A tale of love, come and gone
And now my love, now promises
I wont go falling in love
(Velvet, the Big Pink)
O manifesto "há vida depois dos trinta" já soa a fraco consolo e não falta quem, no afã de provar que ainda está ai para as curvas, até se dê ao trabalho de imprimir no peito a frase lapidar "a vida começa depois dos trinta".
Não vou tão longe, mas digo, sem grandes pruridos, que, quando olho para trás, não sinto grande nostalgia dos meus anos 20. Nesta década, entre ganhos e perdas, ganhei mais do que perdi. Depois, e com tanto trintão (e não só, abençoados Clooney e Pitt, só para citar dois quarentões óbvios) enxuto por ai, nós, os comuns mortais, conquistámos até o direito de estar (e de parecer) bem sem termos de passar pelo despautério de escutar coisas do tipo "julgava que eras bem mais novo"! Mais novo o tanas, afinal a Idade Média já passou à história e se morremos cada vez mais tarde, o mínimo que se pode esperar de alguém nos trinta é que faça por aguentar a peteca. Ou não, que cada um sabe de si.
Curiosamente, o estigma dos trinta continua a fazer estragos no ego e muitos, mesmo os tais que até "passam por menos" (ou talvez exactamente por isso), cedem à tentação de mentir na idade... Aconteceu-me há dias de reencontrar online um velho conhecido, que, sem o menor pejo, na hora de se insinuar resolveu tirar, que eu desse conta, uns quatro anos da sua certidão de nascimento. Para azar do tipo, eu tenho muito boa memória, mas, a fina ironia é que ele nem tinha por que mentir.
Por estas, e por outras, um outro amigo meu brincou comigo e, à laia de provocação, resolveu atirar-me "onde é que fica a tua fonte de juventude?". Ri-me, pois então. Mas fiquei a matutar naquilo. E se, como dizem agora, Darwin sempre teve com a razão do seu lado? Sim, e se andamos para aqui todos ufanos a achar que demos a volta à Natureza quando, na verdade, ela é que continua a dar as cartas?
Passa-me, de repente, pela cabeça a ideia de que o imperativo de nos mantermos jovens aos 30, 40 (e por ai adiante) pode não passar de um estratagema, de um recurso da Natureza, necessário a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, ainda não cumpriram o seu papel na evolução... É uma tese demasiado determinista para quem, como eu, acredita piamente no livre-arbítrio, mas, ainda assim, não totalmente destituída de (alguma) lógica. Olho para mim, por exemplo, e enxergo-me no pleno dos meus 30's com uma série de coisas por resolver - continuo solteiro, tive de me reinventar profissionalmente e voltei a ponderar, seriamente, a hipótese de senão viver, pelo menos de passar largas temporadas num outro país (que é assunto para um outro post) - e interrogo-me se não preciso efectivamente de me manter jovem para levar a cabo tudo aquilo que (ainda) não realizei?