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13.4.09

Esperança em tempos de cólera

Is this the place, we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?
(Somewhere Only We Know, Keane)


Ninguém está a salvo dos seus (falsos) pressupostos. Muito menos eu. Tenho vivido todos estes anos plenamente convencido de que nunca me apaixonei para valer e, de tanto o repetir, o que começou, na verdade, por ser uma mera interrogação acabou por tomar ares de certeza (quase) definitiva. E ai transformou-se num daqueles postulados idiotas que não me suscitam orgulho, mas também não me provocam dramas existenciais e/ou recriminações. Foi mais o tipo de coisa que deixamos dobrada no fundo de uma gaveta, na qual até remexemos de quando em vez, mas que não nos damos ao trabalho de despejar para fazer uma selecção do que fica e do que vai fora porque deixou de servir.

Agora, colocando vários episódios recentes em rewind, já não tenho tanta certeza assim... Acho mesmo que há a chance, séria e real, de me ter apaixonado, quiçá até mais do que uma vez, e de não ter dado conta... Parece altamente improvável, esdrúxulo até, eu sei, mas quem se apressar a pensar assim estará, porventura, a cometer o mesmo erro grosseiro que eu.
Entre outros devaneios que não são para aqui chamados, passa-me pela cabeça que eu poderei ser do tipo que não sabe reconhecer em si os sinais da paixão. Dito de outra forma, começo a desconfiar de que, vá-se lá saber porquê, eu ter-me-ei persuadido que paixão era uma determinada coisa, uma coisa tão arrebatadora e tão inequívoca que, ao passar por mim, eu teria, necessariamente, de parar para lhe prestar atenção. E por arrebatador e inequívoco leia-se arrepios na espinha, estômago embrulhado e pernas titubeantes se essas fossem imagens poéticas do meu agrado, mas esse talvez esteja a ser o meu mais terrível e traiçoeiro engano.

Talvez a paixão não me deixe indisposto. Talvez ela me deixe antes disposto para cometer loucuras e actos apressados. É que, para quem se diz intocado pela paixão até hoje, eu tenho cometido vários de cada nos últimos tempos. O que me leva a matutar: se eu sou capaz de loucuras e de gestos grandiosos por pessoas a quem apenas quero bem - ou me suscitam curiosidade, que é uma palavra cautelosa que eu passei a empregar amiúde para salvar a face em caso de derrocada iminente -, o que farei quando realmente achar - tiver a certeza? - que estou arrebatadora e inequivocamente apaixonado? O chão vai tremer? Os sinos vão dobrar? Vai parar de chover? Cristo desce novamente à Terra? Provavelmente, não; provavelmente, não. Percebem onde quero chegar?

Se não entenderem também, não é caso para se incomodarem. Até porque nada do que escrevi até estas linhas é para fazer (muito) sentido. É mais um exercício de lógica e de purga a que me sujeito num dia em que acordei de bem com a vida e comigo. Não que seja raro eu acordar de bem com a vida e comigo, pois passo ao largo das criaturas que foram amaldiçoadas com um despertar rabugento e ácido, mas acontece que sobrevivi a uma manhã particularmente merdosa. Uma manhã em que me vi sozinho num lugar onde não queria estar, sem referências e sem um rosto familiar por perto. Pior, descobri-me longe das pessoas com quem deveria realmente estar naquela manhã de celebração.
Não vou armar-me em forte nem em blasé e dizer que tirei de letra aquela manhã; não tirei. Ela custou a passar e foi dolorosa. Demorei horrores para sair daquele lugar; e demorei ainda mais para me libertar do que me conduziu àquela manhã. De certo modo, uma parte de mim ainda está presa naquela manhã. Mas, como disse, sobrevivi. E sobrevivi inteiro e em paz.

Não se iludam. Não faço minimamente a linha dos que dão a outra face sem ripostar, sem ferir. Mas, não gosto de passar por uma provação sem ficar com o consolo de que, ao menos, aquilo me serviu para aprender a lição. Por isso, em vez de estar furioso e de querer esmurrar alguém que, apesar de todas as vigílias nocturnas, ainda não atingiu o grau de humildade e humanidade necessário para se colocar, por um instante que seja, na pele do outro, eu estou grato.
Porque quando alguém bate a porta, a meio de uma madrugada chuvosa, sem se importar com o que deixa para trás - porque não soube apreciar a nossa companhia, porque não se ralou muito em perceber os nossos gostos e nem sequer hesitou ante a certeza do que tivemos de abdicar para estar ali -, é caso para perder o sono. Mas não é caso para perder a esperança.

Naquela manhã, arrependi-me duramente de não ter dado ouvidos à minha intuição que, por mais de uma vez, me segredou para não ir. Teimei e fui, paguei um preço alto, mas conquistei na adversidade algo inesperado: se, com todas as minhas limitações, desacertos e dúvidas, decidi ir ao encontro - num gesto quem sabe precipitado, admito, mas que me exigiu generosidade e coragem - de alguém que, não obstante a inconstância, a imaturidade e até um certo desapego a roçar a frieza, me tem inspirado, mais do que tesão ou desejo, um carinho genuíno e uma vontade legítima de tentar ir mais além (porque falar em química é vago), então eu ainda tenho esperança. A esperança de que, tarde ou cedo, eu vou deixar de ser uma excepção para passar a ser uma regra. A regra dos que se apaixonam, com ou sem arrepios, com ou sem borboletas, nem que para isso tenham de partir a cara mil vezes.

Cansei-me de ser a excepção que confirma a regra. A manhã passou; ficará o orgulho ferido, quando muito, e uma mágoa que nem sequer é (só) de agora. Mas o que aprendi sobre mim naquelas horas, isso eu vou querer lembrar sempre.

8.2.09

Ajoelha e reza

Blowjob by Dolce & Gabbana


Are we human or are we dancers?
My sign is vital, my hands are cold
And I'm on my knees looking for the answer
Are we human or are we dancers?

Pay my respects to grace and virtue
Send my condolences to good
Give my regards to soul and romance
They always did the best they could

And so long to devotion
You taught me everything I know
Wave goodbye, wish me well
You've gotta let me go
(Human, The Killers)


Por esta altura da minha vida já deveria saber que o despeito não é um bom conselheiro. Quis dar o troco a alguém que, sem aviso prévio - ou assim o quis entender, que, a bem da verdade, os sinais estiveram quase sempre lá não tivesse eu teimado em lhes fazer vista grossa... -, me deixou apeado, já desfraldado e de pele eriçada, com o bolo nas mãos. Claro que isto de querer entrar a meio numa outra festa, para a qual guardámos o convite "just in case", raramente dá boa coisa. E foi assim que, por mais de uma semana, arquei com as consequências do meu acto impensado e aprendi a duras penas - espero - que, não tão raro como isso, os primeiros instintos são os que contam. Que é como quem diz: se durante mais de um mês não deste o teu número de telefone a um tipo, não lho dês depois só porque um outro filho da mãe te deixou, literalmente, na mão. É asneira da grossa e não vale o trabalho que dá para remediar o mal feito.

Para me redimir do meu ímpeto vingativo, resolvi, depois de ter perdido as estribeiras e de ter dito poucas e boas ao Casanova de trazer por casa, recuar. Fi-lo, disse na altura, porque "o seu erro não justificava o meu", mas essa é a parte bonita e edificante desta estória. A moral, nua e crua, está bem menos para Santa Teresa d'Ávila, pois, por uma vez, achei ser hora de começar a usar quem também me usava - e pelos vistos com maior mestria e sem remorsos. Entrámos assim numa espécie de acordo nunca assumido, mas até certo ponto consentido (quem cala, consente), de mútua e descarada conveniência.

Em teoria, esta coisa de uma mão lavar a outra parece saída dos ideais proclamados desde a Revolução Francesa, mas, na prática, pergunto-me se estou pelos ajustes e se a alcova em questão vale que me arme em Valmont. Mas isto, claro está, são dúvidas e hesitações de quem ainda não se converteu por inteiro ao cinismo e para quem um momento de prazer não justifica todos os meios para lá chegar. Ter-me-ei tornado, para mal dos meus pecados, no último dos moicanos?

31.8.08

Au fil des jours

River Phoenix e Keanu Reeves em My Own Private Idaho


I don't care if Monday's black
Tuesday, Wednesday - heart attack
Thursday, never looking back
It's Friday, I'm in love

Monday, you can hold your head
Tuesday, Wednesday stay in bed
Or Thursday - watch the walls instead
It's Friday, I'm in love

Saturday, wait
And Sunday always comes too late
But Friday, never hesitate...
(Friday I'm in Love, The Cure)




Pela boca morre o peixe. Nunca dizer nunca, não vá o Diabo tecê-las, tornou-se uma espécie de postulado dos nossos dias, uma superstição - lagarto, lagarto, que o Diabo seja cego, surdo e mudo - a que nem os descrentes escapam incólumes. Ninguém quer morrer pela boca. Ninguém quer ser apanhado em flagrante negação. Não sendo eu a excepção que desdiz a regra, sexta-feira passada caí em contradição. Fi-lo por impulso, mas suficientemente consciente para não me agarrar à primeira desculpa esfarrapada. Fi-lo porque cheguei ao chamado ponto do não retorno, e entre dar o dito pelo não dito ou deixar alguém de quem gosto na mão, eu posso até hesitar, mas não vacilo. Fi-lo não porque a isso me levaram, mas porque a isso eu deixei que me levassem. Porque na vida, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, todos nós somos postos à prova. E é ai que deixa de ser apenas uma questão de saber viver com as nossas escolhas para passar a ser também uma questão de aprender a viver com as implicações dos nossos actos. Podemos teimar em viver pelas regras que a nós mesmos impusemos. Ou não. Na sexta-feira passada caí em contradição. Mas sou Homem o bastante para não fazer disso uma excepção. Desdizer-me-ei tantas quantas as vezes em que me permitir a liberdade de voltar atrás. Entre uma página imaculada, sem borrões, e uma página reescrita, com emendas e rasuras, agarro a última. Há erros grosseiros que se evitam. Mas há outros que só o são se assim os entendermos. Sexta-feira passada não caí em contradição. Tão-só não permiti que o medo de errar me impedisse de viver o momento.

30.6.08

O síndroma da cama vazia


Soy un perdedor
Im a loser baby, so why dont you kill me?

(Loser, Beck)


Take 1
Sexta-feira à tarde. O termómetro marca mais de trinta graus. Deixar o trabalho em banho-maria para me escapulir com a amiga a tiracolo rumo à praia tem, de repente, aquele mesmo gostinho a travessura de quando, ainda adolescente, fazia gazeta às aulas para me enfiar numa matiné do King ou do Quarteto. Pena que tanta gente tenha a mesma falta de sentido de dever... O comboio para Cascais já sai do Cais do Sodré sem um único lugar vago. Saltamos na estação certa e caminhamos um pouco. Felizes da vida por Lisboa, com todos os seus defeitos, ainda nos proporcionar prazeres simples como este, que é o de ter várias praias a meia-hora, se tanto, de distância. Em lugar da brisa, que seria bem-vinda, o vento que se levanta varre o areal, soltando grãos de areia que fustigam a pele. Depois de lagartear ao sol, vamos à água. Está fria. Está estupidamente fria. Ela não se atreve para lá do tornozelo, eu insisto. Ela aplaude a minha bravata. Deixamo-nos ficar depois, enrolados nas toalhas, à conversa. Diz-me ela:
- Cheguei à conclusão que nós, mulheres, na ânsia de querermos ser modernas, muitas vezes não conseguimos mais do que ser modernosas. Ficamos a tentar provar aos homens que também somos capazes de ser desprendidas, que podemos encarar o sexo da mesma forma que eles, mas, a verdade é que não somos assim e não temos de o ser. Estamo-nos a violentar! Temos de deixar de ter vergonha e dizer que aquilo não nos basta e que queremos mais.
Confesso que não a levei muito a sério. Não por discordar; mas por achar que, no fundo, aquilo era mais para se justificar do que para seguir à risca. Talvez por isso, ou porque os homens - mesmo os que se dizem capazes de ouvir uma mulher - raramente desviam os olhos do que fica para lá do seu umbigo, enquanto ela falava eu estava mais entretido em comprovar os efeitos nefastos da água gelada na anatomia masculina... Futilidade? Com certeza, mas quem nos pode levar a mal se até mesmo os Beckham desta vida não gostam de ficar mal no retrato quando se exibem em público em trajes menores?!

Take 2
O final de tarde promete. Está-se bem na praia, mas temos sede. Fome também. Recolhemos a trouxa e assentamos arraiais na "nossa" esplanada preferida desde outro dia. Bem de frente para o mar. Enquanto esperamos pelo pedido, ela saca de um livro de Machado de Assis e dá-me a ler a dedicatória que um amigo lhe deixou. Palavras bem articuladas. Palavras de quem a conhece do direito e do avesso. Não lhe faltam homens amorosos na sua vida. Faltam-lhe, quiçá, homens que ela não tenha pressa em amar... Claro que guardo isso para mim.
Primeiro trazem o sumo de maracujá - gelado de fazer estalar a língua, como gosto. Depois trazem a tosta de frango. Reparo que o pão vem cortado em forma de coração. O que aconteceu às velhas e tradicionais tostas em pão quadrado? Há uns bons anos, uma colega minha de universidade perguntou-me se era romântico, ao que lhe respondi, com a ironia possível dos vinte anos, "tenho dias...". Pois tostas em forma de coração continuam a não me comover. Lamento. Mas isso sou eu, um gajo a quem, ainda há semanas, acusaram de, no que toca a manifestações de carinho, "ser de uma frieza quase cirúrgica"... Bom, por mais que isso "faça parte do meu show", a prova de que no meu peito desafinado também bate um coração é que não pude deixar de me sentir incomodado quando, a meio da minha tosta, ela se saiu com o seguinte desabafo:
- Decidi que não vou mais responder ao 'ser humano'... Se ele me mandar e-mail, se ele me procurar no MSN, não vou responder... Nem vou atender o telefone! Isto se ele ligar, o que eu duvido! Mas se ligar, não vou atender também... Bom, talvez atenda, mas só se ele ligar mais de uma vez...
'Ser humano' foi o codinome que ela arranjou para não ter de dar nome aos bois; neste caso um marmelo que ela, por mais que esteja à frente do seu nariz a canalhice (e cobardia, caramba como nós, homens, podemos ser cobardes na hora de sair de cena!), não consegue descartar de vez. E isso aflige-me. Aflige-me que ela, uma mulher atraente, rápida no gatilho e independente, esteja há dois meses sem namorar - um namoro que, diga-se de passagem, durou apenas três semanas - e já acuse o peso (o vazio?) da solidão.

Take 3
Vou a casa tomar banho, trocar de roupa e comer qualquer coisa rápida antes de voltar a sair. Sexta à noite. Encontro marcado no Bairro [Alto] para abrir as hostilidades. Levam-me duas cervejas de avanço. Apetece-nos dançar. A mim apetece-me, pelo menos. Vamos para a Bica. As ladeiras a pique, que ainda há dias mal continham a enxurrada de gente, estão agora mais desafogadas, mas ainda assim, a parca calçada em socalcos está semeada de grupos à conversa. Apostamos no Bicaense, mas a pista está às moscas. Não ficamos e continuamos a descer até ao Lounge. Assumidamente retro, o Lounge está composto e aposta num som à la Pulp Fiction. Mais uma cerveja, mais um brinde a coisa nenhuma. Dançamos. Até que alguém olha para o relógio. Já começam a ser horas de descer aos infernos. Tóquio, Music Box ou Jamaica? Como elas não pagam, são elas que entram primeiro para tirar o pulso às casas. Hesitam, mas, sem grande convicção, lá se decidem pelo Jamaica. Ao contrário daquele bar que passava na televisão, onde toda a gente sabia o nome de toda a gente e onde todos metiam o bedelho na vida uns dos outros, no Jamaica a familiaridade não chega a tanto, mas é o tipo do lugar, desprovido de qualquer graça natural, onde se canta em uníssono a música dos anos 80 que deixou saudades - incluindo a mais foleira; sobretudo a mais foleira - e se tem a garantia de que se sairá, madrugada alta, com a roupa colada ao corpo. Pena que nenhum de nós estivesse verdadeiramente virado para o Jamaica nessa noite. Ainda assim, e com a pista acanhada a rebentar pelas costuras, demos o nosso melhor. Mesmo quando alguém sem noção, como a mulher farta, uma criatura digna de Botero, encoxa libidinosamente à minha frente com um tipo qualquer. Das duas, uma: ou recuo e me reduzo à minha insignificância; ou peço licença e pergunto se posso fazer uma participação especial. Mas ai, a minha amiga, que tinha estado calada até então, aproxima-se e segreda-me ao ouvido:
- Estou a ver ali no meio o futuro pai dos meus filhos!
- Cadê?
- Ali, aquele de cabelinho todo despenteado... (detalhe: o seu ideal de cabelo num homem é algo à imagem do vocalista dos Beirut...)
Estico o pescoço e finjo achá-lo no meio da multidão - "Aham, estou ver..." é o melhor que consigo dizer -, mas quem me pode levar mal se Tainted Love é emendado com Enola Gay. Vou dançar, nem que para isso tenha de abrir espaço a minha volta à cotovelada.

Take 4

Já passa das cinco. A porta não tem descanso e cada centímetro livre na pista é avidamente disputado. Para piorar, há ainda quem esteja convencido que certas coreografias ensaiadas ao espelho são para ser mostradas em público... O mais sensato seria bater em retirada, mas ninguém parece querer ser o primeiro a dar parte de fraco. Ligo o piloto automático e seja o que Deus quiser. Detenho-me nela, a minha amiga, e acho-a murcha, espremida a um canto. Mais adiante, como que por milagre, abre-se uma pequena clareira. Duas miúdas beijam-se sofregamente, como se não houvesse amanhã, indiferentes aos urros dos machos exultantes à volta que, de repente, já não estão mais no Jamaica, mas sim à volta de um ringue, onde mulheres seminuas chafurdam na lama. Quando Prince sucede a David Bowie, quase acredito, por segundos, que elas vão a vias de facto ali mesmo... Entre os meus, é ela, a amiga murcha, que entrega os pontos. Aliviado, trato de sair dali para fora. Preciso de ar. E de espaço. O dia está a clarear. Antes de a despachar num táxi, ela ainda me diz:
- Ah, eu bem o vi a olhar para mim, mas ele não veio ter comigo; também não havia de ser eu a ir ter com ele...
Penso, mas não lhe digo, que isto de ser ou não ser uma mulher moderna traz água no bico. Para mim, felizmente, tudo é mais fácil (e óbvio): basta-me a ideia de que tenho à minha espera, ainda que vazia, uma cama. Uma cama de lençóis esticados onde não vejo a hora de me esparramar.

26.5.08

A ervilha


In cards and flowers on your window,
Your friends all plead for you to stay.
Sometimes beginnings aren't so simple.
Sometimes goodbye's the only way.

(Shadow of the Day, Linkin Park)


Momento flashback: antestreia do filme Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Enquanto P. vai ao carro buscar os óculos de que se esqueceu, eu e F. tomamos vez na fila que se junta à porta da sala, pois não há lugares marcados. F., a grande responsável por eu ter voltado à vida boémia, põe-me a par das últimas. Não faço por mal, até porque se há alguém que gosto de ouvir é ela, mas a minha atenção é desviada para outro lado. À nossa frente, três amigos destoam do resto. Não que façam por isso ― são até bastante discretos, quer na postura, quer na indumentária ―, mas o meu radar deu sinal de alerta. E o que pode ter sido imperceptível para os demais, para mim foi suficientemente esclarecedor. Quando dou por mim, já estou a fazer uma coisa que detesto se for eu o visado: comecei a medi-los de alto a baixo. Acho até que um deles, o mais interessante por sinal, se apercebeu a dada altura. Disfarço. Para mais, não era a hora, tão pouco o local adequado. Termina o momento flashback.

Sábado à tarde. F. manda-me uma mensagem a perguntar se quero jantar com ela e o seu amigo A., que está de passagem por Lisboa. Insiste há dias para que eu conheça A., mas pelas estórias que me conta, sem esconder o entusiasmo e a admiração, eu tenho ficado de pé atrás… Não me agrada também que seja sempre ele a querer definir os horários e o lugar de encontro. Prefiro por isso deixá-los ir jantar primeiro e juntar-me a eles mais tarde.

Abrir parêntesis
A. foi namorado de F. quando andavam na universidade, mas conhecem-se desde que eram adolescentes e viviam os dois no Guarujá, litoral de São Paulo. Agora F. mudou-se para Lisboa e A. vive em Londres.
Fechar parêntesis

Chego ao restaurante já perto da meia-noite, acabaram as sobremesas, mas ainda decidem com que bebida vão encerrar o repasto. F., noto mal puxo uma cadeira para me sentar ao seu lado, está meio que perdida na mesa, onde, além de A., estão ainda mais três homens. Nenhum deles, para além de A., fala português. Bem sei que o inglês, apesar de todos os cursos que fez, não é o ponto forte de F., mas não me cheira que seja isso a incomodá-la. Reparo melhor no grupo. A., como imaginava, é o centro da mesa, só que não se comporta como o mulherengo “pintado” por F. Aliás, bastam-me uns minutos ali para perceber que F, apesar de já devidamente informada por amigos comuns do facto ― como me viria a confidenciar mais tarde ―, não estava era preparada para ver o seu ex-namorado, o mesmo que se lhe declarava timidamente desde os 15 anos, aos beijos com o seu namorado francês e cheio de trejeitos dengosos para com os restantes amigos. A., justiça lhe seja feita, além de bonito e elegante, é o tipo que só passa por gay quando assim o entende. Já os seus amigos e namorado são aquilo que podemos chamar de estereótipo: bonitos, jovens (um deles nem tanto, pois desconfio que beira os 50, mas em plena forma), bem sucedidos na indústria da moda e sem pudor de usar roupa totalmente justa aos corpos enxutos. Tiro-lhes o chapéu por não se preocuparem sequer em manter as aparências num dos restaurantes mais caros e chiques de Lisboa, mas sei também que muita daquela confiança em querer fazer com que o mundo os engula, além de deliberada, é fruto de um elixir poderoso chamado dinheiro. Acho graça também quando, num momento em F. se retira da mesa, A. começa a beijar o namorado ― para gáudio dos dois amigos ― para testar a minha reacção.

Vou com F. para o Bairro [Alto]. A. e os amigos ficam de nos encontrar lá. Claro que A. faz questão de sugerir o bar… Frequento o Bairro há mais de 15 anos, mas ainda assim continuo a perder-me nas suas vielas, já A., claro, chega tarde, mas não dá mostras de ter errado o caminho. Mal chega, pede uma rodada de caipirinhas para todos e, à parte, encomenda, suspeito, haxixe para ele e para o resto da pandilha. Quando os deixamos, já o bar é deles, mas, uma vez mais, eu e F. saímos à frente. P. espera-nos para irmos juntos até ao Lux.

A. e companhia ― juntaram-se, entretanto, mais dois gays ao grupo ― chegam já nós vamos no fim do primeiro copo. Foi parado no caminho pela polícia, mas, como sacana sortudo que é, “apenas” acusou 48 mg de álcool no sangue contra os 49 permitidos por lei! Apesar de o Lux ser, cada vez mais, gay friendly, o nosso grupo começa, aos poucos, a atrair alguns “satélites”, que ficam na órbita a ver onde param as modas. Pelo canto do olho, observo, entre o divertido e o desconcertado, que, à excepção de P. e F., somos todos praticamente da mesma altura, o que só serve para acentuar a ideia de “farinha do mesmo saco”. Claro que, estando os rapazes mais ou menos entretidos uns com os outros, tinha de sobrar para mim. Estou eu a dançar muito sossegado ― o sossegado é relativo, admito, mas adiante ― quando começo a sentir a presença incómoda de um tipo quase colado a mim. Se há coisa que me deixa “P” da vida é fazerem-me isto quando estou a dançar na minha. Chego-me mais a F., que sorri divertida, mas nem mesmo assim o tipo descola… Só penso: com tanto gajo bom aqui para escolher, este caramelo logo tinha de vir tentar a sua sorte comigo!!! Com o tempo, ele lá acaba por perceber e vai pescar ao largo. Não passam nem cinco minutos e já está de conversa com um outro na pista. Quando este se vira, a sua cara não me é estranha… Puxo pela memória e nem quero acreditar na coincidência: é um dos tipos que estava no cinema! Qual ovo qual quê, o mundo é uma ervilha!

1.5.08

Apaguem as luzes, por favor, que me dói a cabeça...

Image by Oz


I hope all my days
Will be lit by your face
I hope all the years
Will hold tight our promises

I don't wanna be old and sleep alone
An empty house is not a home
I don't wanna be old and feel afraid

And if I need anything at all

I need a place
That's hidden in the deep
Where lonely angels sing you to your sleep
Though all the world is broken

I need a place
Where I can make my bed
A lover's lap where I can lay my head
Cos’ now the room is spinning
The day's beginning

(Atlantic, Keane)


Dois homens away from home. O dia vai longo - entre aviões, comboios, táxis, malas abertas. Uma nova geografia com sotaques arrevesados pelo meio. O reencontro pede uma cerveja no bar-da-esquina-onde-todos-vão. Bebemos a primeira, mas, já que estamos ali, e o final de tarde até está agradável, pedimos outra… A conversa engata. E está tão boa que, apesar do câmbio desfavorável, pedimos a terceira para a saída. O crepúsculo tarda, mas o relógio diz-nos ser hora de jantar. Mudamos de poiso. A falta de inspiração para procurar mais adiante dita um restaurante italiano de ocasião, do qual não vou nem recordar o nome mais tarde. Bebemos mais duas para o caminho. Chegados ao hotel, o alpendre do meu quarto, virado para o lago adormecido, exige, apesar da brisa fresca dessa noite, um brinde com vinho. Vazamos a primeira garrafa de tinto e não demora muito a ficarmos amigos de infância. Começam as confissões, algumas das quais serão convenientemente esquecidas na manhã seguinte. Noto que ele se controla, a muito custo, para não tropeçar na língua. Já eu estou mais preocupado em não tropeçar nos pés quando me levanto para ir mijar. Na volta, trago mais uma garrafa.

Terminamos na cama. Cada um na sua e com a respectiva ressaca por companhia. Em momento algum, mesmo quando a conversa resvalou para zonas de perigo, achei que o desfecho pudesse ser outro. Tanto para mim – tenho mais ou menos claro que não me quero envolver com colegas de trabalho -, como para ele – casado, e bem casado até onde sei ou me interessou saber -, o estímulo esteve sempre, e só, em deixar as coisas avançarem até aquele ponto crítico em que a corda fica esticada no limite da tensão. É um desafio. Um jogo em que muitos homens se exercitam sem nunca saírem da sua esfera de conforto ou sem terem de pôr em causa seja o que for. Pouco para uns. Para outros é o suficiente. No meu caso, tem sido, na maior parte das vezes, o bastante. Resta a quem o faz ter a inteligência, e a humildade, de ter sempre bem presente uma lei elementar da vida: o vazio prevalece sobre tudo aquilo que é fugaz.

1.4.08

Retrato-robô


The teenage queen,
the loaded gun;
The drop dead dream,
the Chosen One
A southern drawl, a world unseen;
A city wall and a trampoline
(
Read My Mind, The Killers)


Há dias, ao abrir a caixa de correio electrónico associado a este blogue, deparei-me com uma missiva de remetente misterioso que dizia apenas isto, depois do seguinte cabeçalho "We're off to see the wizard, the wizard of Oz":

“Só para deixar um comentário de apreciação pelo bom gosto musical, pelas palavras, suaves, pensadas e ecléticas; por apenas”

Os mais cépticos – entre os quais eu cerro, não raras vezes, fileiras – dirão não se tratar de um procedimento inteiramente inocente e que há nele uma intenção disfarçada de aguçar primeiro a minha vaidade, depois a minha curiosidade. Talvez seja. Mas resolvi não o entender assim.

Em meados de Março fez um ano que, aos vários desdobramentos da minha personalidade – porque eu sempre acreditei que podemos ser vários sem deixarmos de ser um só - , resolvi dar voz ao Oz - não se assustem, não sofro do síndroma de Napoleão e no dia em que começar a falar do Oz na terceira pessoa do singular, como se de uma entidade separada se tratasse, podem meter-me na camisa de forças. O Oz sou eu, sempre fui, mas sou eu em partes. Nas partes em que me predisponho a reflectir sobre a minha sexualidade e tudo que a ela diz, directa ou indirectamente, respeito.

É claro que, muitas vezes, ao longo deste último ano, me interroguei sobre a imagem que estava a construir aos olhos dos que me lêem sem ter acesso a mais nada da minha vida que os ajude a preencher os contornos do retrato-robô... Como me imaginam? Que leituras fazem nas entrelinhas? Que tipo de sentimentos desperto?

Não foi algo que premeditei ou que tão pouco estimulei, mas, sem nunca abdicar de me resguardar – mas também sem fazer disso um segredo de estado ou uma esquizofrenia -, aos poucos tenho cedido à curiosidade – natural, eu acho -de querer descobrir mais sobre determinadas pessoas que se escondem, tal como eu, atrás de um alter-ego; da mesma forma, tenho vindo a permitir que algumas dessas pessoas descubram também um pouco mais do que sou para lá do que apenas cabe aqui, entre estes quatro cantos de um ecrã.

Dos que frequentam, ou frequentaram, os meus blogues, apenas duas pessoas me conhecem pessoalmente; existem ainda mais quatro ou cinco, que eu me lembre assim de repente, que eu tenho a certeza de que virei, inevitavelmente, a conhecer, pois há muito que deixaram de ser só palavras para passarem a ter também um nome, um rosto e um contexto que ajudaram a fazer deles mais do que simples esboços na minha vida. Há ainda outros, não muitos, com quem mantenho, de forma mais ou menos esporádica, algum contacto extra blogue, mas sem qualquer intuito, de parte a parte, de ir para além do circunstancial. Por isso, e para a grande maioria, eu vou permanecer o que sou e o que projecto através do que revelo aqui e só aqui. Sem rosto. Nem gordo, nem magro. Nem alto, nem baixo. Nem moreno, nem louro. Nem branco, preto ou vermelho.

Porque acredito, de verdade, que a maioria não precise, nem queira, ver de mim mais do que eu mostro aqui. Para esses, aliás, estou em crer, o meu encanto, a ter algum, está precisamente no que lhes permito imaginar sem nunca lhes contrapor a realidade. E lembrei-me agora do que me escreveu um dos meus mais novos amigos – um dos poucos que não tem alter ego na blogosfera, nem precisa - um dia destes:

“Gosto da maneira que você escreve, há certa sensualidade entre as palavras que me seduzem. Isso me deixa curioso, fico a pensar: “É intencional ou natural? Como ele consegue?”. Por favor, não responda, não gosto de estraga-prazeres.”

Fiz-lhe a vontade e não respondi. Até mesmo porque não saberia o que lhe responder. Do mesmo modo que não fui tratar de saber quem me enviou a missiva. Ainda não.

20.3.08

A miragem

Campanha de swimwear da marca australiana AussieBum


So with tomorrow I will borrow
Another moment of joy and sorrow
And another dream and
Another with tomorrow

(With Tomorrow, This Mortal Coil)


Da mesma forma que acordamos a meio da noite, varados de fome, dispostos a atacar o frigorífico (geladeira), senti um desejo repentino de voltar a ouvir This Mortal Coil. E tinha de ser já. Nem pensar em perder tempo a procurar antigas gravações desta banda no meio da minha tralha pré-era-digital. A dispensa do Utube está ai mesmo para isso e, como todo o bom
delivery, funciona 24 horas sobre 24 horas. Arrombei as portas e na jukebox pus a tocar uma velha preciosidade (está ai acima, para quem estiver interessado). Música boa para dor de corno e de cotovelo, dirão alguns. Nem por isso, riposto eu, mas se tivesse ali à mão uma garrafa de vodka bem gelado, confesso, ter-me-ia passado pela cabeça baixar as luzes, tirar os sapatos, jogar umas almofadas no chão e deitar o gargalho à boca. Só pelo prazer de beber sozinho. Em vez disso, acessei a minha caixa de correio electrónico. Ideia peregrina aquela hora tardia, mas, fazer o quê, o tédio tomava conta de mim. Vários convites. A maior parte deles para jogar no lixo sem sequer me dar ao trabalho de os abrir. Mas aquele prometia. O endereço era-me familiar. Abro, leio e nem quero acreditar. Leio uma segunda vez – e olhem que nem cheguei a beber. Até finais de Maio só tenho de escolher as datas em que quero desfrutar de três noites, com tudo praticamente pago, num dos melhores e mais novos hotéis de Mykonos!!! A vida prega-nos cada peça. Há uns largos meses, ainda no Metamorfose de Oz, eu dediquei um post a esta ilha-grega-doida-de-pedra [(re)ler aqui], no qual manifestava, precisamente, o meu desejo de ali voltar... Éden pluri-multi-pansexual, Mykonos, já dizia eu então, esteve na moda, deixou de estar e voltou a estar. E reergueu-se das cinzas com tudo – inclusive lugares lindos e cheios de mordomias como o hotel em causa. Põe-se agora a questão: o convite dá direito a acompanhante. Faço um leilão entre possíveis candidatos, com direito a provas físicas e interrogatórios rigorosíssimos, ou pego na mala, nos meus óculos escuros, nos meus AussieBums e vou sozinho-e-seja-o-que-Deus-quiser?


Mais AussieBum, desta vez com os meus votos de uma Páscoa Feliz (para quem gosta de ovos e coelhos, é claro!)


11.2.08

Quiz Show


My loneliness is killing me (and I)
I must confess I still believe (still believe)
When I’m not with you I lose my mind
Give me a sign, hit me baby one more time!

(
Baby One More Time, Travis)


O que responder quando alguém, de quem gostamos mas ainda não amamos, se vira para nós e dispara à queima-roupa:
- Pensei de verdade que poderias apaixonar-te por mim ao ponto de quereres “sair do armário” para irmos viver juntos aqui ou ai?

a) Let’s wait a while before we go too far
b) I’m not half the man you think I’m
c) I just wanna have fun
d) Now I run from you
e) Sweet dreams are made of this, who am I to disagree

21.1.08

Conta-me um segredo


A man can tell a thousand lies
I’ve learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned, till then
It will burn inside of me

(
Live to Tell, Madonna)


Quer em Disponível para Amar (In the Mood for Love), quer em 2046, dois filmes de Wong Kar Wai que aconselho, a ideia repete-se: sempre que alguém vive atormentado por um segredo que não se atreve a partilhar, escala uma montanha, procura uma árvore e nela faz um buraco. Soprado o segredo, o buraco é selado com lama.
Hoje, ao invés de subirmos à montanha, sentamo-nos frente a um computador; ao invés de procurarmos uma árvore, escondemo-nos numa sombra. Ao invés de abrirmos um buraco, criamos um blogue, mas nele, como no buraco, também depositamos segredos. E todos, mesmo os que dizem não esperar (nem precisar de) resposta, ansiamos para que o eco das nossas palavras, depois de lançadas ao vento, não caia no vazio sem pelo menos tocar alguém. Nem que seja ao de leve.

17.1.08

Palavras soltas

Cena do filme Odete, de João Pedro Rodrigues


All this frustration
I can't meet all my desires
Strange conversation
Self-control has just expired
All an illusion

(Born of Frustration, James)


Acordei com vontade de sentir novamente a respiração ronronante soprada no meu pescoço / De ter os músculos doridos depois de varar mais uma madrugada a dançar / De lançar barcos de papel iluminados à deriva na correnteza / De comer açai gelado às colheradas / De ovos Benedict sobre uma fatia de pão de centeio aquecida ao de leve / De percorrer a escala de andamentos entre um beijo moderato e um beijo vivace, ora lento, ora prestissimo / De ceder à vertigem do jogo em que passo de presa a predador e de predador a presa / De sair para fora de pé / De ficar em carne viva / De medir forças com um igual / Do frémito de ter tudo a perder ou tudo a ganhar / De alguém que me inspira o milagre e não a resignação.

21.12.07

A contra-luz

By Mario Testino


Moving on the floor now babe you're a bird of paradise

Cherry ice cream smile I suppose it's very nice
With a step to your left and a flick to the right
You catch that mirror way out west
You know you're something special
And you look like you're the best
(Rio, Duran Duran)

Há tantos anos que passo ali, mas acho que só agora pude enxergar aquela ilha, plantada entre os postos oito e nove. Sete cores enfunadas ao vento, projectadas num céu cristalino onde cada um imagina o arco-íris que bem quiser. Perscruto rostos e corpos, talhados na exacta proporção da vaidade e de quem se habituou a viver num eterno ensaio fotográfico de Mario Testino. Boys from Ipanema. O Sol cai a pique no Arpoador. À noite todos os gatos são pardos, sobretudo na esquina da Farme de Amoedo com a Prudente de Morais. No 69, ela, de blusa cava, exibe as suas tatuagens, enquanto dança no meio deles e delas. Ninguém quer saber de onde venho, para onde vou e o que faço ali naquela madrugada sem sono. Ninguém a não ser ele, o único que, mesmo a contra-luz, se deixa encadear pelo branco da minha camisa. Blame it on Rio. Sim, a culpa é do Rio e das suas eternas miragens.

13.12.07

Respiração

And I won't go
I won't sleep
I can't breathe
Until you're resting here with me
(Here with Me, Dido)



Estou, como se costuma dizer em bom português, sem tempo sequer para me coçar. É um bom momento da minha vida, com trabalho prazenteiro, mas esta correria, por mais que eu tenha uma costela de andarilho, está-me a deixar esgotado e não me permite algo que eu adoro e preciso: párar, respirar fundo e só depois prosseguir.

2.12.07

A três


But can you save me
Come on and save me
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

(Save Me,
Aimée Mann)


Chego à hora marcada com um embrulho e uma caixa dos chocolates que ela tanto gosta. Ele já está em mangas de camisa, a cozinhar para nós. Só o vi uma única vez, há uns bons anos, e ainda assim de raspão. Nem me recordo ao certo da sua cara, mas ela insiste sempre em dizer-me ― suponho que também o faça com ele ― que somos parecidos em muitas coisas, por isso, nessa noite, seremos três. Ele estende-me a primeira garrafa de vinho para eu abrir, ela pede-me para ajudá-la a pôr a mesa. Três cadeiras, três pratos, três copos, três velas. Não deixa de ser irónico, penso. A casa ainda está muito vazia, mas, na aparelhagem, toca sem parar Aimée Mann ― é inevitável recordarmos o filme Magnólia. É só mais uma das (muitas) coisas que temos em comum, por isso, e já um pouco bebidos, brindamos à nossa inabilidade para lidar com as coisas do coração. Da mesa passamos para o sofá. Ele prefere ficar sentado no chão, apoiado numa almofada. A conversa solta-se na mesma proporção que vamos esvaziando as garrafas de vinho. Às tantas, ele estende-me um charro (baseado). Recuso, ela aceita dar uma passa. A cena nunca aconteceu ― não entre nós, pelo menos ―, mas soa-me a dejá vu. No final da noite, a minha intuição confirma-se. Nada é dito, nada é sequer sugerido ou insinuado, mas fico com a quase certeza de que ele, tal como eu, está condenado a ser o seu melhor amigo para sempre. Saio de lá a perguntar-me até que ponto, ela tem consciência de que nós os dois, os homens da sua vida, somos realmente parecidos…

19.11.07

Entre Dorian Gray e Peter Pan


It’s so hard to get old without a cause
I don’t want to perish like a fading horse
Youth is like diamonds in the sun
And diamonds are forever
(Forever Young, Alphaville)


Sábado. Chego atrasado ao almoço com L., marcado para as 13. É o primeiro dia realmente frio deste Outono, o que me deixa disposto. Gosto de dias frios e de roupa quente. A cafetaria do CCB está composta, mas ninguém parece ter muita pressa em despachar-se. Ainda bem. Apesar do sol tímido, não arriscamos a esplanada e instalamo-nos na sala junto a um casal de meia-idade, que prefere a leitura dos respectivos jornais e revistas de fim-de-semana à conversa um com outro. Pelo contrário, eu e L., que não nos vemos há um bom tempo, aproveitamos para, entre garfadas, colocar a “escrita em dia”. Por mais de uma vez, as nossas tiradas são a única coisa que leva o casal da mesa ao lado a despregar os olhos do que está a fazer e a partilhar um franzir de sobrolho. Longe de ficarmos desconcertados, divertimo-nos com a sua desaprovação.

Como L. tem uma festa de aniversário nessa mesma noite e precisa comprar um presente, aceito a sua boleia até ao Chiado. Pelo caminho, conto-lhe o “enxovalho” por que passei recentemente: numa noite de copos com vários colegas de profissão, trai-me e falei do Jamaica. É bom dizê-lo, há mais de dez anos que não ponho ali os pés ― nem ali, nem nos seus vizinhos, também meus velhos conhecidos, Tóquio ou Copenhagen ―, mas ficará sempre associado a um período muito especial da minha vida.
Pelos vistos, e a avaliar pela chacota geral que se instalou assim que proferi o nome “maldito”, o Jamaica que tanto nos atraia, a mim e ao meu grupo de amigos de então, pela boa música que passava e pela sua impagável allure decadente (reunindo no mesmo porão fumarento, universitários, putas tristes e a escória das docas de Lisboa), não passa hoje de uma sombra de si mesmo ― perdeu a aura para passar a ser só, e ponto, decadente. O golpe de misericórdia é-me dado por L., com uns bons anos a menos do que eu, que me confirma o veredicto: o Jamaica está, definitivamente, out na noite lisboeta.

Resignado, mas não derrotado ― afinal, nada apaga as madrugadas em que saí dali com a roupa colada ao corpo depois de tanto dançar numa pista à cunha ―, desço, ainda na companhia de L., a Rua Garrett, por esta altura inundada de gente tomada pelo espírito pré-natalício. De repente, esbarro com um rosto que se abre de espanto na minha direcção. Levo uma fracção de segundos a reconhecer aquela cara a que falta qualquer coisa de familiar, mas aqueles olhos pestanudos gigantes, e muito arregalados, não enganam. Passaram-se não sei quantos anos desde que a vi pela última vez, mas nunca lhe perdi o rasto por completo.
Nem de propósito, E. fazia parte do meu grupo de amigos que frequentava (e gostava) o Jamaica. Está no segundo casamento, no primeiro filho, começou uma nova vida a sul e, reparo finalmente no que faltava, a sua outrora exuberante e farfalhuda cabeleira negra foi totalmente domada para dar lugar a um ruivo pardo. Diz-me que o marido não gosta de cabelos compridos e que ela, entretanto, também se cansou... Não a noto muito convencida.
Na energia, porém, mantém-se inalterada: fala pelos cotovelos, mete-se com L. e não perde tempo a sacar da carteira para nos mostrar fotos da (nova) família. Sinto-a feliz, mas demoro a acostumar-me à miúda namoradeira de antes agora na pele da mulher dedicada que vai para as compras com as amigas para fazer tempo enquanto o marido dela e os das outras se entretêm numa partida de golfe… Às tantas, atira-me: “Estás igualzinho!!!” Sei que é um elogio sincero, mas fico na dúvida quanto ao seu real significado. Quererá dizer que estagnei no tempo, que não amadureci e não formei família como era suposto (logo continuo solteiro, sem filhos, a frequentar porões fumarentos em vez de campos de golfe, a não poupar e em plena crise de identidade sexual)? Ou quererá apenas dizer que, por fora pelo menos, os anos ainda me pesam pouco (talvez porque continuo solteiro, sem filhos, a frequentar porões fumarentos em vez de campos de golfe, a não poupar e em plena crise de identidade sexual)?
Pensando bem, não interessa. Provavelmente, eu represento a vida que ela já teve e ela representa a vida que eu muito dificilmente terei algum dia. Mas, na vida, todos sabemos, ganhamos umas coisas e perdemos outras. Só lamento ter-me esquecido de lhe perguntar se tem saudades do Jamaica…

14.10.07

Restart

Por Piero Fornasetti


Birds flying high
You know how I feel
Sun in the sky
You know how I feel
Breeze driftin' on by
You know how I feel
It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

(Feeling Good, por Michael Bublé)


A cena repete-se. Eu, a televisão e umas quantas personagens que, de quando em vez, deixo entrar em casa, com direito, conforme o caso, a partilharem o sofá ou a cama comigo. Tenho particular predilecção pelas que, entre gargalhadas, me conseguem fazer pensar na vida. Como aconteceu uma noite destas:
Dois homens num restaurante discutem a relação.
(até aqui nada de novo; raros são os seriados que agora dispensam os gays nos seus enredos)

Um deles brinca e diz que nem teve de se preocupar em sair do armário, pois sempre se soube gay. E os outros à sua volta também.
(por essa altura eu já tinha decidido que era o outro, o que, pelo canto do olho, não parava de ver se as pessoas da mesa ao lado estavam a reparar neles ou a tomar atenção na conversa…)

Não satisfeito, resolve cutucar o seu companheiro e dispara à queima-roupa: “aposto que tu foste daqueles que demoram imenso tempo a assumir-se!”
(decididamente eu era o outro, o encurralado entre a pergunta incómoda e o desconforto de poder estar a ser alvo da curiosidade alheia…)

Mas eis que se sai com uma resposta de truz: “realmente demorei um bocado a tomar consciência de que era gay. Afinal, não nasci a gostar de musicais nem a perceber logo de roupa”.
(rejubilei triunfante… quando parecia que ia jogar a toalha no chão e balbuciar uma desculpa mal amanhada, ele mostrou-se à altura! Sempre dá muito jeito ter uma equipa de roteiristas a trabalhar as nossas falas!)

(Pausa para pensar no assunto)

Os musicais, dispenso-os. Faço parte dos zilhões que viram Cats ― mas em minha defesa posso sempre alegar que o meu (bom) gosto estava então ainda em fase imberbe... ―, vi O Fantasma da Ópera porque me obrigaram (!), mas quando tive a oportunidade de ir pela primeira vez à Broadway, vinguei-me. A maioria do grupo queria ir assistir a um dos musicais em cartaz, mas eu fui antes aplaudir a Natalie Portman, na altura uma miúda com ares de Lolita, que estava em cena numa versão teatral do Diário de Anne Frank. Escusado será dizer que me gabo disso até hoje…

Quanto à roupa… tenho dias. O certo é que ainda há bem pouco tempo, decidido a renovar o meu estoque de roupa interior, fui ao Corte Inglès. Gosto de ir ali por ser um espaço multimarca, mas, regra geral, o mais certo é ir direito à secção da Calvin Klein, onde escolho o modelo de sempre, nas cores de sempre: preto, branco e cinzento. Desta vez, porém, e porque a ocasião o pedia, resolvi “variar”. Não foi fácil, mas lá arrisquei nuns modelos da nova colecção ― para os mais distraídos: sim, também há novas colecções e tendências nas cuecas de homem! ―, com especial destaque para uns trunk encarnados ― os que estão a torcer o nariz, pensem duas vezes, pois não só o modelo fez sucesso entre quatro paredes, como se portou à altura num momento inspirado em que resolvi partilhar as tarefas domésticas e varrer logo pela manhã o chão da cozinha nestes preparos!