz batalha contra os gays, revelou que era homossexual".

Mas eu, que sou (quase) sempre a favor de não perder a compostura, nem a educação, face à intolerância mais primitiva, felizmente, posso mandar aqui o cavalheirismo às malvas e soltar um sonoro: irra que há por ai gente muito (mal) fodida!

23.1.08

Alô, Terra!



And I think it's gonna be a long long time
Till touch down brings me round again to find

I'm not the man they think I am at home
Oh no no no I'm a rocket man

Rocket man burning out his fuse up here alone
(Rocket Man,
na versão de David Fonseca)



Amiga: Não babaste com a Keira?
(Para os distraídos: Keira Knightley, a actriz principal do filme Expiação, Atonement no original, candidado ao Óscar de melhor filme; para os mais distraídos: é aquela miúda nua ao lado da roliça Scarlet Johansson e do Tom Ford, numa capa da Vanity Fair que deu brado)

Eu: Não. Acho que tem um rosto muito bonito, é elegante, mas não faz bem o meu género…

Amiga: Não faz o teu género??!!


Eu: Pois… (pausa) É como te disse, acho-a bonita e tal, mas não faz muito o meu género (nova pausa) Talvez seja excessivamente magra, sei lá…
(Calo-me a tempo; por um triz não aponto o facto de ter achado que o vestido cor-de-jade, o famoso vestido cor-de-jade com que aparece no filme, não lhe caía lá muito bem no decote pouco preenchido…)

Amiga: É muito esquisito o rapazinho… Assim não vais longe!


O pior é que ela tem razão… Assim eu não vou longe. É o que dá eu não gritar em plenos pulmões: "I'm not the man they think I am at home / Oh no no no I'm a rocket man".

11.11.07

Ressaca


When you go
Would you even turn to say hey
"I don't love you
Like I did
Yesterday"

(I don’t love you like I did yesterday, My Chemical Romance)


Nas duas últimas semanas, o meu trabalho absorveu-me e esgotou-me como há muito não acontecia. Mas fi-lo sem queixas, pois estive a fazer algo que me deu enorme gozo. Por mais de uma vez, já tive o privilégio, e a felicidade, de me realizar profissionalmente, mas sempre tive bem claro que, tal como não me limito a trabalhar para viver, também não vivo para o trabalho por mais que goste do que faço. Mas sei, com o devido mea culpa, que é muito fácil perder o pé e errar a mão. Sobretudo quando retiramos prazer do que fazemos e vamos deixando para trás coisas e pessoas, convencidos de que a hora é aquela e que mais tarde poderemos voltar atrás para apanhar o que sobrou e colar os cacos. Já me aconteceu. Talvez por isso, eu tenha hoje o dobro do zelo para dar a cada coisa o seu devido espaço e não cair na asneira de as misturar. Não dá direito a happy end, acreditem.

Vem isto a propósito de uma conversa que tive há dias com um colega. Encostados a um balcão de bar, depois de várias cervejas ― e há situação mais propícia à (in)confidência? ―, ele, que deixou o seu país e muita coisa para trás por amor a uma mulher, dava-me conta que o seu casamento de apenas dois anos se ressentia até certo ponto das suas constantes ausências devido ao trabalho. Ele tem perfeita consciência disso, mas esta ― a sua realização profissional ― é das poucas coisas, talvez a única, de que não está disposto a abdicar, certo de que sem isso acabará por se tornar um homem infeliz e, necessariamente, alguém incapaz de fazer feliz quem estiver ao seu lado.

Mais do que dar palpites, escutei o seu desabafo, mas aquilo ficou a ressacar na minha cabeça.
- Até onde estamos dispostos a ir, a abdicar, em nome de uma promessa de felicidade?
- Até que ponto poderemos ser felizes, e fazer feliz quem nos rodeia, se anulamos parte do que somos?
Confesso que se nunca fui muito idealista a este respeito, estou ainda mais céptico. Sobretudo agora que me meto também na pele daqueles que, mais do que por amor, abandonam tudo, ou quase tudo, o que lhes é familiar para ir viver de forma mais livre a sua (homo)sexualidade.

- Não será demasiado alto o preço a pagar?
- E o vazio do que se perdeu, chegará algum dia a ser preenchido pelo que se ganhou?

Perguntas sem resposta. Ou melhor: perguntas a que eu não consigo responder de forma clara. Aliás, eu que me gabava até há certo tempo de nem sempre saber o que queria, mas de saber muito bem o que não queria, dei por mim a chegar à dura constatação de que até esse postulado de almanaque está furado. Pelo menos no que à minha pessoa diz respeito. “No fim, quem sofre mais são sempre aqueles que não sabem aquilo que não querem”. Li isto, ou ouvi, um dia destes. Touché.

19.10.07

Eles e ela


Like the little school mate in the school yard
We'll play jacks and uno cards
I'll be your best friend and you'll be mine Valentine
Yes you can hold my hand if you want to
'Cause I want to hold yours too
We'll be playmates and lovers and share our secret worlds
But it's time for me to go home

(Big Girls Don’t Cry, Fergie)


A cena repete-se. Uma vez mais. Eu e a televisão. Desta feita, o meu zapping leva-me a aterrar numa dessas tertúlias obscuras do social cor-de-rosa. Discute-se, como se ainda houvesse algo de novo (ou de credível) a acrescentar, o caso de Diana com o playboy Dodi al Fayed. Alguém opina que o pai, o milionário Mohammed al Fayed, só teima na teoria da conspiração para não ser obrigado a enxergar o óbvio: Dodi era gay e ter-se feito acompanhar de uma bela mulher nos seus últimos dias de vida não prova o contrário. Vão mais longe; uma das especialistas na matéria, presente em estúdio e com ar de quem falava em causa própria, arremata: “o que não falta por ai são gays que desfilam para cima e para baixo com mulheres vistosas!”. Tomem e embrulhem.

Esta ladainha, em rigor, já tem barbas. Lembro-me mesmo der ter lido, certa vez, um artigo que se debruçava precisamente sobre elas, as tais mulheres que, num dado momento das suas vidas, preferem a companhia de gays assumidos ou não ― com casos de todos conhecidos como o de Geri Halliwell, a eterna GingerSpice, e George Michael ou ainda de Madonna e Rupert Everett ―, merecendo por isso a designação jocosa de Fag Hags.

Sosseguem… não me vou pôr a filosofar sobre as razões que poderão levar um gay a querer ser visto em público com uma mulher ― já há teorias de sobra e eu, para dizer a verdade, nem estou interessado na maioria delas! Mas a estória fez-me recordar um episódio vivido durante uma das minhas viagens de trabalho. Ia acompanhado por um colega mais novo, todo metido a garanhão, que me apresentou uma amiga de longa data que ali se encontrava radicada há vários anos. Ela, a amiga, uma mulher interessante, bem disposta, bem relacionada e solteira, disponibilizou-se para fazer de nossa cicerone algumas vezes. Numa dessas noites, a do seu 36º aniversário, convidou-nos inclusive para o seu jantar de comemoração. Na hora de nos sentarmos à mesa, feitas as apresentações, estranhei o facto de, tirando ela, sermos todos homens, mas não dei muita importância ao assunto. É claro que a dada altura, já depois de bem comidos e bebidos, até eu, que nasci com o “gaydar” avariado, não pude deixar de reparar que o grosso dos homens ali presentes era gay… gritantemente gay! Devo dizer que, dadas as circunstâncias, o meu colega, ponto seu, se portou à altura e não teve um daqueles chiliques clássicos que costuma acometer os heteros sempre que se vêem rodeados de gays por todos os flancos. Foi simpático e sociável durante todo o jantar.

Mas o pior estava para vir. Dali seguimos para uma festa que decorria, supostamente, no loft de um artista plástico. Mais uma vez, eu, sempre a leste do paraíso, achei tudo óptimo à entrada: pessoas de várias nacionalidades, música, bastante espaço e todos a servirem-se de bebidas na cozinha, o que me fez recordar as minhas wild parties quando estudava em França… Estava eu imbuído dessa nostalgia estudantil, quando o meu colega me chamou à parte e me pediu para olhar bem à volta… Admito que levei um susto! As poucas mulheres que se encontravam na nossa chegada tinham-se evaporado e o que havia com fartura era marmanjos, por todo o lado, e alguns deles já em fase avançada do amasso. Ele quis ir-se embora imediatamente e eu nem ripostei, pois, acordado para o propósito da festa, senti-me também deslocado. Procurámos a amiga dele, despedimo-nos e zarpámos. Ela ficou, como se nada fosse, rodeada dos seus amigos gays. Foi então, já no táxi, que ele proferiu uma frase que guardei:
- “Ela só vive rodeada de panascas para não ter de encarar que tem trinta e tal anos e está sozinha!”.
A tirada machista, mas que tem, quer se goste ou não, algum fundo de verdade, fez-me rir em silêncio. Não disse, mas pensei:
- “O problema maior dela, porventura, não é ter 30 e tal anos e viver rodeada de panascas! É, talvez, encontrar apenas tipos disponíveis como tu que, tirando a queca - transa - da praxe, não se mostram suficientemente interessantes para ela preferir a vossa companhia à dos ditos panascas!”.

Mas resolvi que ele já tinha tomado a sua dose por essa noite.