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4.5.09

Clones



I think I saw you in the shadows
I move in closer beneath your windows
Who would suspect me of this rapture?
(Black Hearted Love, PJ Harvey and John Parish)


Hi5, orkut, facebook, twitter... A todas elas eu torcia o nariz, mas, instigado por amigos ou pela curiosidade, a desconfiança inicial, justificada ou não, acabou por abrir brechas. Não veio dai mal ao mundo, pensei quando cedi pela primeira vez... Só que a tentação de espreitar pelo buraco da fechadura é uma coisa lixada - diria mesmo que perversa - e, de cedência em cedência, só praticamente o hi5 não me levou a melhor até hoje.

O que fazer quando a fraqueza humana, mais do que sugerida ou permitida, é estimulada, induzida? Nos últimos tempos, confesso, não resisti a espreitar a várias janelas no cada vez mais escancarado universo rainbow. Fi-lo não tanto movido pelo instinto de caça - embora também não esteja acima de suspeita -, mas mais pela adrenalina de poder andar por ali a bisbilhotar à vontade, sem compromisso e sem culpa - porque o risco de passarmos nós a ser o alvo da curiosidade alheia faz, desde logo, por muitas precauções que se tome, parte das premissas do jogo.

Nem fui mais longe, fiquei-me apenas pela rede portuguesa do facebook. Primeira conclusão óbvia: a avaliar pela amostra, não se pode chamar universo ao que não passa de uma aldeia. Se (ainda) não se conhecem todos, a rapaziada de uma certa comunidade gay imita muito bem. Chega a ser assustadora a facilidade de encontrar quem se procura - e quem se acha sem estarmos sequer à procura... Adiante. Próximo reparo: fico pasmo com a quantidade de gajos po-dres de bons no pequeno burgo de Lisboa e arredores (onde é que se escondem, durante o dia, essas criaturas?). Nem é que sejam todos bonitos, muitos têm é corpos de fazer inveja (inveja a tipos como eu, entenda-se, que não passo da cepa torta apesar das boas intenções...).

Como não é um meio onde me mova ou interaja, qualquer que fosse a direcção seguida, eu sentir-me-ia, inevitavelmente, um penetra num clube só para sócios. Guiei-me na minha busca por algumas referências, não só estéticas, que pudessem ser comuns e fiquei, não digo surpreso, mas intrigado quando, independentemente da profissão ou do nível intelectual - e sim, tenho plena consciência de que, ao ligar-me a estas variáveis, já estou a fazer um (pré)julgamento -, 8 (vá lá, 7) em cada 10 gajos parecem gémeos idênticos... O mesmo tipo de compleição física (com cinturas de vespa capazes de fazer inveja a muita menina e quase invariavelmente depilados de alto a baixo), de corte de cabelo, de acessórios (com destaque para os óculos de aviador, as camisas cintadas e as t-shirts com decote em V coladas à silhueta), de poses e até de cenários [das boates Frágil ou Lux até às mo(á)vidas de Ibiza ou Miami]...

Dá que pensar... Sobretudo, quando eu, repito, me tenho mantido à margem de toda esta realidade paralela e, ainda assim, já me reconheço nalguns (não todos, felizmente) tiques. M-E-D-O.

10.9.08

On


Sometimes, when I look deep in your eyes, I swear I can see your soul
(Sometimes, James)


Encontro marcado na Maria Caxuxa. Já vou um pouco atrasado, mas, de nada me adianta apressar o passo, pois fico retido no mar de gente que se espraia entre o Clube da Esquina, na rua da Barroca, e o Portas Largas, já na Atalaia. Decididamente, a rapaziada tomou conta do lugar e, a cada semana, vai um pouco mais além na demarcação invisível da "coutada de caça" a céu aberto. Nada de muito explícito, ou escrachado, mas suficientemente claro para não "levar gato por lebre" ― if you know what I mean... É a Lisboa gay no seu melhor.

Estão de tal forma entretidos uns com os outros que, para abrir caminho, quase sou obrigado a dar braçadas… No auge do aperto, vem-me à cabeça “Well the men come in these places / And the men are all the same / You don`t look at their faces / And you don`t ask their names”. Não seria o caso de perguntar nomes, mas, admito, ao fintar um ou outro de mais perto, bem que me apeteceu anotar uns quantos números de telefone… Deixa quieto. A calçada frente à Maria Caxuxa está, ligeiramente, mais desafogada. Os meus amigos lá estão, de copo na mão e sorriso escancarado.

Dali vamos para o Majong, na rua de cima, que, a partir das duas, começa a encher graças ao DJ de serviço. O Majong, já o disse aqui, não tem grandes segredos para mim ― há anos que o frequento. Uma das minhas amigas ficou de encontrar ali o Jose, um espanhol que vive e trabalha há muito anos em Lisboa. Jose é uma figura. Já fala fluentemente português e incorporou a nossa gíria, mas não perdeu ― nem há-de perder ― o seu forte sotaque castelhano. Da primeira vez que o vi, de raspão e neste mesmo bar, fiquei com a séria impressão de que o rapaz pertencia ao “clube da esquina”. De toda a forma, nunca me fio muito no meu gaydar. Desta vez, porém, reparei nos anéis e nas pulseiras e pensei com os meus botões: hummmmmm…. Mas ele não dá “pinta”. Passado mais um bocado, um outro amigo da minha amiga puxa de uma canga trazida da Tailândia, que o Jose terá supostamente pedido, e o rapaz, radiante, pergunta-nos: “não fico muito ‘bichona’?” Hummmmmmmmmmm…

A confirmação chega quando já não me restavam mais dúvidas. Ao falar-se de orkut, de hi5 e afins, Jose torce o nariz e diz que prefere logo ir directo aos “lugares da Net que têm mais a ver com a minha [sua] espécie”. Bingo! A partir dai, o agent provocateur fica em modo on. Interrogo-me se a recíproca é verdadeira e também ele accionou o seu gaydar… A noite (pros)segue sem sobressaltos. Na hora da despedida, que Jose não está para chegar de novo a casa de manhã, estende-me a mão e solta: “gostei de te conhecer rapaz!”. Permitimo-nos, por breves momentos, um olhar a direito. O último teaser da noite em jeito de “às vezes, quando ficamos olho no olho, juro, sou até capaz de ter ver (d)o avesso”.

17.6.08

Não façam género

David Bowie

Girls who are boys
Who like boys to be girls
Who do boys like they're girls
Who do girls like they're boys
Always should be someone you really love
(Girls & Boys, Blur)


O portal português www.iol.pt fez eco da seguinte notícia:


«As semelhanças são enormes, segundo um estudo divulgado pela revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS). O cérebro de um homem gay é mais parecido com o de uma mulher heterossexual do que com o de um homem heterossexual.

Os dados foram apresentados pela equipa de neuro-cientistas liderada por Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, da Suécia. Será a prova mais sólida jamais apresentada de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica, dado que a ressonância magnética demonstrou que o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual.

O cérebro de um homem gay é muito semelhante ao de uma mulher heterossexual, apresentando os dois hemisférios mais ou menos do mesmo tamanho. O de uma lésbica, por outro lado, assemelha-se ao homem heterossexual, dado que tem o lado direito um pouco maior do que o esquerdo. A investigadora optou por estudar parâmetros fixos, como o tamanho e a forma do cérebro, que se mantêm os mesmos desde o nascimento.

A equipa também analisou o fluxo de sangue na amígdala, a área do cérebro que controla os aspectos emocionais, o humor e a agressividade. E, também aqui, o padrão masculino homossexual correspondeu ao feminino heterossexual e vice-versa. Foram estudadas 90 pessoas (25 heterossexuais e 20 gays de cada um dos sexos).»

Por sua vez, este estudo mereceu os seguintes três comentários de internautas:

Na minha idade estes estudos baralham-me! 2008-06-16 / 22:48 por: Astonished
Não tanto pelo fluxo de sangue na amígdala que disso toda a gente sabe, mas sobretudo por terem sido analisados cérebros, já que o busilis está muito mais abaixo! E até me atrapalha ficar a saber que as minhas experiências com mulheres heterossexuais me possam um dia vir a comprometer já que muito semelhantes a outras que eu não tive e de que posso vir a ser acusado!

Tal como Deus diz na Bíblia
2008-06-16 / 22:36 por: Maria Jacinta
Trata-se de uma doença e como o próprio artigo diz, não muda durante a vida da pessoa a não ser devido à intervenção directa do Espírito Santo. Estas ciências sempre atrasadas em relação ao grande livro. Deus é omnisciente. As respostas a todos os problemas e questões estão na Bíblia. Para quê gastar dinheiro com isto?

CLARÍSSIMO
2008-06-16 / 22:27 por: TOPATUDO
TINHAM DE TER UM CÉREBRO MAIS PEQUENO, DE ATRASADOS MENTAIS.

Os comentários nem me merecem considerações. Valem o que valem. Já este tipo de estudos deixa-me algo inquieto e muito desconfiado quanto aos seus verdadeiros propósitos...
Digo desde já que não me choca o facto de se tentar estabelecer uma maior afinidade entre os homens gay e as mulheres hetero - ou entre as lésbicas e os homens hetero -, porque até acho que, em certa medida, esse paralelo não é de todo descabido; já considero, todavia, muito forçado - para não dizer simplista - o facto de se querer fazer disso um postulado científico para, no fundo, repetir a ideia de que os gays, homens e mulheres, são um desvio à "normalidade". Com uma diferença: antes eram apontadas razões sociológicas para esse desvio, hoje procuram-se, supostamente munidos das melhores intenções, explicações genéticas e biológicas. Serão os gays um "acidente" genético?
Lamento, mas não consigo ver nada de apaziguador nestas "conclusões". Porque para mim elas mais não fazem do que perpetuar um erro grosseiro, que é o de se partir do pressuposto de que todos os homens gay são necessariamente efeminados - logo todas as lésbicas são também necessariamente masculinas. E não é assim. Dentro da homossexualidade há muitas cambiantes e variações, por mais que desse muito jeito poder arrumar todos na mesma prateleira!
Analisada a questão, fica-me o amargo de boca de perceber que a ciência, como a sociedade, continua a ter muita dificuldade em aceitar algo que, em última instância, pode ser bem mais simples do que se quer crer: um homem deseja e ama outro homem sem o deixar de ser - tal como uma mulher deseja e ama outra mulher sem o deixar de ser. O que há de tão complicado nisto?

6.5.08

O anzol


Ai eu já pensei mandar pintar o céu
Em tons de azul, pra ser original
Só depois notei que azul já ele é
Houve alguém que teve ideia igual

Eu não sei se hei-de fugir
Ou morder o anzol
Já não há nada de novo aqui
Debaixo do sol

(
O Anzol, Rádio Macau)


Quantos gestos banais, e até mesmo irreflectidos, não nos passariam totalmente ao lado não fosse o facto de terceiros reparem neles e com isso nos obrigarem a pensar no que acabámos de fazer quando não era de todo essa a nossa intenção?

Deixem-me explicar. Estava eu a saborear um cappuccino, a conversa e a esplanada quando, sem o mínimo desígnio obscuro, estendi a minha perna direita, servindo-me da cadeira vaga em frente como apoio. Não será o tipo de coisa que faça muito frequentemente em público, mas naquela tarde amena, depois de andar a caminhar desde cedo, apeteceu-me e fi-lo espontaneamente. O curioso é que, não fosse esse gesto e, provavelmente, os dois homens da mesa ao lado da nossa ter-me-iam passado despercebidos. Para um deles, porém, o eu ter colocado a minha perna esticada sobre uma cadeira deve ter funcionado como pretexto, pois, de repente, senti-me observado. Encarei-os por breves segundos – o suficiente para constatar que as mesas estavam muito mais próximas do que imaginara e que um dos homens de meia-idade me fintava agora sem cerimónias. Desviei o olhar e continuei a falar com o meu amigo, mas, porque tinha clara noção de que continuava a ser observado, já não fui capaz de manter a mesma posição por muito mais tempo. A dada altura, e porque os nossos olhares se voltaram a cruzar inadvertidamente, o homem aproveitou para me atirar à queima-roupa:

- Are you Brazilian? – E ficou a sorrir, como que expectante da resposta que julgava ser óbvia.

Numa cidade onde não faltam imigrantes portugueses, e por isso o português se faz ouvir um pouco por todo o lado, não deixou de me parecer uma ironia – mas ainda assim previsível - que aquele homem, que estivera claramente a matutar numa maneira de meter conversa connosco, optasse por nos atribuir uma nacionalidade que, a avaliar pelo riso matreiro, lhe despertava maiores fantasias do que nos imaginar tão portugueses como o homem do táxi ou a mulher que lhes limpa a casa.

Desfeito o equívoco, e terminada a troca de palavras de circunstância que parecia ter por único propósito saber o que estávamos a fazer na cidade, reparei que o meu amigo, à excepção de ter rosnado entre dentes “Panilas”, se havia mantido à margem durante o curto diálogo – a típica reacção de defesa dos homens hetero quando, em desvantagem ou igualdade numérica, se sentem na mira de homens gays.

Mas eu, que gosto de divagar sobre banalidades, fiquei pensativo. Primeiro sobre a nossa linguagem corporal e como ela pode, de facto, condicionar/influenciar a forma como os outros nos vêem. Segundo a questão dos estereótipos e como estes podem ser enganadores – será que devo tomar como elogio, e já agora os que são realmente brasileiros, o facto de ser confundido com um brasileiro quando isso vem associado a uma certa imagem feita de “exotismo” e “sexualidade”? Terceiro, não é a primeira vez que sou abordado por um casal gay mais velho e, muito curioso, o padrão, de certa forma, repete-se: há sempre um que toma a iniciativa de meter conversa enquanto o outro permanece silencioso, o que me deixa na dúvida se está em sintonia, e apenas é mais tímido, ou se a situação, na verdade, o incomoda, mas opta por não interferir? E o que significa a abordagem? Estão apenas a ser simpáticos? Gostam de fazer novas amizades? Ou nada disto é assim tão inocente – como eu realmente suspeito - e é apenas um subterfúgio para tentar a sorte? E se assim o for, o que os levou a arriscar? O facto de sermos dois homens adultos sozinhos numa esplanada a meio da tarde? Estender a perna é algum código que deva saber para evitar mal-entendidos futuros (okay, esta até a mim me parece estapafúrdia, mas não custa perguntar! hahahahah) ? Ou ser brasileiro – e vocês que o são, respondam-me, por favor – tornou-se efectivamente sinónimo de “gente muito disposta” no estrangeiro (estou a ser mauzinho, mas vocês percebem onde quero chegar, right)? E estariam os senhores a pensar num ménage a quantas mãos (e pernas, pois então, hahahahahaha)? - admito, esta última foi só para lançar a confusão!

Dá que pensar, ou sou eu que ando a ver muitos filmes? (não precisam responder!)

7.4.08

Linhas cruzadas

Quanto mais se é obcecado pelo sexo,
mais sentimentais nos tornamos;
desconfiar sim daqueles a quem o sexo não interessa.
Há qualquer coisa neles que dá medo.
(tradução livre de uma citação de Michel Houellebecq)


Subverter a ordem habitual das coisas. Gosto disto. Por isso, hoje, troquei as voltas ao (pré)estabelecido e comecei antes por uma citação, com a qual nem concordo muito, mas serve o propósito da provocação. E eu gosto de (vos) provocar. Não muito, só um pouco. As imagens vêm depois. Quanto à música, lembrei-me de uma muito bonita – eu acho – dos Clã, em que “E até nos momentos em que digo que não quero / E o que sinto por ti são coisas confusas / E até parece que estou a mentir / As palavras custam a sair / Não digo o que estou a sentir / Digo o contrario do que estou a sentir”. Estou assim, a modos que com um problema de expressão.






Estão a ver aquele momento em que o vosso cabelo está porreiro, mas amanhã, se não se puserem a pau, já desandou? Pois um destes dias acordei, olhei-me ao espelho e conclui que já estava no day after. Para remediar, fui ao meu cabeleireiro – até gostaria de lhe chamar barbeiro, que é mais viril, mas ele é mesmo cabeleireiro e, ao contrário de mim, parece nem estar ai para estereótipos -, que, para não variar, me ignorou estoicamente quando lhe pedi para não cortar tanto como da última vez, que eu até prefiro ver-me com o cabelo mais comprido e tal… Resignado à minha sorte – ainda hei-de perceber por que a maioria dos gays dá tanta importância ao cabelo, se depois muitos deles o usam muito curto, quase rapado… -, e enquanto sua eminência das tesouras dava os últimos retoques à freguesa do lado, distraí-me a folhear umas revistas de moda – é impressão minha ou boa parte dos modelos masculinos das grandes campanhas internacionais parece que acabou de sair dos cueiros? Tudo bem, nada contra um padrão de beleza mais andrógino, mas também não precisam de exagerar no quesito baby face, né? Felizmente, ainda há quem aposte num meio-termo apetitoso, como é o caso do manequim de Giorgio Armani (acima) que, mesmo com uma camisa aos favos, consegue ter ar de macho. Benzódeus-tão-perfeitinho (um assim é que eu precisava para levar a Mykonos…). Adiante.

Ficam desde já a saber: os calções querem-se muito curtos e esqueçam lá isso de andar com as cuecas à mostra. Passou. Está out.

L. mandou-me uma mensagem, há dias – semanas? -, a desafiar-me para irmos juntos a um jantar de bloggers que o Pinguim está a organizar. Um jantar de bloggers gays, que fique entendido (a posteriori, o Pinguim fez questão de esclarecer que não é um jantar de "bloguistas gays", talvez de maioria gay, mas não só gay, pelo que fica feita a correcção). Tenho perfeita consciência de que é apenas um ponto de partida e que ninguém ali - já falam em cerca de 50! - vai querer fazer disso o seu cartão de visita. É já no dia 19. Ainda não sei se poderei ir.





Tony Ward (vejam bem, está mesmo aqui por cima). Aposto que, pelo nome, também não chegam lá… Aquela barba impediu-me de o reconhecer à primeira, mas quando olho com um pouco mais de atenção não demoro muito a reconhecer as feições do rapaz que, há uns anos valentes, causou alvoroço no videoclip Justify My Love, de Madonna. Tirava-lhe a barba, mas o resto está de boa saúde e recomenda-se, como podem ver pela foto.





Na mesma revista, a edição francesa da Vogue Hommes International, num número especial dedicado ao erotismo, detenho-me na produção dedicado ao fétichismo, que faz capa também. É um universo distante do meu, mas a que ainda assim não sou totalmente indiferente. Acho que ninguém o é. Não sei bem porquê, a minha primeira reacção é imaginar-me a entrar, seguido pelo tipo das fotos (acima), no Hôtel Costes, em Paris… Quase consigo ver as caras de espanto, a fingirem um ar blasé – afinal quem frequenta o Costes não dá parte de fraco nem abre a boca de espanto -, à nossa passagem enquanto nos dirigimos ao elevador. Sim, admito, há um lado meu obscuro – reprimido, será? - que não se importaria nada de encostar à parede um bad boy destes, subvertendo por completo as regras do jogo. Couro preto, tatuagens, correntes, uma mansarda parisiense com veludos encarnados e reposteiros pesados. Combina tudo na perfeição. Na minha cabeça, pelo menos.

Aflige-me de certa forma a ideia de deixar um livro a meio, sem terminar de o ler para ver como a história acaba… Há meses que ando para trás e para a frente com um livro desses, está encalhado, eu sei, mas ainda assim não arranjei coragem para o despachar de vez. Comecei por o deixar à vista em cima de uma mesa, numa pilha, mas, a cada dia que passa está mais soterrado por papéis e outras coisas que chegaram depois. Já quase não vejo, mas sei que ele está ali. É chegada à hora de o colocar na prateleira, de onde, muito dificilmente, voltará a sair – quem não percebeu nada da conversa: não, não estou mesmo a falar de livros.

Apetece-me dizer a um certo alguém: não me digas aquilo que julgas que eu quero ouvir – sobretudo quando o que pensas que eu quero ouvir é o mesmo que dizes a todos os outros. Mostra-te antes como és e aí sim, eu vou começar a prestar atenção e a levar-te a sério.

3.4.08

A profecia

Alusão à cena bíblica em que Jacob luta com o Anjo, tema também de uma obra de José Régio que vale a pena conhecer.


Calling all angels
I need you near to the ground
I miss you dearly
Can you hear me on your cloud?
All of my life
I've been waiting for someone to love
All of my life
I've been waiting for something to love

(Calling All Angels, Lenny Kravitz)


Volto zonzo de mais uma viagem, com a sensação de estar esvaziado por dentro. Talvez a culpa não seja de quem me acompanha. Mea culpa, por não ter ao meu lado quem eu quero e preciso nas horas em que as camas de hotel se tornam demasiado pesadas. Ao regressar a casa, atiro-me ao que resta dos chocolates da Páscoa e no DVD coloco directo a série completa de Angels in America ― pergunto-me como foi possível ter passado todo este tempo ao lado de uma obra-prima como esta! Ainda para mais realizada por um dos meus realizadores de eleição, o Mike Nichols (de filmes como Closer, que adoro também!), e com actuações fabulosas de consagrados como Al Pacino e Merly Streep e revelações como Jeffrey Wright e Mary-Louise Parker.

Na sequência em simultâneo em que Louis abandona cobardemente o seu namorado, Prior, às portas da morte no hospital e em que um muito torturado Joe revela finalmente à mulher, Harper, que é homossexual, fico por uns segundos no limiar.

Recomponho-me.

Que bela escolha, estão a pensar alguns de vocês por esta altura, para alguém que estava na mó de baixo… Pois é, acontece que eu nunca tive medo de densidade emocional nem de bons argumentos, o que me assusta mesmo são as histórias de que deserto a meio porque deixo de querer saber como acabam, os orgasmos frouxos, os beijos que não me fazem perder a vigília e as pessoas que supostamente se apaixonam por mim não por aquilo que eu sou e lhes tenho para dar mas por aquilo que elas queriam que eu fosse no seu mundinho perfeito do faz-de-conta.

Porra, crucifiquem-me em praça pública, amarrem-me na lanterna dos inaptos para amar, por não querer ― ainda, não sei se um dia ― a casa, as cuecas misturadas no varal, o almoço de domingo, o amor sereno ou a mão dada no supermercado…

Eu quero e preciso é de perder o chão, do nó na barriga, da vertigem, do orgasmo que me faz quase perder os sentidos, do beijo que me deixa com vontade de mais e da inquietação de querer virar a próxima página para descobrir o que vem depois. Não me façam ultimatos. Obriguem-me antes a sair do pedestal e tornem-me vulnerável. E eu juro que vou. Nem que seja para ficar na cama ao lado a velar pelo teu sono.

24.3.08

A pele de cordeiro


Here comes Johnny Yen again
With the liquor and drugs
And a flesh machine
He's gonna do another strip tease

(
Lust for Life
, Iggy Pop)


Não sou propriamente do contra, mas desde criança que o meu pai me avaliou e apontou um desvio de carácter perturbante: eu faço a linha anti-herói. Quer isto dizer que eu muito raramente me comovo, na ficção como na realidade, com o herói que, de tão bonzinho e bem-intencionado, me provoca bocejos. Chamem-me descrente, quiçá insensível, mas gente muito boazinha nunca me convenceu; antes me deixa com os nervos em franja e de pé atrás.

É mais forte do que eu. Gosto de pequenos defeitos. Gosto de imperfeições. E gosto de quem assume as suas fraquezas sem lamechices. Talvez por isso o meu coração sempre bata mais forte por todo o sem-vergonha que pode até se esquecer de ajudar a velhinha a atravessar a rua, que não poupa nada nem ninguém às suas tiradas secas e cínicas ou que se está a lixar para ganhar o céu em vida, mas ainda assim, quando ninguém está a ver, é capaz de tirar a camisa para a dar alguém em apuros.

Não confundam as coisas. A minha predilecção por bad boys nada tem a ver com ser amoral ou totalmente desprovido de ética e decência. Tal como não tem a ver com o tipo canalha-pé-de-chinelo. Eu sou mais o irresistível patife, bon vivant de sorriso matreiro, que gosta do que vê quando se olha ao espelho e não sente remorsos em desfrutar do bom e do melhor. Sempre em grande estilo. De preferência metido num bom fato (terno) italiano.

Agora vem a parte pior. De pouco me adianta esta identificação. De nada me serve colocar ali, no canto superior esquerdo do blogue, a imagem de um anjo negro. Como arremesso de bad boy eu deixo muito a desejar e ninguém me leva sério por mais que eu bata o tacão da minha bota-mata-baratas e afine a mira do meu olhar-calibre-33. Quase me resignei à minha triste sina de bom rapaz, no melhor estilo o neto-que-toda-a-avó-gostaria-de-ter ou o genro-que-toda-a-sogra-pediu-a-Deus. Fazer o quê? A sentença saiu e vaticinou que eu faço o género para-casar; logo eu que queria antes ser o motel e não a casa com cerca branca e jardim.

É o descrédito total – podem rir, eu mesmo estou a gargalhar!

Aliás, por este caminho, e se ainda se espalha que eu gosto de flores, de animais e de criancinhas, não tardará muito a ter alguém a pedir-me para ser o pai do seu bebé – o que me vale é que não tenho amigas assim tão modernas e/ou desesperadas. Nem distraídas, pois, convenhamos, a avaliar o que gasto em roupas e outras futilidades que tais, não sou exactamente um poupa-níqueis-para-mais-tarde-garantir-o-futuro-do-fedelho de fiar (ops, shame on me!).

Mas já que da fama de bom rapaz não me livro, resta-me esperar que, tal como os homens preferem as louras mas escolhem as morenas para casar, os outros homens se queiram apenas divertir com os bad boys. É que os ditos bons rapazes c0mo eu podem até nunca conseguir, por muito que ensaiem poses e trejeitos, cultivar o mistério, o gingado ou o olhar-atravessa-paredes do bad boy, mas, em compensação, ao mostrarem maior disponibilidade para enxergar para lá do próprio umbigo, e se forem suficientemente espertos, depressa ficam com um trunfo escondido na manga: saciada a primeira vontade, o que sustém a tesão – e tudo o que se lhe segue – não é a imprevisibilidade, mas precisamente saber de antemão com o que se conta na hora H.

21.2.08

Distorção

Imagem de Greg Gorman distorcida por OZ

I watch it for a little while
I love to watch things on tv
(…)
I’ve been told that you’ve been bold
With Harry, Mark and John
Monday, tuesday, wednesday to thursday
With Harry, Mark and John

(Satellite of Love, Milla Jovovich & The MDH Band
, música dedicada por Einstein)


Começou a segunda temporada de Brothers & Sisters na Fox Life. Sou fã desde a primeira hora. Lá pelas páginas tantas, Kevin, o gay assumido da família Walker ― agora há também o tio Saul, ainda no armário apesar de já ir nos 60 ―, faz uma cena ao saber que o seu namorado vai passar um ano em missão humanitária na Malásia e acaba por ouvir deste aquilo que não quer:
- Que direito tens tu de me pedir para mudar a minha vida quando tu ainda nem foste capaz de me dizer “amo-te”.

Esta técnica vem em qualquer manual elementar de “dar o devido troco” e responde pelo nome de “colocar o dedo na ferida” ou, se preferirem, “acertar onde dói mais”. Agora a sério. Há realmente coisas na vida que precisam ser ditas… mas, permitam-me o contraditório, precisam ― e devem ― ser ditas no momento certo e, arrisco-me ainda a acrescentar, em pleno uso das faculdades.

Não é implicância; nem pouco-caso de quem ficou de fora do clube dos românticos empedernidos. Juro. Digo isto porque, ultimamente, dá-me a impressão que, por medo de ficar literalmente na mão, muito homem feito apressa-se a cair no extremo oposto ao banalizar o uso do “amo-te”, como se este fosse o tipo de coisa para ser proferida antes de tempo e/ou de ânimo leve… Não é. Não para mim, pelo menos. É duro, cruel até, não responder na mesma moeda a alguém que se vira para nós e nos diz “amo-te”? É, mas ainda assim preferível à desonestidade tremenda de fazê-lo precipitadamente, e irreflectidamente, apenas por dever de retribuição.

Isto leva-me também a uma tendência muito curiosa que tenho vindo a observar nas minhas conversas mais recentes com alguns dos bloggers que conheci através deste blogue ― não se assustem, não vou cometer nenhuma inconfidência. Para meu relativo espanto, o grande objectivo dos mais jovens, mesmo daqueles para quem a sua (homo)sexualidade é ainda um dado recente, parece ser o de encontrar um namorado! Numa cultura que sempre viveu associada à promiscuidade e à inconstância nas relações ― e que continuará a viver, não vamos dourar a pílula ―, não deixa de ser, até certo ponto, uma inversão de valores a ter em conta. Tanto mais que este desejo de querer assentar com o “parceiro ideal” era, regra geral, atribuída, quando muito, aos gays mais maduros ― a quem bateu um certo vazio depois de experimentar o que havia a experimentar ― ou aos gays que vibram com as heroínas dos musicais e comédias românticas e, tal como elas, passaram igualmente a suspirar pelo príncipe montado no cavalo branco (podemos trocar o cavalo branco por um alazão, o que vos parece?).

Quer isto dizer que o mito do príncipe encantado tomou a comunidade gay de assalto? Na verdade, palpita-me não ser de hoje, o que talvez seja novidade é o facto de haver um número cada vez maior de gays, até para se demarcarem do que era, e é, o padrão mais reprovado, que não se envergonha de o confessar em voz alta. Em grande parte, tenho para mim que esta é claramente uma tendência pós-Brokeback Mountain, um filme que, mais do que mudar mentalidades de quem está de fora, teve o mérito de mostrar a quem está dentro que o amor entre dois homens não é assim uma coisa tão improvável de acontecer… e durar.

Há, como não podia deixar de ser, o reverso da medalha. Ao ouvi-los falar do que querem, e, sobretudo, de como o esperam conseguir, fico com a nítida sensação de que, grosso modo, estamos perante um ideal mais abstracto do que concreto. Na impossibilidade de encontrar na esquina mais próxima um príncipe de medidas perfeitas, pronto a desembrulhar, muitos desesperam pelos sapos que terão ainda de engolir enquanto esperam pela sua vez. Isto, claro está, até descobrirem que para se saber reconhecer um príncipe de verdade é preciso ter beijado alguns sapos. E que tal como muitos sapos viram príncipes, muitos príncipes também se tornam sapos.

7.2.08

Homem-Objecto


Mojas el pan en el plato vacío,
y apagas la televisión;
Sales a la calle, y te vas al muro;
donde siempre hay alguien,
donde empieza el mar.

(
El Muro, Miguel Bosé)


Desde o final da minha adolescência que me delicio – confesso ― a lançar a confusão entre amigas e conhecidas sempre que lhes revelo, meio a brincar, meio a sério, que, não tendo nada a provar, aspiro mesmo é a tornar-me homem-objecto… Algumas, poucas, quase acreditam, mostrando-se ora desconcertadas, ora intrigadas e tentadas a testar a teoria (à conta disso já apanhei sustos valentes! hahahahahahaha); as outras, as que me conhecem melhor (e sabem que não possuo nem atributos, nem vocação para tal façanha), ainda assim fingem acreditar e entram no jogo, certas de que está em causa dar umas boas gargalhadas à custa da minha desfaçatez.

A mesma brincadeira repetiu-se há uns dias, com duas amigas de longa data ― o tempo suficiente para já terem percebido que há qualquer coisa a não bater lá muito certo no meu percurso amoroso. E, mais uma vez, rimos.

Muitos dos que me lêem vão-se apressar, estou certo, a ver neste meu comportamento a mesma tentativa atabalhoada de sempre de fugir à verdade ou uma manobra de diversão. Talvez estejam certos. O facto é que, e já tenho pensado nisso, eu gosto de manter a tensão sexual entre mim e as mulheres que me são próximas e não estou de todo preparado para passar a ser apenas visto por elas como um confidente. Por outras palavras: aprecio que se sintam à vontade comigo para, se for preciso, ficarmos em pijama na mesma cama a jogar conversa fora, mas não quero que fiquem tão à-vontade que me deixem de olhar como homem e passem antes a ver-me como “um igual”.

Acho que, no fundo, invejo a ambivalência de homens como o espanhol Miguel Bosé ― é dele a música que abre este post. Já não tem a mesma frescura de quando encarnou na tela o travesti de Saltos Altos (Tacones Lejanos, 1991, de Pedro Almodóvar), mas Bosé sempre conseguiu ser, mais do que mero objecto de desejo, sexualmente ambíguo para ser desejado por homens e mulheres. A ideia, por mais egoísta que possa parecer, agrada-me.

27.1.08

Parêntese


Poor is the man whose pleasures depend on the permission of another
(Justify my Love, Madonna)


Ainda a propósito do último post… Interessante a mania de se insistir em confundir a falta de interesse de um homem por uma mulher em particular com total ausência de interesse e/ou desejo desse mesmo homem pelas mulheres em geral. Eu não consigo entender a sexualidade dessa forma ― ou consigo, mas ai, permitam-me desconfiar, se não se importam, de que estamos a falar de um mundo a preto e branco.

Não me entendam mal: a-d-o-r-o preto e branco (até por razões que agora não vêm para o caso), mas não abdico de enxergar todas as outras cores e as suas mil cambiantes.

E sim, mesmo que isso implique demorar mais tempo a assimilá-las.

Até há bem pouco tempo, não sabia como decifrar (quando mais explicar aos outros…) o facto de sentir uma maior atracção por mulheres do que por homens ― no sentido mais óbvio do termo, ou seja, um homem bonito é-me infinitamente mais indiferente do que uma mulher bonita ―, e ainda assim ter maior tesão por eles do que por elas. Mas deixei de me ralar com isso (mentira: a questão continua a intrigar-me e, até certo ponto, a condicionar-me, mas estou cada vez mais inclinado a achar que a resposta, a existir, não me chegará como uma revelação divina).

Freud que explique ― e nem ele foi capaz, quer-me cá parecer…

Quero acreditar que nem tudo na vida precisa de ser analisado, esmiuçado ou entendido. Para começar, aceitei, por exemplo, que no meu caso, e independentemente do género, atracção, desejo e vontade podem ou não coincidir. Confuso? Talvez. Anormal? Só se eu quiser que seja. E eu não quero.

Quero o preto. Quero o branco. Mas também o encarnado. Preciso de todos. E não necessariamente nessa ordem ou para o mesmo fim. "So, now what?"

3.1.08

Eu e o génio da lâmpada


Breathe in, breathe out
Tell me all of your doubts
Everybody bleeds this way, just the same
Breathe in, breathe out
Move on and break down
If everyone goes away, I will stay
We push and pull
And I fall down sometimes
And I’m not letting go
You hold the other line
Cause there is a light in your eyes, in your eyes

(Breathe in, Breathe out, Mat Kearney)



“More tears are shed over answered prayers than unanswered ones”
ou

“As preces que são atendidas causam mais lágrimas do que as que são ignoradas”


Um destes dias, ao rever em DVD o excelente filme Capote (e não me canso da primorosa interpretação de Philip Seymour Hoffman), tombei sobre esta epígrafe de Truman Capote...
Deixou-me a matutar.
Mais do que pedir e não ser atendido, aflige-me a ideia de que podemos ter apenas direito a um número limitado de desejos a realizar e eu já tratei de desperdiçar boa parte dos meus com as coisas e as pessoas erradas...
A isto chamo eu o síndroma da lâmpada mágica ou o mal dos indecisos.

25.11.07

Fora de órbita

Mars et Venus pris dans le filet de Vulcain (1536)
Maerten Van Heemskerk ©, Vienna, Kunsthistorisches Museum


His wicked
sense of humour
suggests
exciting sex!
(…)
He believes in a beauty
he's venus as a boy

(
Venus as a Boy, Björk
)


Episódio da série norte-americana Rescue Me, segunda temporada:
O pai, um bombeiro velho e rabugento de Nova Iorque, sente-se incapaz de lidar sozinho com a mulher, a quem foi diagnosticado o mal de Alzheimer. Não tem, por isso, outro remédio senão pedir socorro ao filho que enxotou de casa quando este lhe contou que era gay. O filho, que vive com o seu companheiro, vem de imediato em seu auxílio. Passadas as primeiras formalidades, pai e filho ficam, finalmente, sentados frente a frente e não sabem por onde começar. Às tantas, o pai, sem levantar os olhos da mesa, dispara: “Quem é a mulher?” O filho finge não perceber onde o pai quer chegar. O pai repete. O filho não desarma e argumenta: “Mas somos os dois homens!” O pai, sem nunca o encarar, insiste: “Mas quem é a mulher?” E ai, o filho capitula: “Bom, acho que ele é mais mulher do que eu…”. Menos mal, terá pensado o pai.

A ficção, diz-se, imita a realidade. Esta cena lembra-me algo parecido que me contaram um dia destes; alguém, não interessa quem, cansado de viver às escondidas, resolveu escancarar as portas do armário para a sua família. A reacção não foi, ao que parece, a mais entusiástica, tendo sido a avó, para surpresa geral e do próprio, aquela que se mostrou menos chocada. Esta só lhe terá feito dois pedidos: que jamais fosse viver com outro homem e que nunca fosse a “mulher”. Isso sim, seria uma “paneleirice” (viadagem) imperdoável! Tudo o resto não importava.

A velha máxima, seguida aqui à risca, “o que os olhos não vêem, o coração não sente”.

Estive ausente uns dias e quando voltei, na blogosfera, um dos assuntos quentes do momento era o anúncio da cerveja que incita ao orgulho hetero por oposição ao argulho gay.
- Revoltem-se, bradam uns;
- ignorem, contrapõem outros.
Pelo meio, a maioria abandonou as trincheiras para juntar forças e assinar a petição a favor do cozinheiro despedido por ser seropositivo (e sob a alegação de que constituía uma ameaça à saúde pública).

Sou eu que continuo a ter uma visão muito cínica das coisas ou tenho, de facto, alguma razão em achar que o preconceito nunca deixou de existir, apenas está, quando muito ― e por imposição do socialmente correcto ―, mascarado de falsa aceitação?
Admito não ser o melhor exemplo, já que sou “fora do meio” (meio GLS, entenda-se), mas, talvez por isso, a minha sensação é que, nas coisas mais pequenas, as pessoas, mesmo as que vivem cheias de boas intenções e dizem conviver bem com a "diferença", fazem questão de nos recordar que nós, os que não são nem de Vénus, nem de Marte, vimos de outro planeta. Um planeta à parte, do qual se fala muito, mas de que, na realidade, se sabe (e se compreende) muito pouco.
Depois, apetece-me acrescentar, desde quando é que aceitar se tornou sinónimo de apoiar ou entender...

16.11.07

Roupa a lavar (Série II)

Underwear por Hammerthor para a Comme des Garçons, in Wallpaper Dez. 2007


Surround me with your love
Understand me
I need you now
Surround me with your words
Understand me
I need your love

(Surround me with your love, 3-11 Porter)


Chateiam-me os cretinos que gostam de meter todos os gays no mesmo saco, atribuindo-lhes tiques e manias que beiram quase sempre a caricatura. Mas fico ainda mais lixado da vida quando constato que, às vezes (e só às vezes), até têm uma certa razão. Vai daí, e como tenho sentido de humor, hoje tirei o dia para me dar à paródia (brincadeira, para quem não conhece o termo).

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Ligo o telemóvel (celular) e tenho uma mensagem escrita de um tal Rui P.

- Rui P., que Rui P.? Pergunto-me
- Ah, o Rui!

Fez-se luz. O rapaz, que já mereceu algumas referências no meu blogue anterior, mudou-se com os atoalhados e apetrechos para um novo salão e resolveu comunicar-me.

- Filho da mãe! Logo agora que eu já me tinha habituado ao canapé de veludo lascivamente encarnado e àqueles olhos cravados nas minhas costas enquanto esperava pela vez.

Detalhe: os olhos espetados estão num papel de parede ― com a estampa Tema e Variazioni, de Piero Fornasetti ―, e o Rui não é massagista nem garoto de programa. Trata-se, apenas, de um tipo simpático a quem não adiantava de muito eu explicar o que queria ― invariavelmente, ele sorria, dava-me a entender que tinha percebido exactamente o que eu pretendia e depois fazia o que lhe dava na real gana! ―na hora de ele me cortar o cabelo. E agora, o que faço? Vou ou fico? Já não se fazem mais barbeiros como antigamente, é o que vos digo…

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Fim de tarde dedicado a algumas compras. O perigo dos empórios multimarcas é, se não tivermos o devido foco, acabarmos sempre em secções onde não era suposto… Eu até tenho, por agora pelo menos, o meu stock de roupa interior composto ― como já dei conta aqui, como se isso vos interessasse muito! ―, mas, uma coisa leva a outra, e quando vi já era tarde ― e não, a Comme des Garçons ainda não recorreu a rapazes bem apessoados como o que vem na produção da Wallpaper de Dezembro (caso para dizer que o Natal chegou mais cedo para alguns!), na foto acima, para promover, ao vivo e a cores, a sua nova linha de underwear masculina.
Desperta-me a atenção a marca espanhola UDY. Conhecida por tirar o habitual cinzentismo às cuecas, utilizando cores como o “encarnado diabólico” ― okay, começo a notar aqui um padrão recorrente; primeiro foi o sofá, agora são as cuecas… ― ou colocando caveiras em lugares anatomicamente estratégicos, a UDY lançou o slip Wonderman.
Fiquei intrigado, claro.
Pois é, meus caros, com as cuecas brancas certas podem dar uma melhorada no vosso perfil. Como? Se no caso das mulheres, o sutiã-maravilha sobe e junta as amigas para a apoteose final "unidas venceremos", já o truque da cueca-maravilha está numa pequena bolsa na parte da frente, onde se acomoda o dito cujo. É o suficiente, diz quem experimentou (?), para se olharam ao espelho e perguntarem: de onde saiu aquele tipo confiante que me sorrie do outro lado?!

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A dúvida não me tirava o sono, mas deixava-me inquieto.
Sim ou não?
Sim ou não?
Sim ou não?
Por fim, e depois de umas experiências anteriores ― não muito bem sucedidas, devo admitir ― resolvidas no fio da navalha, resolvi que tinha de pagar para ver.
Paguei (e não me saiu barato!).
Marquei hora e lá fui. Mandam-me entrar para uma sala, com musiquinha de fundo e tudo ― deve ser para relaxar! Dispo a camisa e deito-me de costas na marquesa. Ela entra. Esfrega-me o peito e abdómen com uma loção desinfectante e depois passa pó de talco. Pergunta-me se pode baixar um pouco mais as calças na linha da cintura. Digo que sim, para ficar à vontade. Vamos falando e eu faço de conta que nem estou a prestar atenção à mistela viscosa que ela aquece à parte para não solidificar. E começou então a tortura...
Não sei o que foi pior: se a cera a grudar-se nos meus pelos, se o calafrio de antecipação sempre que ela se preparava para puxar (arrancar?) mais uma banda, se a visão da minha pele intumescida. Mas não soltei um ai.
Sim, que um homem pode até depilar-se, mas não se queixa como um mariquinhas! Agora, perguntem-me lá se vou repetir a graça?