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11.5.09

Passar a mão pelo pêlo



Well somebody told me
You had a boyfriend
Who looked like a girlfriend
That I had in February of last year
It's not confidential
I've got potential
(Somebody Told Me, The Killers)


A meio da missiva, ele arma o laço já sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar ao que está:
- "Pareces-me um belo espécime de puro lusitano."

Era suposto, acho, ter ficado envaidecido. De bola cheia. Em vez disso, fiquei a pensar que, definitivamente, não é por ai que me vão ver arreado. Mais. Se é para me domar, é bom que o encantador de cavalos saiba pronunciar as palavras certas. E ser tratado como um puro-sangue em dia de feira, a quem só falta, já agora, arreganhar os dentes, não me amolece, nem abranda o trote. Antes faz com que dispare, estrategicamente, em retirada.

8.2.09

Ajoelha e reza

Blowjob by Dolce & Gabbana


Are we human or are we dancers?
My sign is vital, my hands are cold
And I'm on my knees looking for the answer
Are we human or are we dancers?

Pay my respects to grace and virtue
Send my condolences to good
Give my regards to soul and romance
They always did the best they could

And so long to devotion
You taught me everything I know
Wave goodbye, wish me well
You've gotta let me go
(Human, The Killers)


Por esta altura da minha vida já deveria saber que o despeito não é um bom conselheiro. Quis dar o troco a alguém que, sem aviso prévio - ou assim o quis entender, que, a bem da verdade, os sinais estiveram quase sempre lá não tivesse eu teimado em lhes fazer vista grossa... -, me deixou apeado, já desfraldado e de pele eriçada, com o bolo nas mãos. Claro que isto de querer entrar a meio numa outra festa, para a qual guardámos o convite "just in case", raramente dá boa coisa. E foi assim que, por mais de uma semana, arquei com as consequências do meu acto impensado e aprendi a duras penas - espero - que, não tão raro como isso, os primeiros instintos são os que contam. Que é como quem diz: se durante mais de um mês não deste o teu número de telefone a um tipo, não lho dês depois só porque um outro filho da mãe te deixou, literalmente, na mão. É asneira da grossa e não vale o trabalho que dá para remediar o mal feito.

Para me redimir do meu ímpeto vingativo, resolvi, depois de ter perdido as estribeiras e de ter dito poucas e boas ao Casanova de trazer por casa, recuar. Fi-lo, disse na altura, porque "o seu erro não justificava o meu", mas essa é a parte bonita e edificante desta estória. A moral, nua e crua, está bem menos para Santa Teresa d'Ávila, pois, por uma vez, achei ser hora de começar a usar quem também me usava - e pelos vistos com maior mestria e sem remorsos. Entrámos assim numa espécie de acordo nunca assumido, mas até certo ponto consentido (quem cala, consente), de mútua e descarada conveniência.

Em teoria, esta coisa de uma mão lavar a outra parece saída dos ideais proclamados desde a Revolução Francesa, mas, na prática, pergunto-me se estou pelos ajustes e se a alcova em questão vale que me arme em Valmont. Mas isto, claro está, são dúvidas e hesitações de quem ainda não se converteu por inteiro ao cinismo e para quem um momento de prazer não justifica todos os meios para lá chegar. Ter-me-ei tornado, para mal dos meus pecados, no último dos moicanos?

13.10.08

Confessions on a dance floor


So slide over here
And give me a moment
Your moves are so raw
I've got to let you know
I've got to let you know
You're one of my kind


I need you tonight
'Cause I'm not sleeping
There's something about you girl
That makes me sweat

(Need You Tonight, INXS)


"Gajo, adorava foder contigo". Tout court. Dizem que quem anda à chuva é para se molhar, mas, ainda assim, este é o tipo de abordagem straight to the point que, por norma, me deixa algo indiferente. Há quem diga que tenho pruridos a mais, que me comporto, não raras vezes, como um "donzelo" e que, para uma queca (transa) descartável, não é preciso estar cá com coisas. Talvez o problema seja esse, o das quecas descartáveis. Não tenho nada contra uma boa queca descartável, mas já o mesmo não digo das pessoas. Não gosto de quecas com pessoas descartáveis a priori. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Garanto-vos que não é.

Agora o reverso da medalha...

O Médico, boa conversa, um ano mais velho do que eu. Diz que a sua relação de vários anos está em crise, que me acha atraente, interessante, rebeubéu, pardais ao ninho... Acena-me com um jantar, mas, como mostro alguma reserva, sugere antes um copo... Não gosto de blind dates; insisto que antes vai ter de se mostrar. Desaparece do mapa.

O Oficial da justiça e O Advogado. O primeiro vai bem lançado nos trinta, o segundo está quase a chegar lá. Nenhum dos dois me deixa extasiado do ponto de vista físico, mas parecem pessoas agradáveis e de bom trato. Conversamos, mas, quase sem me darem tempo para mais nada, já estão a fazer cobranças, a reclamar exclusividade e a amuar. É delete sem contemplações.

O Arquitecto, primeira metade dos trinta, corpitcho bom todos os dias. A conversa começa bem. Tipo inteligente, com sentido de humor e bom gosto. Numa noite de insónia, manda-me uma mensagem. Mas, lá está, dá-me a impressão de que não andamos bem ao mesmo. Estamos num impasse. Está morno. Quase frio.

O Louro Alto que se julga o Pequeno Príncipe, só que em versão sei-que-sou-bonito-e-safado. Começámos a trocar farpas sem grande consistência, mas a coisa arrasta-se e ele nunca me deixa sem resposta. Tem namorado, diz ele - e eu julgo que até sei quem é, um moreno de parar o trânsito -, mas ainda assim está cheio de graças para o meu lado. A dar alguma coisa, vai ser só putaria da grossa.

O Gestor de linha férrea, seja lá o que isso quer realmente dizer. Não é bonito, mas tem um bom corpo e sabe conversar. É dos tipos que mais se interessou por mim, fora a embalagem, nos últimos tempos. Num só dia mandou-me 11 mensagens e não esconde que está muitoooooooooo a fim, mas fá-lo com elegância. Detalhe: tem uma relação aberta com o seu companheiro de há 13 anos... À última da hora inventei uma desculpa para ganhar tempo. Acho que vou sair de fininho enquanto ainda posso. Não tenho pedalada para estas coisas muito modernas.

O Antropólogo, a mesma idade, com namorado na Polónia. Diz que quer ser meu amigo, mas não arrisca um "desta água não beberei". Estou fascinado com a sua inteligência, com o seu sentido de oportunidade e pela forma como me desafia. É daqueles que dá luta e isso deixa-me muito, mas mesmo muito curioso. Está-me a conquistar pelo cérebro e isso é perigoso. Não sei onde isto vai dar. Vamos jantar na sexta.

O Contabilista, idade de Cristo, bem menos sonso e inocente do que parece ao primeiro olhar. Está louco para arranjar um namorado, o que me deixa de pé atrás. Não me atrai, mas ainda assim, e como tratou logo de me passar o seu número e de insistir imenso para irmos beber um café, eu lá resolvi tentar. Na hora, o tipo fez-se de caro e depois desculpou-se imenso. Fiquei fulo. Purgatório com ele.

O Investigador na área de Humanidades, com apenas 24 anos. Sacrilégio. Não era, não é, meu propósito envolver-me com alguém tão novo. Abro uma excepção e, desde logo, a primeira conversa revela várias afinidades... Desde então, a afinidade não pára de crescer e ele revela uma maturidade que eu não estava à espera. Tenho imensas reticências, mas não nego que a coisa está a tomar um rumo inesperado. Marcámos um café na quinta.

A lista é extensa e nem sequer está completa. A avaliar pelo tamanho da encrenca em que me estou a enfiar, muitos, não duvido, dir-me-ão que mais valia, por ventura, eu dar ouvidos a quem não perde tempo com floreados ou converseta de salão e vai directo ao que (lhe) interessa: "gajo, gostava de foder contigo". Pois é, acontece que eu gosto de preliminares e de jogos de salão.
"Oh God, make me good, but not yet!".

29.9.08

A Vida Dupla de Oz


When I'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh no no no

(Satisfaction
, PJ Harvey e Björk)


O título, roubei-o descaradamente a um dos filmes que mais gosto de Kieślowski ― paz à sua alma ―, mas acabam-se aqui as semelhanças de enredo. Apenas senti necessidade, na semana que passou, de me desdobrar em mais um alter-ego. Como Oz passei a ter um percurso, ganhei uma história e carrego todo um atrelado de emoções que não quero expor (já) a algumas pessoas que estão apenas agora a chegar à minha vida [e chegar não é força de expressão; o mais certo é que algumas, senão mesmo a maioria, não passe da soleira da porta].

Não sofro de múltipla personalidade; tão pouco sou adepto do embuste. Quando crio um petit nom encaro o mesmo como um desdobramento do todo. É uma forma de revelar apenas uma parte do que sou ― a parte que (me) interessa mostrar. Não o sinto como algo desonesto, tanto que não me torno uma pessoa diferente, não arranjo outra profissão, não me reinvento fisicamente nem passo a defender outras ideias que não as minhas. Sou sempre eu, não por inteiro, mas sempre eu.

Dizia eu então que senti necessidade de me aventurar para fora de pé. Não é uma sensação agradável ― sobretudo para quem, como eu, é avesso a abandonar a sua esfera habitual de conforto ―, mas nem sempre podemos jogar (só) pelo seguro e há que ter cojones para saber admitir quando a nossa teimosia nos atolou num impasse. E, verdade seja dita, nem me desagrada de todo a ideia de me pôr novamente "A Caminho de Idaho". Há um lado lúbrico ― que passa pela adrenalina de ter de fazer escolhas, acertadas ou precipitadas, com base no pouco que também me é dado a ver ― muito revigorante. É uma forma de poder e o poder, quando bem administrado, funciona como afrodisíaco.

De toda a forma, mesmo disposto a sair dos meus domínios, há linhas que procuro não pisar. Curiosamente, uma delas coloca-me, logo à partida, um pouco à margem da dominante masculina, que acha extremamente vantajoso, até onde consigo perceber, o facto de nós, homens, nos podermos relacionar sexualmente sem rodeios e sem ter de apelar muito à imaginação. Queremos sexo, então nada melhor do que dizer ao que vimos. Nada contra, penso até que se evitam assim muitos equívocos ― eu, da primeira vez, por exemplo, tive de ganhar coragem para me certificar como as coisas se iam passar e recebi como resposta um indignado “Mas ainda nem fomos para a cama e já me queres limitar a um papel?”; para não falar de um amigo que ainda há pouco tempo voltou frustrado de um encontro porque, sem terem falado primeiro, chegados à hora H, nenhum dos dois quis, como direi sem ferir susceptibilidades? (a dele, não a vossa), ser o primeiro a dar-se ao manifesto.

Não tenho nada contra, mas também não rezo por essa cartilha. Não sou pudico e, por mais de uma vez até, tentei ir por essa via, mas esse ritual primário do "sou isto-quero aquilo, tenho isto-quero aquilo, dou isto-quero aquilo" não me dá tesão. Pode ser prático, pode mesmo ser coisa de macho, mas não é para mim. Não me excita o óbvio, o que querem que faça. Mas, como disse antes, a limitação é minha. Estou em minoria, eu sei, mas estou longe de ser uma ave rara. Por incrível que (vos) pareça, encontro sempre, aqui e acolá, espécimes semelhantes ― alguns gostam de se fazer passar por, na esperança de levarem água ao bico, mas não os condeno, que a vida está difícil e há gajos, como eu, que ainda gostam de complicar.

I can't get no satisfaction 'cause I try and I try and I try and I try… Mas quando se trata de obter o meu prazer, eu não sou homem de baixar os braços (nem os braços, nem o resto). Oh, no no no

21.7.08

I'll show you mine if you show me yours


Are you ready to play the game
Ready to lose it all

Sure you want to play

This Tainted love?

(
Tainted love, Kwan)


Tenho uma amiga que não suporta O Sexo e a Cidade. E, no entanto, não me surpreenderia nada se viesse a descobrir que muitas daquelas gagues deliciosas foram inspiradas na sua desvairada vida amorosa. Sim, essa minha amiga tem aquilo que podemos chamar de "queda" para o desastre. Chegada à encruzilhada dos trinta, ela é a encarnação perfeita da mulher moderna, independente e bem resolvida sexualmente que, sem perder a graça, mas já meio cismada quanto às suas opções de vida, se começa a interrogar: "será que tenho apostado nos cavalos errados?"

Parece que não está nada fácil às mulheres arranjarem um homem decente nos dias que correm. Não querendo ser cínico, eu diria que, no caso dela, não ajuda muito o seu humor afiado como uma navalha - aliás, arriscar-me-ia a acrescentar que só há uma coisa que deixa os machos de plantão mais vulneráveis do que se sentirem presas de uma mulher sexualmente activa; que é o de se sentirem alvo da chacota de uma mulher inteligente. É que esta minha amiga têm o péssimo hábito - mas que nos poupa a nós, os amigos, a tarefa ingrata de troçar dos seus namorados às escondidas - de ser a primeira a fazer piadas de um namorado que se revele mais desajeitado, não hesitando mesmo em dar-lhes petit noms nem sempre muito lisonjeiros. Tal pode ser encarado como meio caminho andado para o desaire amoroso, mas não é isso que está em causa.

Confesso que, às vezes - mea culpa, assumo, não é só às vezes, mas o que querem se, tratando-se dos amores alheios, eu sou de uma clarividência quase sempre certeira... -, me falta paciência para fazer, pela enésima vez, o papel de confidente sobre amores que cedo revelaram - pelo menos aos meus olhos, mas, que sei eu, afinal sou míope... - não ter pernas para andar, mas, shame on me, sou dos primeiros a soltar a gargalhada quando ela, com o seu seu jeito muito "Fernanda Young" de ser, abre a caixa e começa a desfiar o rosário de "acidentes de percurso". Num destes dias de muito calor, estávamos nós os dois na praia, a torrar ao sol, quando ela se sai com esta pérola:
- "ah, Oz, teve um tipo com quem sai por pouco tempo, um homem bem bonito por sinal, que, numa das vezes que me chamou para conversar no MSN, perguntou se podia ligar a cam... Eu respondi que sim, mas não esperava que ele fosse começar a despir-se... Pior, a dada altura, e sem me dar sequer tempo para reagir, quando vi já ele estava a bater uma!!!! Nossa, acho que nem consegui dormir direito nessa noite..."

Eu, que conheço bem a amiga que tenho, não resisti a provocar:
- "Hummmmmmmm, confessa, não foste apanhada tão desprevenida quanto isso... Quase aposto, tu bem deves ter dado corda ao desgraçado para ele se enforcar, confessa..."

Ela, que me conhece, mas não tão bem quanto julga, não se deu por achada:
- "Ah, sabes como é, né, rsssssssssss... Mas, sério, eu realmente não tinha previsto aquilo...Agora, admito, claro que não resisti a contar a alguns amigos. Os meus amigos gays, então, ficaram histéricos e só me diziam 'gente, pensava que esse tipo de coisas só aconteciam connosco!'. Ai, tu sabes que eu não presto mesmo, quase que fiquei tentada a chamar alguns deles lá a casa na segunda vez em que ele fez o seu showzinho para mim... rsssssssssss!"

Eu, como quem não quer a coisa, sacudi a água do capote:
- "Tu não prestas mesmo! rsssssssss E esses teus amigos, hein, não se cansam nunca de ver um homem com as calças arreadas! rsssssssssssssssssss"

É, por estas, e por outras também que não vêm agora ao caso, a mim, que sou moderno-mas-não-tão-moderno-assim, muito dificilmente me apanharão algum dia com as calças na mão fora de contexto adequado... Sim, tenho medo de ir parar ao youtube, sim, não me agrada a ideia de cair na boca do povo... Mas, mais do que isso, eu sou mesmo é, tratando-se de baixar as calças, um tipo à moda antiga. Chamem-me puritano, mas eu ainda sou daqueles que, à falta do lugar certo, prefere ficar-se pelo implícito. Além de que já passei da idade para me contentar com puerilidades do género "mostro o meu se tu me mostrares o teu". But I'm sorry I don't pray that way. Para mim, as coisas resolvem-se com as cartas na mão, sem trunfos escondidos nas mangas. E ai ou se paga para ver ou não. Como quem diz: "ajoelhou, agora vai ter de rezar".


3.4.08

A profecia

Alusão à cena bíblica em que Jacob luta com o Anjo, tema também de uma obra de José Régio que vale a pena conhecer.


Calling all angels
I need you near to the ground
I miss you dearly
Can you hear me on your cloud?
All of my life
I've been waiting for someone to love
All of my life
I've been waiting for something to love

(Calling All Angels, Lenny Kravitz)


Volto zonzo de mais uma viagem, com a sensação de estar esvaziado por dentro. Talvez a culpa não seja de quem me acompanha. Mea culpa, por não ter ao meu lado quem eu quero e preciso nas horas em que as camas de hotel se tornam demasiado pesadas. Ao regressar a casa, atiro-me ao que resta dos chocolates da Páscoa e no DVD coloco directo a série completa de Angels in America ― pergunto-me como foi possível ter passado todo este tempo ao lado de uma obra-prima como esta! Ainda para mais realizada por um dos meus realizadores de eleição, o Mike Nichols (de filmes como Closer, que adoro também!), e com actuações fabulosas de consagrados como Al Pacino e Merly Streep e revelações como Jeffrey Wright e Mary-Louise Parker.

Na sequência em simultâneo em que Louis abandona cobardemente o seu namorado, Prior, às portas da morte no hospital e em que um muito torturado Joe revela finalmente à mulher, Harper, que é homossexual, fico por uns segundos no limiar.

Recomponho-me.

Que bela escolha, estão a pensar alguns de vocês por esta altura, para alguém que estava na mó de baixo… Pois é, acontece que eu nunca tive medo de densidade emocional nem de bons argumentos, o que me assusta mesmo são as histórias de que deserto a meio porque deixo de querer saber como acabam, os orgasmos frouxos, os beijos que não me fazem perder a vigília e as pessoas que supostamente se apaixonam por mim não por aquilo que eu sou e lhes tenho para dar mas por aquilo que elas queriam que eu fosse no seu mundinho perfeito do faz-de-conta.

Porra, crucifiquem-me em praça pública, amarrem-me na lanterna dos inaptos para amar, por não querer ― ainda, não sei se um dia ― a casa, as cuecas misturadas no varal, o almoço de domingo, o amor sereno ou a mão dada no supermercado…

Eu quero e preciso é de perder o chão, do nó na barriga, da vertigem, do orgasmo que me faz quase perder os sentidos, do beijo que me deixa com vontade de mais e da inquietação de querer virar a próxima página para descobrir o que vem depois. Não me façam ultimatos. Obriguem-me antes a sair do pedestal e tornem-me vulnerável. E eu juro que vou. Nem que seja para ficar na cama ao lado a velar pelo teu sono.

30.1.08

X Mandamentos

(Sonho de consumo e colírio para os olhos)

”O amor é uma questão de oportunidade.
De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois do tempo.”
(In 2046, de Wong KarWai, acompanhado de In the Mood for Love, a Musical Reflection, com composições de Shigeru Umebayashi e Tan Dun)


A uma declaração de intenções, eu contraponho os meus dez mandamentos para uma boa dança a dois:
  1. Do convívio nasce a cumplicidade; da ausência, se consentida, nasce a saudade;
  2. Um cão é fiel, um Homem deve esforçar-se para ser leal;
  3. Gostar é também saber dizer e ouvir um Não quando necessário;
  4. O Sexo é melhor sem hora nem lugar marcados para acontecer;
  5. É possível gostar de alguém sem se gostar de ouvir a mesma canção, mas é impossível gostar de alguém que não se emociona com as mesmas coisas;
  6. Mais do que apenas gestos, há palavras que precisam ser ditas.
  7. Quem gosta de lugares escuros, abafados e de ficar em grupo no mesmo poleiro são os morcegos; para um jantar, um tango e bom sexo bastam dois e média luz;
  8. Um bom amante deve saber explorar o potencial erógeno do pescoço, não confundir beijo na boca com corrida de obstáculos, massajar os pés, não negar carinhos e saber a hora de se encostar na parede e entregar para Deus;
  9. Gostar de alguém não pressupõe estar presente em todas as horas, mas implica não deixar de estar sempre que for preciso;
  10. Casal que se gosta partilha a despesa e incentiva-se mutuamente a ficar mais gostoso. Regra muito simples: quando se está saciado com o que se tem em casa não se vai pedir ovos emprestados ao vizinho da frente.

Observação: Dispenso o “e foram felizes para sempre”, mas não abro mão do “e foram muito felizes enquanto quiseram estar juntos”.