20.4.08

Numa noite de chuva...


I've been looking for a savior in these dirty streets
looking for a savior beneath these dirty sheets

(
Crucify
, Tori Amos)


Não falta muito para as cinco da manhã quando o Will me deixa na esquina. Insisto que posso percorrer a pé a meia dúzia de metros que me separam da porta do prédio, apesar da noite chorar copiosamente. Gosto de chuva, mas prefiro vê-la da vidraça, já a salvo, enquanto me liberto da roupa impregnada de tabaco. Apetece-me cair na cama, mas antes atiro para o fundo da chávena um punhado da mistura perfumada que trouxe. Verto a água em ponto de fervura sobre a infusão e dela se desprende, aos poucos, o aroma a canela. Está pronto o chá. Noto agora, estou ligeiramente ressacado.

Ainda oiço, cada vez mais distante, a voz de Tori Amos interrogar-se: why do we crucify ourselves? Sei lá eu… tenho sono e não estou para pensamentos profundos a esta hora. Aninho-me no edredão em vez de me esparramar na cama que esta noite tenho só para mim. Adormeço ao som da chuva, como gosto.

O domingo amanhece indeciso. Levanto-me amarrotado. Decididamente, estou ligeiramente ressacado. Saio para comprar o jornal e decido tomar o pequeno-almoço na rua, rodeado de gente sem nome. Esta coisa de ser um rosto anónimo na grande cidade nunca me incomodou. A cidade está-me nos genes.

Curioso, porque na véspera, por umas horas, despi a máscara do anjo negro e mostrei-me apenas como um homem. Sem asas e sem a distância segura da escrita. Um salto sem rede calculado, ainda que não seja fácil chegarmos fashionably late – com diria o sacana arrogante, mas bom todos os dias, Brian de Queer as Folk – a um jantar com 30 e poucos bloggers e não bloggers (não os contei…). Sobretudo quando todos os olhos se viram na nossa direcção e nós apenas reconhecemos um ou dois rostos, no máximo, e isto porque os vimos antes em fotos. Felizmente tinha o Will como fiel escudeiro – aliás, e porque nunca é evidente quebrar o gelo com tanta gente em tão pouco tempo, foi ele, mais do que todos os outros, que fiquei a conhecer ainda melhor. Mas gostei, por exemplo, de confirmar que o Pinguim é exactamente aquilo que dá a ver no seu blogue; que o Papagueno, afinal, também é o Special K; que o Teddy Bear e o Little Teddy Bear estão focados um no outro mas não excluem os demais; que citar Clarice Lispector, mais do que oportuno, foi um acto de generosidade do Paulo e do Zé; que a Keratina soube encarar com galhardia o facto de ser a única mulher entre muitos homens madrugada fora; ou ainda que o Luís Galego, hábil na arte de lançar o enigma como ardil, daria ele também um bom objecto de análise.

E mais haveria, por certo, a comentar, mas eu, que gosto sempre mais de observar do que ser observado, resolvi que me apetecia, mais do que tudo, dançar e beber. E foi isso que fiz até decidirmos, eu e o Will, que estava na hora de bater em retirada. Ainda não chovia.

14.4.08

A carne

Sequência do filme Women in Love, com Alan Bates e Oliver Reed


Everybody's looking for something
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you
Some of them want to be abused

(Sweet Dreams, Eurythmics em versão Remix)


A última vez que olhei para o relógio passava das três. Procuro-o em vão, mais abaixo, na pista. Quem desejei e não me quis está agora diluído na massa de corpos em transe, onde só distingo braços num hula-hula frenético - como se a deusa Kali, mas com muitos mais braços, dançasse a alta voltagem. Os meus poros, incapazes de suster por mais tempo a torrente, abriram as comportas. A camisa cola-se-me como uma segunda pele. O mesmo acontece com os jeans. Com as pontas dos dedos amparo o suor que escorre em catadupas pela testa e empapa os cabelos. Antes mesmo de levar o gin tónico à boca, encosto o copo fosforescente ao rosto, na esperança que o gelo, além de dormência, me traga alívio. Recosto-me no balcão. Afino a mira e varro toda a sala até achar o alvo. Está encostado a uma coluna, também de copo na mão, e não se esquiva quando se percebe debaixo de fogo. A mesma altura, o mesmo tipo físico. Até as roupas que usamos são idênticas. A semelhança não me constrange. Antes me atiça a ir até ao fim. De um só gole termino o que comecei. Em momento algum o perco de vista. Ele não se move. Serei eu a avançar. Caminho sem pressa, indiferente a quem se atravessa pelo meio. Não paro. Passo rente, como se o meu foco fosse outro, contorno a coluna e, sorrateiro, ataco-o pelas costas. Sussurro-lhe apenas três palavras ao ouvido e largo-o onde o encontrei. Não espreito uma única vez para trás, mas confio no meu ardil. Conheço os cantos à casa e sei que, àquela hora, a casa de banho reservada aos funcionários, no andar acima, estará a salvo da confusão. Abro alas por entre os que se prostraram nos degraus à conversa. Quando atinjo o topo das escadas, ouço passos no meu encalço. Entro na primeira porta à esquerda do corredor vazio. Atraso-me de propósito para garantir que ele me vê entrar. Às apalpadelas encontro o interruptor da luz. Fecho-me lá dentro. Não é muito grande, sobretudo porque a utilizam também como depósito, mas serve os meus intentos. Não tenciono demorar-me, de toda a forma. Sem perder mais tempo, abro a torneira do lavatório e recebo a água fria, primeiro nas mãos em concha, logo depois directamente no pescoço e no rosto em brasa. Quando me olho no espelho baço, já ele está pespegado na soleira da porta. Não me viro imediatamente e ele fica a observar-me enquanto enxaguo as mãos. Passo o trinco na porta sem que ele se desvie um milímetro. Quase de imediato, lança as mãos ao meu pescoço para me beijar. Travo a investida. Tenho outros planos. Sôfrego, ele volta à carga, e mais uma vez eu recuo. Isso deixa-o momentaneamente atordoado, pelo que aproveito o momento de fraqueza para o encurralar num canto. Mal se apercebe da volta-face inesperada, começa a debater-se na armadilha, mas estou em vantagem e abocanho a sua jugular de supetão. Uso a boca como uma ventosa, sem me preocupar em deixar marcas da minha passagem. A rendição é-me anunciada sem palavras, quando a resistência amaina e dá lugar a espasmos. Dos seus lábios entreabertos soltam-se os primeiros gemidos, abafados, entrecortados por uma respiração arfante. Com uma das mãos asseguro-me que não se solta, mas a outra está livre para, debaixo da camisa desfraldada, avançar às cegas. Ensaio piruetas incompletas ao redor do seu umbigo, afago e belisco, ao de leve, a pele até sentir os seus mamilos intumescidos. Detenho-me por segundos, até que ele sustém a respiração. Ficamos suspensos. Ao sinal, irrompo com a força de um madrigal, ceifo a seara alheia e tomo entre os meus dedos o seu sexo latejante. E só então permito que me beije. Cerro os olhos. Quando os abro, continuo ali; não mais com ele, mas com quem desejei e não me quis.

7.4.08

Linhas cruzadas

Quanto mais se é obcecado pelo sexo,
mais sentimentais nos tornamos;
desconfiar sim daqueles a quem o sexo não interessa.
Há qualquer coisa neles que dá medo.
(tradução livre de uma citação de Michel Houellebecq)


Subverter a ordem habitual das coisas. Gosto disto. Por isso, hoje, troquei as voltas ao (pré)estabelecido e comecei antes por uma citação, com a qual nem concordo muito, mas serve o propósito da provocação. E eu gosto de (vos) provocar. Não muito, só um pouco. As imagens vêm depois. Quanto à música, lembrei-me de uma muito bonita – eu acho – dos Clã, em que “E até nos momentos em que digo que não quero / E o que sinto por ti são coisas confusas / E até parece que estou a mentir / As palavras custam a sair / Não digo o que estou a sentir / Digo o contrario do que estou a sentir”. Estou assim, a modos que com um problema de expressão.






Estão a ver aquele momento em que o vosso cabelo está porreiro, mas amanhã, se não se puserem a pau, já desandou? Pois um destes dias acordei, olhei-me ao espelho e conclui que já estava no day after. Para remediar, fui ao meu cabeleireiro – até gostaria de lhe chamar barbeiro, que é mais viril, mas ele é mesmo cabeleireiro e, ao contrário de mim, parece nem estar ai para estereótipos -, que, para não variar, me ignorou estoicamente quando lhe pedi para não cortar tanto como da última vez, que eu até prefiro ver-me com o cabelo mais comprido e tal… Resignado à minha sorte – ainda hei-de perceber por que a maioria dos gays dá tanta importância ao cabelo, se depois muitos deles o usam muito curto, quase rapado… -, e enquanto sua eminência das tesouras dava os últimos retoques à freguesa do lado, distraí-me a folhear umas revistas de moda – é impressão minha ou boa parte dos modelos masculinos das grandes campanhas internacionais parece que acabou de sair dos cueiros? Tudo bem, nada contra um padrão de beleza mais andrógino, mas também não precisam de exagerar no quesito baby face, né? Felizmente, ainda há quem aposte num meio-termo apetitoso, como é o caso do manequim de Giorgio Armani (acima) que, mesmo com uma camisa aos favos, consegue ter ar de macho. Benzódeus-tão-perfeitinho (um assim é que eu precisava para levar a Mykonos…). Adiante.

Ficam desde já a saber: os calções querem-se muito curtos e esqueçam lá isso de andar com as cuecas à mostra. Passou. Está out.

L. mandou-me uma mensagem, há dias – semanas? -, a desafiar-me para irmos juntos a um jantar de bloggers que o Pinguim está a organizar. Um jantar de bloggers gays, que fique entendido (a posteriori, o Pinguim fez questão de esclarecer que não é um jantar de "bloguistas gays", talvez de maioria gay, mas não só gay, pelo que fica feita a correcção). Tenho perfeita consciência de que é apenas um ponto de partida e que ninguém ali - já falam em cerca de 50! - vai querer fazer disso o seu cartão de visita. É já no dia 19. Ainda não sei se poderei ir.





Tony Ward (vejam bem, está mesmo aqui por cima). Aposto que, pelo nome, também não chegam lá… Aquela barba impediu-me de o reconhecer à primeira, mas quando olho com um pouco mais de atenção não demoro muito a reconhecer as feições do rapaz que, há uns anos valentes, causou alvoroço no videoclip Justify My Love, de Madonna. Tirava-lhe a barba, mas o resto está de boa saúde e recomenda-se, como podem ver pela foto.





Na mesma revista, a edição francesa da Vogue Hommes International, num número especial dedicado ao erotismo, detenho-me na produção dedicado ao fétichismo, que faz capa também. É um universo distante do meu, mas a que ainda assim não sou totalmente indiferente. Acho que ninguém o é. Não sei bem porquê, a minha primeira reacção é imaginar-me a entrar, seguido pelo tipo das fotos (acima), no Hôtel Costes, em Paris… Quase consigo ver as caras de espanto, a fingirem um ar blasé – afinal quem frequenta o Costes não dá parte de fraco nem abre a boca de espanto -, à nossa passagem enquanto nos dirigimos ao elevador. Sim, admito, há um lado meu obscuro – reprimido, será? - que não se importaria nada de encostar à parede um bad boy destes, subvertendo por completo as regras do jogo. Couro preto, tatuagens, correntes, uma mansarda parisiense com veludos encarnados e reposteiros pesados. Combina tudo na perfeição. Na minha cabeça, pelo menos.

Aflige-me de certa forma a ideia de deixar um livro a meio, sem terminar de o ler para ver como a história acaba… Há meses que ando para trás e para a frente com um livro desses, está encalhado, eu sei, mas ainda assim não arranjei coragem para o despachar de vez. Comecei por o deixar à vista em cima de uma mesa, numa pilha, mas, a cada dia que passa está mais soterrado por papéis e outras coisas que chegaram depois. Já quase não vejo, mas sei que ele está ali. É chegada à hora de o colocar na prateleira, de onde, muito dificilmente, voltará a sair – quem não percebeu nada da conversa: não, não estou mesmo a falar de livros.

Apetece-me dizer a um certo alguém: não me digas aquilo que julgas que eu quero ouvir – sobretudo quando o que pensas que eu quero ouvir é o mesmo que dizes a todos os outros. Mostra-te antes como és e aí sim, eu vou começar a prestar atenção e a levar-te a sério.

3.4.08

A profecia

Alusão à cena bíblica em que Jacob luta com o Anjo, tema também de uma obra de José Régio que vale a pena conhecer.


Calling all angels
I need you near to the ground
I miss you dearly
Can you hear me on your cloud?
All of my life
I've been waiting for someone to love
All of my life
I've been waiting for something to love

(Calling All Angels, Lenny Kravitz)


Volto zonzo de mais uma viagem, com a sensação de estar esvaziado por dentro. Talvez a culpa não seja de quem me acompanha. Mea culpa, por não ter ao meu lado quem eu quero e preciso nas horas em que as camas de hotel se tornam demasiado pesadas. Ao regressar a casa, atiro-me ao que resta dos chocolates da Páscoa e no DVD coloco directo a série completa de Angels in America ― pergunto-me como foi possível ter passado todo este tempo ao lado de uma obra-prima como esta! Ainda para mais realizada por um dos meus realizadores de eleição, o Mike Nichols (de filmes como Closer, que adoro também!), e com actuações fabulosas de consagrados como Al Pacino e Merly Streep e revelações como Jeffrey Wright e Mary-Louise Parker.

Na sequência em simultâneo em que Louis abandona cobardemente o seu namorado, Prior, às portas da morte no hospital e em que um muito torturado Joe revela finalmente à mulher, Harper, que é homossexual, fico por uns segundos no limiar.

Recomponho-me.

Que bela escolha, estão a pensar alguns de vocês por esta altura, para alguém que estava na mó de baixo… Pois é, acontece que eu nunca tive medo de densidade emocional nem de bons argumentos, o que me assusta mesmo são as histórias de que deserto a meio porque deixo de querer saber como acabam, os orgasmos frouxos, os beijos que não me fazem perder a vigília e as pessoas que supostamente se apaixonam por mim não por aquilo que eu sou e lhes tenho para dar mas por aquilo que elas queriam que eu fosse no seu mundinho perfeito do faz-de-conta.

Porra, crucifiquem-me em praça pública, amarrem-me na lanterna dos inaptos para amar, por não querer ― ainda, não sei se um dia ― a casa, as cuecas misturadas no varal, o almoço de domingo, o amor sereno ou a mão dada no supermercado…

Eu quero e preciso é de perder o chão, do nó na barriga, da vertigem, do orgasmo que me faz quase perder os sentidos, do beijo que me deixa com vontade de mais e da inquietação de querer virar a próxima página para descobrir o que vem depois. Não me façam ultimatos. Obriguem-me antes a sair do pedestal e tornem-me vulnerável. E eu juro que vou. Nem que seja para ficar na cama ao lado a velar pelo teu sono.

1.4.08

Retrato-robô


The teenage queen,
the loaded gun;
The drop dead dream,
the Chosen One
A southern drawl, a world unseen;
A city wall and a trampoline
(
Read My Mind, The Killers)


Há dias, ao abrir a caixa de correio electrónico associado a este blogue, deparei-me com uma missiva de remetente misterioso que dizia apenas isto, depois do seguinte cabeçalho "We're off to see the wizard, the wizard of Oz":

“Só para deixar um comentário de apreciação pelo bom gosto musical, pelas palavras, suaves, pensadas e ecléticas; por apenas”

Os mais cépticos – entre os quais eu cerro, não raras vezes, fileiras – dirão não se tratar de um procedimento inteiramente inocente e que há nele uma intenção disfarçada de aguçar primeiro a minha vaidade, depois a minha curiosidade. Talvez seja. Mas resolvi não o entender assim.

Em meados de Março fez um ano que, aos vários desdobramentos da minha personalidade – porque eu sempre acreditei que podemos ser vários sem deixarmos de ser um só - , resolvi dar voz ao Oz - não se assustem, não sofro do síndroma de Napoleão e no dia em que começar a falar do Oz na terceira pessoa do singular, como se de uma entidade separada se tratasse, podem meter-me na camisa de forças. O Oz sou eu, sempre fui, mas sou eu em partes. Nas partes em que me predisponho a reflectir sobre a minha sexualidade e tudo que a ela diz, directa ou indirectamente, respeito.

É claro que, muitas vezes, ao longo deste último ano, me interroguei sobre a imagem que estava a construir aos olhos dos que me lêem sem ter acesso a mais nada da minha vida que os ajude a preencher os contornos do retrato-robô... Como me imaginam? Que leituras fazem nas entrelinhas? Que tipo de sentimentos desperto?

Não foi algo que premeditei ou que tão pouco estimulei, mas, sem nunca abdicar de me resguardar – mas também sem fazer disso um segredo de estado ou uma esquizofrenia -, aos poucos tenho cedido à curiosidade – natural, eu acho -de querer descobrir mais sobre determinadas pessoas que se escondem, tal como eu, atrás de um alter-ego; da mesma forma, tenho vindo a permitir que algumas dessas pessoas descubram também um pouco mais do que sou para lá do que apenas cabe aqui, entre estes quatro cantos de um ecrã.

Dos que frequentam, ou frequentaram, os meus blogues, apenas duas pessoas me conhecem pessoalmente; existem ainda mais quatro ou cinco, que eu me lembre assim de repente, que eu tenho a certeza de que virei, inevitavelmente, a conhecer, pois há muito que deixaram de ser só palavras para passarem a ter também um nome, um rosto e um contexto que ajudaram a fazer deles mais do que simples esboços na minha vida. Há ainda outros, não muitos, com quem mantenho, de forma mais ou menos esporádica, algum contacto extra blogue, mas sem qualquer intuito, de parte a parte, de ir para além do circunstancial. Por isso, e para a grande maioria, eu vou permanecer o que sou e o que projecto através do que revelo aqui e só aqui. Sem rosto. Nem gordo, nem magro. Nem alto, nem baixo. Nem moreno, nem louro. Nem branco, preto ou vermelho.

Porque acredito, de verdade, que a maioria não precise, nem queira, ver de mim mais do que eu mostro aqui. Para esses, aliás, estou em crer, o meu encanto, a ter algum, está precisamente no que lhes permito imaginar sem nunca lhes contrapor a realidade. E lembrei-me agora do que me escreveu um dos meus mais novos amigos – um dos poucos que não tem alter ego na blogosfera, nem precisa - um dia destes:

“Gosto da maneira que você escreve, há certa sensualidade entre as palavras que me seduzem. Isso me deixa curioso, fico a pensar: “É intencional ou natural? Como ele consegue?”. Por favor, não responda, não gosto de estraga-prazeres.”

Fiz-lhe a vontade e não respondi. Até mesmo porque não saberia o que lhe responder. Do mesmo modo que não fui tratar de saber quem me enviou a missiva. Ainda não.

24.3.08

A pele de cordeiro


Here comes Johnny Yen again
With the liquor and drugs
And a flesh machine
He's gonna do another strip tease

(
Lust for Life
, Iggy Pop)


Não sou propriamente do contra, mas desde criança que o meu pai me avaliou e apontou um desvio de carácter perturbante: eu faço a linha anti-herói. Quer isto dizer que eu muito raramente me comovo, na ficção como na realidade, com o herói que, de tão bonzinho e bem-intencionado, me provoca bocejos. Chamem-me descrente, quiçá insensível, mas gente muito boazinha nunca me convenceu; antes me deixa com os nervos em franja e de pé atrás.

É mais forte do que eu. Gosto de pequenos defeitos. Gosto de imperfeições. E gosto de quem assume as suas fraquezas sem lamechices. Talvez por isso o meu coração sempre bata mais forte por todo o sem-vergonha que pode até se esquecer de ajudar a velhinha a atravessar a rua, que não poupa nada nem ninguém às suas tiradas secas e cínicas ou que se está a lixar para ganhar o céu em vida, mas ainda assim, quando ninguém está a ver, é capaz de tirar a camisa para a dar alguém em apuros.

Não confundam as coisas. A minha predilecção por bad boys nada tem a ver com ser amoral ou totalmente desprovido de ética e decência. Tal como não tem a ver com o tipo canalha-pé-de-chinelo. Eu sou mais o irresistível patife, bon vivant de sorriso matreiro, que gosta do que vê quando se olha ao espelho e não sente remorsos em desfrutar do bom e do melhor. Sempre em grande estilo. De preferência metido num bom fato (terno) italiano.

Agora vem a parte pior. De pouco me adianta esta identificação. De nada me serve colocar ali, no canto superior esquerdo do blogue, a imagem de um anjo negro. Como arremesso de bad boy eu deixo muito a desejar e ninguém me leva sério por mais que eu bata o tacão da minha bota-mata-baratas e afine a mira do meu olhar-calibre-33. Quase me resignei à minha triste sina de bom rapaz, no melhor estilo o neto-que-toda-a-avó-gostaria-de-ter ou o genro-que-toda-a-sogra-pediu-a-Deus. Fazer o quê? A sentença saiu e vaticinou que eu faço o género para-casar; logo eu que queria antes ser o motel e não a casa com cerca branca e jardim.

É o descrédito total – podem rir, eu mesmo estou a gargalhar!

Aliás, por este caminho, e se ainda se espalha que eu gosto de flores, de animais e de criancinhas, não tardará muito a ter alguém a pedir-me para ser o pai do seu bebé – o que me vale é que não tenho amigas assim tão modernas e/ou desesperadas. Nem distraídas, pois, convenhamos, a avaliar o que gasto em roupas e outras futilidades que tais, não sou exactamente um poupa-níqueis-para-mais-tarde-garantir-o-futuro-do-fedelho de fiar (ops, shame on me!).

Mas já que da fama de bom rapaz não me livro, resta-me esperar que, tal como os homens preferem as louras mas escolhem as morenas para casar, os outros homens se queiram apenas divertir com os bad boys. É que os ditos bons rapazes c0mo eu podem até nunca conseguir, por muito que ensaiem poses e trejeitos, cultivar o mistério, o gingado ou o olhar-atravessa-paredes do bad boy, mas, em compensação, ao mostrarem maior disponibilidade para enxergar para lá do próprio umbigo, e se forem suficientemente espertos, depressa ficam com um trunfo escondido na manga: saciada a primeira vontade, o que sustém a tesão – e tudo o que se lhe segue – não é a imprevisibilidade, mas precisamente saber de antemão com o que se conta na hora H.

20.3.08

A miragem

Campanha de swimwear da marca australiana AussieBum


So with tomorrow I will borrow
Another moment of joy and sorrow
And another dream and
Another with tomorrow

(With Tomorrow, This Mortal Coil)


Da mesma forma que acordamos a meio da noite, varados de fome, dispostos a atacar o frigorífico (geladeira), senti um desejo repentino de voltar a ouvir This Mortal Coil. E tinha de ser já. Nem pensar em perder tempo a procurar antigas gravações desta banda no meio da minha tralha pré-era-digital. A dispensa do Utube está ai mesmo para isso e, como todo o bom
delivery, funciona 24 horas sobre 24 horas. Arrombei as portas e na jukebox pus a tocar uma velha preciosidade (está ai acima, para quem estiver interessado). Música boa para dor de corno e de cotovelo, dirão alguns. Nem por isso, riposto eu, mas se tivesse ali à mão uma garrafa de vodka bem gelado, confesso, ter-me-ia passado pela cabeça baixar as luzes, tirar os sapatos, jogar umas almofadas no chão e deitar o gargalho à boca. Só pelo prazer de beber sozinho. Em vez disso, acessei a minha caixa de correio electrónico. Ideia peregrina aquela hora tardia, mas, fazer o quê, o tédio tomava conta de mim. Vários convites. A maior parte deles para jogar no lixo sem sequer me dar ao trabalho de os abrir. Mas aquele prometia. O endereço era-me familiar. Abro, leio e nem quero acreditar. Leio uma segunda vez – e olhem que nem cheguei a beber. Até finais de Maio só tenho de escolher as datas em que quero desfrutar de três noites, com tudo praticamente pago, num dos melhores e mais novos hotéis de Mykonos!!! A vida prega-nos cada peça. Há uns largos meses, ainda no Metamorfose de Oz, eu dediquei um post a esta ilha-grega-doida-de-pedra [(re)ler aqui], no qual manifestava, precisamente, o meu desejo de ali voltar... Éden pluri-multi-pansexual, Mykonos, já dizia eu então, esteve na moda, deixou de estar e voltou a estar. E reergueu-se das cinzas com tudo – inclusive lugares lindos e cheios de mordomias como o hotel em causa. Põe-se agora a questão: o convite dá direito a acompanhante. Faço um leilão entre possíveis candidatos, com direito a provas físicas e interrogatórios rigorosíssimos, ou pego na mala, nos meus óculos escuros, nos meus AussieBums e vou sozinho-e-seja-o-que-Deus-quiser?


Mais AussieBum, desta vez com os meus votos de uma Páscoa Feliz (para quem gosta de ovos e coelhos, é claro!)


18.3.08

Some like it hot, outros não








It takes courage to enjoy it
the hardcore and the gentle
big time sensuality

(
Big Time Sensuality, Björk)


Sempre que virem um homem podre de bom a tirar a camisa num comercial e a fazer olhinhos de cama à câmara, podem estar certos que, 8 em cada 10 casos (e já estou a dar de barato…), há ali um queer eye matreiro e perverso a orquestrar tudo nos bastidores, oh se há. A receita é mais velha do que a Sé de Braga – e a Sé de Braga é antiga como o caraças -, mas ainda tem muito para bater, pois quem gosta de rapazes – sim, parece que as mulheres também não desgostam… - sempre se pelou e vai continuar a se pelar por uns belos peitorais ao léu – há maus hábitos que não mudam com o tempo, tendo em conta que muitos imperadores romanos, antes de Cristo descer à Terra, já suavam frio com os abdominais dos centuriões.

Antes de escarnecerem da minha bem sustentada lógica, experimentem só olhar com atenção para o mais recente anúncio do perfume The One for Men (ver aqui), estrelado pelo calmeirão Matthew McConaughey – nem sou grande fã de um tipo que faz gala em não usar desodorizante há mais de 20 anos (!), mas só o facto de o gajo ter trinta e quase todos e ainda ficar bem na fita, já é motivo para todos os trintões, eu incluído, lhe ficarmos gratos -, e digam lá se não tenho razão.

De uma assentada só, o duo Dolce & Gabbana piscou o olho às mulheres e aos gays, ou não fossem estes os alvos preferenciais quando se trata de vender um perfume masculino. E de que gostam as mulheres e os gays? De homens que lhes encham as medidas, pois então. Foi essa mesma lógica que levou à escolha certeira do modelo britânico David Gandy, mas capaz de meter no chinelo muito latin lover legítimo, para dar corpo – literalmente falando – à fragrância masculina mais estival da marca, o Light Blue.

Curiosamente, se as campanhas publicitárias de Dolce & Gabbana não me passam ao lado, o mesmo já não posso dizer dos seus perfumes. Sei lá, deve ser uma coisa de pele. Agora não dispenso um bom perfume – e escusam de me vir com aquela lenga-lenga da treta de que o cheiro natural de cada um é mais do que suficiente…

Gosto de perfumes e não se fala mais nisto. E não é de hoje. Comecei a usá-los ainda adolescente imberbe e sem ter muita noção do seu poder. Sim, porque umas gotas do perfume certo no momento certo – tal como uma peça de roupa, nem todos os perfumes nos assentam bem, há que testar primeiro a sua química com a nossa pele, da mesma forma que o mesmo perfume não vai bem em todas as ocasiões – não garantem o milagre, mas podem apressar a revelação.

Há quem seja fiel ao mesmo perfume a vida toda. Não eu. Até há aqueles a que, mais tarde ou mais cedo, eu volto sempre – como é o caso do Egöiste, pela Chanel, um perfume poderoso que vai muito bem com uma camisa preta -, mas preciso sentir que sou livre para experimentar coisas novas – ainda me lembro da primeira vez que usei um perfume da Carolina Herrera; não descansei enquanto não descobri o seu nome depois de me ter inebriado com ele em pescoço alheio (o pescoço per si, e o dono do pescoço, era-me indiferente, eu queria mesmo era a senha para a gruta de Ali Babá). Agora estou a usar Prada de dia e Narciso Rodriguez à noite. Mas se tivesse de escolher um perfume só pela embalagem e não pelo conteúdo, não pensaria duas vezes em deitar a mão ao parrudo do Fuel For Life by Diesel – tanto que o rapaz é repetente aqui no blogue, honra rara. Coisa fina é também o Wood dos manos canadianos da Dsquared, com direito a um homem-propaganda-com-olhos-de-cachorro-abandonado a quem dá vontade de dar casa, cama e roupa lavada.

Agrada-me a ideia de tomar banho e, ainda de pele húmida, borrifar a nuca ao de leve e deixar escorrer um fio pela linha do umbigo antes de me vestir. Gosto que o meu perfume me anuncie sorrateiramente – nada pior do que alguém que exagera na dose – ainda antes de eu chegar perto. Como gosto também que ele perdure como uma memória olfactiva, quando já me fui, entranhado na fronha de uma almofada ou emaranhado nas mangas de uma camisa por onde me demorei.

14.3.08

Entre gajos



Went to school and I was very nervous
No one knew me
No one knew me

Hello teacher tell me what’s my lesson

Look right through me

Look right through me

And I find it kind of funny

I find it kind of sad
(Mad World, Gary Jules)




Viagens de trabalho são fodidas – e olhem que as minhas vêm acompanhadas de uma série de brindes, entre os quais dormir em hotéis cinco estrelas, comer nos melhores restaurantes e ter acesso a lugares e a pessoas que, de outra forma, me seria muito difícil, para não dizer impossível.
Mas, ainda assim, são fodidas as viagens de trabalho. Nem tanto porque deixo de ter domingos ou dias santos; nem tão pouco porque sou obrigado a pular mais cedo da cama do que o habitual - God knows como eu gosto de acordar cedo! -; nem sequer porque me vejo forçado a ouvir coisas que não me interessam e/ou a ver coisas que não me dizem nada. Tudo isso faz parte do pacote.

O que me deixa meio assim, cada vez mais, é o facto de elas me colocarem perante um facto consumado: o de que, por uma série de dias ou até semanas – e a minha paciência tende a diminuir na mesma proporção que o número de dias aumenta... –, vou ser obrigado a privar intimamente com os meus colegas. Não me entendam mal. Ao longo da vida já tive vários colegas que se tornaram óptimos amigos, mas, regra geral, não faço disso uma prática corrente e gosto de separar as águas.

O que fazer então quando as ditas das viagens nos colocam não só mais na mesma sala por várias horas, mas também, com um pouco de azar, no mesmo quarto, no mesmo carro, na mesma mesa e, pior, no mesmo bar ou boate a emborcar copos para relaxar por dias a fio? Sei que para muitos a ideia de ir para a farra com os colegas até pode soar a um bom programa – e nem digo que não seja, dependendo do que se bebe, onde se bebe e com quem se bebe -, mas o álcool traz consigo um pequeno detalhe: solta as línguas e estimula a troca de confidências. Revelações sem as quais nós sempre vivemos bem – aliás, sou mesmo da opinião que há coisas pessoais sobre os nossos colegas que nunca, em hipótese alguma, deveríamos saber! E é então que, fora de casa, largados no mundo, sem contas a prestar, começam as coisas de gajos. E os gajos querem o quê? Gajas, pois claro. E quantos mais forem os gajos no grupo, pior será, já que, é sabido, gajo que é gajo não gosta de dar parte de fraco à frente de outros machos.

Até hoje – orgulho-me disso – tenho conseguido gerir bem esses pepinos e muito raramente me lembro de ter cedido à pressão de sentir que tinha de provar fosse o que fosse aos outros machos da espécie. Não o fiz quando vivia como hetero; não o faço agora, por muito que não me apeteça especulações acerca de quem levo ou deixo de levar para a cama.
Estou consciente que, ao longo destes últimos anos, já terei levantado suspeitas em alguns dos meus colegas, mas sou discreto e ambíguo o suficiente para que ninguém possa ter certezas. Logo, na dúvida, sou mais um. Mais um que tem de ouvir – e ainda achar graça! – a piadinha rasteira lançada à empregada de mesa, de fingir solidariedade com uma classe que se diz ameaçada por um cada vez maior número de maricas assumidos - e esboçar um riso amarelo quando alguém se apressa logo a acrescentar o remoque da praxe: “por mim tudo bem, é da maneira que sobram mais mulheres para nós”! -, de gramar a tipa que, entretanto, se juntou a nós e graceja com o facto de ser o “homem” da sua loja – como se ser gay fosse necessariamente sinónimo de incapacidade para cumprir “tarefas masculinas” como trocar um fusível ou contratar um empreiteiro -, ou ainda de me conter para não lançar uma bojarda quando uma outra gaja se queixa da “tremenda” injustiça que é o facto de homens muito bonitos serem paneleiros…

Posto isto, devo dizer que não vivo, regra geral, num meio hostil aos gays. É mais aquela coisa – que pode também ser muito irritante e tão ou mais ofensiva, por ser encapotada – do famigerado politicamente correcto. O típico “ até tenho amigos pretos” de outrora deu lugar, parece-me, ao pouco convicto “não tenho nada contra os gays” de agora. Isso, desde que, claro está, os maricas não dêem muito nas vistas e se comportem como gente “normal”.

E tem sido assim que eu, que nunca sonhei em ter a minha vida limitada a uma Liberty Avenue (referência a Queer as Folk) – porque não gosto de guetos – e não frequento as Babylons da vida airada (nova referência a Queer as Folk) – porque prefiro a pluralidade de opções e de possibilidades (e ainda tenho um medo danado de boate gay, essa é a grande verdade que não cala! Hahahahahah) -, tenho compreendido melhor os gays que optam por socializar apenas em ambientes gay friendly. Não me estou a ver a fazê-lo – porque, repito, gosto muito de me dar com todo o tipo de pessoas -, mas percebo. É realmente uma violência grande essa a de termos de fingir ser uma coisa que não somos. Fingir gostar de algo que até gostamos, mas não da mesma forma nem para o mesmo fim.

Será talvez o preço justo a pagar por viver com um pé lá e outro cá. Mas já me custou menos. Bem menos.


11.3.08

Telegrama

Avenida Afonso Pena, Beagá, Minas Gerais


Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria...

(
Telegrama, Zeca Baleiro)


Troco as voltas ao relógio e aterro directo no boteco da esquina. Beagá mata a sede, lava a alma e afina a mira no Maria de Lourdes. Duas garotas sentam-se à minha mesa. Uma delas, cruza o tchê gaúcho com o uai mineiro, matiz de escocês com chinesa. Linda de morrer (vontade de levar para casa). Saio arrastado para um qualquer forró da Zona Sul, onde me encharco numa bebida açucarada de má memória, mas é no MP5, para os lados do Raja, que me acabo a dançar, movido a vodka e energético. Ele, ligeiramente mais alto do que eu, de bermudas e camisa amarrada na cintura, é o dono da pista (vontade de pegar ali mesmo). O financier, bolinho de amêndoa, do Graciliano derrete-se na boca, misturado com o café forte e ardido. O pastel de banana na Marília de Dirceu, com os seus ares de Jardins paulistanos, polvilha-me o céu da boca. Árvores, muitas árvores no asfalto que abre frestas como uma erva daninha. No Favorita, entre azulejos hidráulicos e filete de raia no ponto, ele, o chef de olhos azuis e cabelo revolto, lança o isco mas eu deixo o anzol meio solto (um dia, quem sabe). Na outra esquina, no Dádiva, vazo quase uma garrafa de vinho sozinho apesar de estar acompanhado (mas não por quem eu gostaria). O encontro de diferentes estilos e linguagens na Praça da Liberdade. O trânsito que avança aos solavancos. Os arranha-céus da Afonso Pena ao cair da noite. As casas dos ricos encurralados de Mangabeiras. O garoto deliciosamente imberbe que me guia pelos corredores do Palácio das Artes (vontade de levar para casa). Descobrir Gringo Cardia, o homem dos sete ofícios que colocou Mariza Orth em pêlo a cavalo num ensaio da Playboy. O tipo da Ellus que só me falta dar o número de telefone. A garota da Blue Man que me dá o telefone sem eu lhe pedir. O taxista que me previne “se não come, é viado”. A vertigem das cores e dos cheiros no Mercado Central. O doce de leite de Viçosa que adio para mais tarde. A Savassi, onde há sobremesas de Portugal e livrarias, como a da Travessa, onde não apetece ter pressa, e a rua Fernandes Tourinho, onde abraço Ronaldo Fraga e me lambuzo com um menu natureba no Mandala. Teimar em ir ao Graças a Deus quando deveria antes ir ao Josefine Club. As cervejas esvaziadas em Santa Tereza e na Serra. A ressaca de uma noite mal dormida. O almoço farto de sábado no Xapuri, depois de visitar o cachorro que Portinari pintou na igreja que Niemeyer criou na Pampulha como ensaio para Brasília.
As esquinas de Beagá, verdadeiros triângulos onde só se perde quem quer. Ou quem tem coragem.