26.5.08

A ervilha


In cards and flowers on your window,
Your friends all plead for you to stay.
Sometimes beginnings aren't so simple.
Sometimes goodbye's the only way.

(Shadow of the Day, Linkin Park)


Momento flashback: antestreia do filme Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Enquanto P. vai ao carro buscar os óculos de que se esqueceu, eu e F. tomamos vez na fila que se junta à porta da sala, pois não há lugares marcados. F., a grande responsável por eu ter voltado à vida boémia, põe-me a par das últimas. Não faço por mal, até porque se há alguém que gosto de ouvir é ela, mas a minha atenção é desviada para outro lado. À nossa frente, três amigos destoam do resto. Não que façam por isso ― são até bastante discretos, quer na postura, quer na indumentária ―, mas o meu radar deu sinal de alerta. E o que pode ter sido imperceptível para os demais, para mim foi suficientemente esclarecedor. Quando dou por mim, já estou a fazer uma coisa que detesto se for eu o visado: comecei a medi-los de alto a baixo. Acho até que um deles, o mais interessante por sinal, se apercebeu a dada altura. Disfarço. Para mais, não era a hora, tão pouco o local adequado. Termina o momento flashback.

Sábado à tarde. F. manda-me uma mensagem a perguntar se quero jantar com ela e o seu amigo A., que está de passagem por Lisboa. Insiste há dias para que eu conheça A., mas pelas estórias que me conta, sem esconder o entusiasmo e a admiração, eu tenho ficado de pé atrás… Não me agrada também que seja sempre ele a querer definir os horários e o lugar de encontro. Prefiro por isso deixá-los ir jantar primeiro e juntar-me a eles mais tarde.

Abrir parêntesis
A. foi namorado de F. quando andavam na universidade, mas conhecem-se desde que eram adolescentes e viviam os dois no Guarujá, litoral de São Paulo. Agora F. mudou-se para Lisboa e A. vive em Londres.
Fechar parêntesis

Chego ao restaurante já perto da meia-noite, acabaram as sobremesas, mas ainda decidem com que bebida vão encerrar o repasto. F., noto mal puxo uma cadeira para me sentar ao seu lado, está meio que perdida na mesa, onde, além de A., estão ainda mais três homens. Nenhum deles, para além de A., fala português. Bem sei que o inglês, apesar de todos os cursos que fez, não é o ponto forte de F., mas não me cheira que seja isso a incomodá-la. Reparo melhor no grupo. A., como imaginava, é o centro da mesa, só que não se comporta como o mulherengo “pintado” por F. Aliás, bastam-me uns minutos ali para perceber que F, apesar de já devidamente informada por amigos comuns do facto ― como me viria a confidenciar mais tarde ―, não estava era preparada para ver o seu ex-namorado, o mesmo que se lhe declarava timidamente desde os 15 anos, aos beijos com o seu namorado francês e cheio de trejeitos dengosos para com os restantes amigos. A., justiça lhe seja feita, além de bonito e elegante, é o tipo que só passa por gay quando assim o entende. Já os seus amigos e namorado são aquilo que podemos chamar de estereótipo: bonitos, jovens (um deles nem tanto, pois desconfio que beira os 50, mas em plena forma), bem sucedidos na indústria da moda e sem pudor de usar roupa totalmente justa aos corpos enxutos. Tiro-lhes o chapéu por não se preocuparem sequer em manter as aparências num dos restaurantes mais caros e chiques de Lisboa, mas sei também que muita daquela confiança em querer fazer com que o mundo os engula, além de deliberada, é fruto de um elixir poderoso chamado dinheiro. Acho graça também quando, num momento em F. se retira da mesa, A. começa a beijar o namorado ― para gáudio dos dois amigos ― para testar a minha reacção.

Vou com F. para o Bairro [Alto]. A. e os amigos ficam de nos encontrar lá. Claro que A. faz questão de sugerir o bar… Frequento o Bairro há mais de 15 anos, mas ainda assim continuo a perder-me nas suas vielas, já A., claro, chega tarde, mas não dá mostras de ter errado o caminho. Mal chega, pede uma rodada de caipirinhas para todos e, à parte, encomenda, suspeito, haxixe para ele e para o resto da pandilha. Quando os deixamos, já o bar é deles, mas, uma vez mais, eu e F. saímos à frente. P. espera-nos para irmos juntos até ao Lux.

A. e companhia ― juntaram-se, entretanto, mais dois gays ao grupo ― chegam já nós vamos no fim do primeiro copo. Foi parado no caminho pela polícia, mas, como sacana sortudo que é, “apenas” acusou 48 mg de álcool no sangue contra os 49 permitidos por lei! Apesar de o Lux ser, cada vez mais, gay friendly, o nosso grupo começa, aos poucos, a atrair alguns “satélites”, que ficam na órbita a ver onde param as modas. Pelo canto do olho, observo, entre o divertido e o desconcertado, que, à excepção de P. e F., somos todos praticamente da mesma altura, o que só serve para acentuar a ideia de “farinha do mesmo saco”. Claro que, estando os rapazes mais ou menos entretidos uns com os outros, tinha de sobrar para mim. Estou eu a dançar muito sossegado ― o sossegado é relativo, admito, mas adiante ― quando começo a sentir a presença incómoda de um tipo quase colado a mim. Se há coisa que me deixa “P” da vida é fazerem-me isto quando estou a dançar na minha. Chego-me mais a F., que sorri divertida, mas nem mesmo assim o tipo descola… Só penso: com tanto gajo bom aqui para escolher, este caramelo logo tinha de vir tentar a sua sorte comigo!!! Com o tempo, ele lá acaba por perceber e vai pescar ao largo. Não passam nem cinco minutos e já está de conversa com um outro na pista. Quando este se vira, a sua cara não me é estranha… Puxo pela memória e nem quero acreditar na coincidência: é um dos tipos que estava no cinema! Qual ovo qual quê, o mundo é uma ervilha!

19.5.08

A febre de sábado à noite


You could be from Venus
I could be from Mars
We would be together
Lovers forever
Care for each other

(Venus, Air)


Sábado. Princípio de noite às portas do Bairro [Alto]. Corre uma aragem fria, mas a lua plena, reparo agora, está pregada como uma jóia de prata no vestido de veludo preto sem mácula. Antes de começarmos a beber, precisamos comer qualquer coisa rápida. Àquela hora, os restaurantes e tascas estão todos a abarrotar, mais a mais, não é bem isso que nos apetece; sobretudo quando, ainda há dias, matámos as saudades dos filetes de polvo do Sinal Vermelho.

Depois de uma incursão falhada a uma das capelas do costume, assentamos arraiais no Vertigo. Gosto deste café ― e da sua clarabóia de vitrais, da mesa junto à janela, a minha preferida, das velas acesas dia e noite e de poder matar a fome, sem me preocupar se o horário é próprio ou não, com comidinhas simples e saborosas. Sinto-me bem ali, mas, depois do café, decidimos mudar de poiso. Ala que se faz tarde. Voltamos a cruzar a Brasileira, mas junto à Praça do Camões atalhamos pela Atalaia. Ainda espreito o Mexido, na Rua da Trombeta, mas é cedo e está às moscas. Na esquina com a Fiéis de Deus, ancoramos junto ao balcão do Majhong, meu porto conhecido de há muitos anos, mesmo que leve décadas a passar ao largo. Abrimos as hostilidades com Morangoskas e gin tónico. A conversa anima, junta-se mais um a nós e, a dada altura, já nem prestamos mais atenção se vagam ou não lugares sentados. Permanecemos de pé, a dançar a versão mais foleira de Tainted Love e a brindar ao que a vida tem de imprevisível e fortuito. De vez em quando, desligo da conversa e deixo-me hipnotizar, momentaneamente, pelos candeeiros verdes que pendem do tecto como alforrecas (águas-vivas).

Sacamos dos telemóveis aos primeiros sinais de mensagem. Marca-se novo ponto de encontro. Uma da manhã. Desaguam aos magotes nas ruas do Bairro e deixam-se ficar ao sabor das marés, mas nós nadamos contra a corrente até atingirmos os rápidos da Calçada do Combro. Sinto-me, cada vez mais, numa noite de resgate do que já fui, ainda que nem todas as portas me sejam familiares. Mas aquela, quase em São Bento, não demoro a reconhecer. No Incógnito fui feliz, mas era outra época, outras pessoas.

Organizamos as tropas à porta. Quando entro, num primeiro impacto, estranho as cores, mas a geografia da pista, afundada mais abaixo, é-me familiar. Por esta altura já emborquei dois gin tónicos e vou a caminho do terceiro. A noite é uma criança. Aos poucos, a pista vazia ganha vida, mas quando eu e mais alguns estávamos a começar a entrar no espírito, alguém se lembra de que aquilo já deu o que tinha a dar e que se impõe nova mudança. Há um náufrago a lamentar.

Distribuídos por vários táxis, rumamos, desta feita, para as vielas manhosas do Cais do Sodré, onde as putas e os marinheiros de água doce cederam, faz tempo, a vez aos que se dizem alternativos e avessos a lugares da moda. Agora, como antes, posso até parecer uma personagem deslocada naquele cenário de opereta bufa, mas sou capaz de desfiar o meu rosário de boas lembranças em praticamente cada um daqueles antros apertados e escuros. Infelizmente, o Tóquio está a rebentar pelas costuras, ainda é cedo para ir ao Jamaica ou ao Europa, por isso, meio que a contra-gosto, vou bater com os costados no Music Box. Lá dentro prefiro o vodka com energético ao charro (baseado), enrolado às escondidas, que vai passando de mão em mão. Africa is the future - pode-se ler no telão, mas, a partir de uma certa altura, a minha tolerância para com o som afro de batida tecno está quase a zero. Felizmente, lá pelas quatro e meia da manhã não sou o único a pensar a mesma coisa. Uns ficam, outros, como eu, batem em retirada e despedem-se à francesa.

Não falta muito para as cinco da matina, mas a fila para entrar no Lux não dá mostras de abrandar. Como sabemos o que a casa gasta não desesperamos. Dois suecos patuscos metem conversa, o que ajuda ainda mais a passar o tempo. Uma vez lá dentro, passamos uma revista rápida aos três ambientes da casa, mas não perdemos tempo a ir reclamar o que é nosso a um dos balcões. Por esta altura, já perdi a conta ao que bebi, mas como o corpo continua a não acusar o toque, não vejo por que parar. A desproporção entre homens e mulheres salta à vista desarmada, com a clara predominância dos primeiros, mas ninguém parece importar-se muito. Eu muito menos.

A nossa propensão para morcegos, leva-nos a preferir o som da pista no porão. Às seis e meia, os meus pés dão o primeiro aviso de que não tardo a virar abóbora, mas continuamos a dançar ― e a beber ― até quase ao fecho. Saímos para a rua já passa das sete. Os vampiros mais batidos nestas andanças trazem postos os óculos escuros, evitando assim cegar com os primeiros, e cruéis, raios de claridade. Depressa desistimos da ideia peregrina de ir tomar o pequeno-almoço. Aterro na minha cama pouco depois das oito. Dormirei nem quatro horas seguidas. Porque hoje como ontem, por mais que os anos tenham passado e eu seja um homem feito há muito, uma noitada não é desculpa para não estar presente à mesa, com os meus pais, no almoço de domingo.

12.5.08

A imagem

Fotografia de Zsolt Szigetvàry, Hungria

Ontem, domingo, aproveitei a tarde para cumprir um ritual que, na medida do possível, tento preservar ano após ano: fui ver a exposição da World Press, que distingue as fotografias mais marcantes, a nível mundial, em diversas categorias. Poderia falar de muitas delas, mas esta aqui marcou-me por razões que, acho, dispensam maiores explicações da minha parte; acrescento apenas um breve enquadramento para quem ainda não viu e/ou não terá oportunidade de o fazer: estes dois homens estão à espera de ser socorridos. Um deles foi atingido na cabeça por uma pedrada. O agressor, provavelmente um manifestante neonazi, fê-lo porque estes dois mesmos homens participavam na Parada de Orgulho Gay em Budapeste, que teve lugar em Julho de 2007. E eu que, ainda há um ano, me arrepiava com a ideia de tais desfiles de duvidoso gosto e não conseguia enxergar para lá das plumas e das figuras tristes, hoje olho para alguns destes homens e mulheres - sobretudo os que não perdem a dignidade nem debaixo de pedrada - e compreendo-os muito melhor.

Em rodapé desta vez, uma velha música dos Portishead, Roads, que, volta e meia, reaparece para me assombrar. Porque Ohh, can't anybody see / We've got a war to fight / Never found our way / Regardless of what they say.

6.5.08

O anzol


Ai eu já pensei mandar pintar o céu
Em tons de azul, pra ser original
Só depois notei que azul já ele é
Houve alguém que teve ideia igual

Eu não sei se hei-de fugir
Ou morder o anzol
Já não há nada de novo aqui
Debaixo do sol

(
O Anzol, Rádio Macau)


Quantos gestos banais, e até mesmo irreflectidos, não nos passariam totalmente ao lado não fosse o facto de terceiros reparem neles e com isso nos obrigarem a pensar no que acabámos de fazer quando não era de todo essa a nossa intenção?

Deixem-me explicar. Estava eu a saborear um cappuccino, a conversa e a esplanada quando, sem o mínimo desígnio obscuro, estendi a minha perna direita, servindo-me da cadeira vaga em frente como apoio. Não será o tipo de coisa que faça muito frequentemente em público, mas naquela tarde amena, depois de andar a caminhar desde cedo, apeteceu-me e fi-lo espontaneamente. O curioso é que, não fosse esse gesto e, provavelmente, os dois homens da mesa ao lado da nossa ter-me-iam passado despercebidos. Para um deles, porém, o eu ter colocado a minha perna esticada sobre uma cadeira deve ter funcionado como pretexto, pois, de repente, senti-me observado. Encarei-os por breves segundos – o suficiente para constatar que as mesas estavam muito mais próximas do que imaginara e que um dos homens de meia-idade me fintava agora sem cerimónias. Desviei o olhar e continuei a falar com o meu amigo, mas, porque tinha clara noção de que continuava a ser observado, já não fui capaz de manter a mesma posição por muito mais tempo. A dada altura, e porque os nossos olhares se voltaram a cruzar inadvertidamente, o homem aproveitou para me atirar à queima-roupa:

- Are you Brazilian? – E ficou a sorrir, como que expectante da resposta que julgava ser óbvia.

Numa cidade onde não faltam imigrantes portugueses, e por isso o português se faz ouvir um pouco por todo o lado, não deixou de me parecer uma ironia – mas ainda assim previsível - que aquele homem, que estivera claramente a matutar numa maneira de meter conversa connosco, optasse por nos atribuir uma nacionalidade que, a avaliar pelo riso matreiro, lhe despertava maiores fantasias do que nos imaginar tão portugueses como o homem do táxi ou a mulher que lhes limpa a casa.

Desfeito o equívoco, e terminada a troca de palavras de circunstância que parecia ter por único propósito saber o que estávamos a fazer na cidade, reparei que o meu amigo, à excepção de ter rosnado entre dentes “Panilas”, se havia mantido à margem durante o curto diálogo – a típica reacção de defesa dos homens hetero quando, em desvantagem ou igualdade numérica, se sentem na mira de homens gays.

Mas eu, que gosto de divagar sobre banalidades, fiquei pensativo. Primeiro sobre a nossa linguagem corporal e como ela pode, de facto, condicionar/influenciar a forma como os outros nos vêem. Segundo a questão dos estereótipos e como estes podem ser enganadores – será que devo tomar como elogio, e já agora os que são realmente brasileiros, o facto de ser confundido com um brasileiro quando isso vem associado a uma certa imagem feita de “exotismo” e “sexualidade”? Terceiro, não é a primeira vez que sou abordado por um casal gay mais velho e, muito curioso, o padrão, de certa forma, repete-se: há sempre um que toma a iniciativa de meter conversa enquanto o outro permanece silencioso, o que me deixa na dúvida se está em sintonia, e apenas é mais tímido, ou se a situação, na verdade, o incomoda, mas opta por não interferir? E o que significa a abordagem? Estão apenas a ser simpáticos? Gostam de fazer novas amizades? Ou nada disto é assim tão inocente – como eu realmente suspeito - e é apenas um subterfúgio para tentar a sorte? E se assim o for, o que os levou a arriscar? O facto de sermos dois homens adultos sozinhos numa esplanada a meio da tarde? Estender a perna é algum código que deva saber para evitar mal-entendidos futuros (okay, esta até a mim me parece estapafúrdia, mas não custa perguntar! hahahahah) ? Ou ser brasileiro – e vocês que o são, respondam-me, por favor – tornou-se efectivamente sinónimo de “gente muito disposta” no estrangeiro (estou a ser mauzinho, mas vocês percebem onde quero chegar, right)? E estariam os senhores a pensar num ménage a quantas mãos (e pernas, pois então, hahahahahaha)? - admito, esta última foi só para lançar a confusão!

Dá que pensar, ou sou eu que ando a ver muitos filmes? (não precisam responder!)

1.5.08

Apaguem as luzes, por favor, que me dói a cabeça...

Image by Oz


I hope all my days
Will be lit by your face
I hope all the years
Will hold tight our promises

I don't wanna be old and sleep alone
An empty house is not a home
I don't wanna be old and feel afraid

And if I need anything at all

I need a place
That's hidden in the deep
Where lonely angels sing you to your sleep
Though all the world is broken

I need a place
Where I can make my bed
A lover's lap where I can lay my head
Cos’ now the room is spinning
The day's beginning

(Atlantic, Keane)


Dois homens away from home. O dia vai longo - entre aviões, comboios, táxis, malas abertas. Uma nova geografia com sotaques arrevesados pelo meio. O reencontro pede uma cerveja no bar-da-esquina-onde-todos-vão. Bebemos a primeira, mas, já que estamos ali, e o final de tarde até está agradável, pedimos outra… A conversa engata. E está tão boa que, apesar do câmbio desfavorável, pedimos a terceira para a saída. O crepúsculo tarda, mas o relógio diz-nos ser hora de jantar. Mudamos de poiso. A falta de inspiração para procurar mais adiante dita um restaurante italiano de ocasião, do qual não vou nem recordar o nome mais tarde. Bebemos mais duas para o caminho. Chegados ao hotel, o alpendre do meu quarto, virado para o lago adormecido, exige, apesar da brisa fresca dessa noite, um brinde com vinho. Vazamos a primeira garrafa de tinto e não demora muito a ficarmos amigos de infância. Começam as confissões, algumas das quais serão convenientemente esquecidas na manhã seguinte. Noto que ele se controla, a muito custo, para não tropeçar na língua. Já eu estou mais preocupado em não tropeçar nos pés quando me levanto para ir mijar. Na volta, trago mais uma garrafa.

Terminamos na cama. Cada um na sua e com a respectiva ressaca por companhia. Em momento algum, mesmo quando a conversa resvalou para zonas de perigo, achei que o desfecho pudesse ser outro. Tanto para mim – tenho mais ou menos claro que não me quero envolver com colegas de trabalho -, como para ele – casado, e bem casado até onde sei ou me interessou saber -, o estímulo esteve sempre, e só, em deixar as coisas avançarem até aquele ponto crítico em que a corda fica esticada no limite da tensão. É um desafio. Um jogo em que muitos homens se exercitam sem nunca saírem da sua esfera de conforto ou sem terem de pôr em causa seja o que for. Pouco para uns. Para outros é o suficiente. No meu caso, tem sido, na maior parte das vezes, o bastante. Resta a quem o faz ter a inteligência, e a humildade, de ter sempre bem presente uma lei elementar da vida: o vazio prevalece sobre tudo aquilo que é fugaz.

20.4.08

Numa noite de chuva...


I've been looking for a savior in these dirty streets
looking for a savior beneath these dirty sheets

(
Crucify
, Tori Amos)


Não falta muito para as cinco da manhã quando o Will me deixa na esquina. Insisto que posso percorrer a pé a meia dúzia de metros que me separam da porta do prédio, apesar da noite chorar copiosamente. Gosto de chuva, mas prefiro vê-la da vidraça, já a salvo, enquanto me liberto da roupa impregnada de tabaco. Apetece-me cair na cama, mas antes atiro para o fundo da chávena um punhado da mistura perfumada que trouxe. Verto a água em ponto de fervura sobre a infusão e dela se desprende, aos poucos, o aroma a canela. Está pronto o chá. Noto agora, estou ligeiramente ressacado.

Ainda oiço, cada vez mais distante, a voz de Tori Amos interrogar-se: why do we crucify ourselves? Sei lá eu… tenho sono e não estou para pensamentos profundos a esta hora. Aninho-me no edredão em vez de me esparramar na cama que esta noite tenho só para mim. Adormeço ao som da chuva, como gosto.

O domingo amanhece indeciso. Levanto-me amarrotado. Decididamente, estou ligeiramente ressacado. Saio para comprar o jornal e decido tomar o pequeno-almoço na rua, rodeado de gente sem nome. Esta coisa de ser um rosto anónimo na grande cidade nunca me incomodou. A cidade está-me nos genes.

Curioso, porque na véspera, por umas horas, despi a máscara do anjo negro e mostrei-me apenas como um homem. Sem asas e sem a distância segura da escrita. Um salto sem rede calculado, ainda que não seja fácil chegarmos fashionably late – com diria o sacana arrogante, mas bom todos os dias, Brian de Queer as Folk – a um jantar com 30 e poucos bloggers e não bloggers (não os contei…). Sobretudo quando todos os olhos se viram na nossa direcção e nós apenas reconhecemos um ou dois rostos, no máximo, e isto porque os vimos antes em fotos. Felizmente tinha o Will como fiel escudeiro – aliás, e porque nunca é evidente quebrar o gelo com tanta gente em tão pouco tempo, foi ele, mais do que todos os outros, que fiquei a conhecer ainda melhor. Mas gostei, por exemplo, de confirmar que o Pinguim é exactamente aquilo que dá a ver no seu blogue; que o Papagueno, afinal, também é o Special K; que o Teddy Bear e o Little Teddy Bear estão focados um no outro mas não excluem os demais; que citar Clarice Lispector, mais do que oportuno, foi um acto de generosidade do Paulo e do Zé; que a Keratina soube encarar com galhardia o facto de ser a única mulher entre muitos homens madrugada fora; ou ainda que o Luís Galego, hábil na arte de lançar o enigma como ardil, daria ele também um bom objecto de análise.

E mais haveria, por certo, a comentar, mas eu, que gosto sempre mais de observar do que ser observado, resolvi que me apetecia, mais do que tudo, dançar e beber. E foi isso que fiz até decidirmos, eu e o Will, que estava na hora de bater em retirada. Ainda não chovia.

14.4.08

A carne

Sequência do filme Women in Love, com Alan Bates e Oliver Reed


Everybody's looking for something
Some of them want to use you
Some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you
Some of them want to be abused

(Sweet Dreams, Eurythmics em versão Remix)


A última vez que olhei para o relógio passava das três. Procuro-o em vão, mais abaixo, na pista. Quem desejei e não me quis está agora diluído na massa de corpos em transe, onde só distingo braços num hula-hula frenético - como se a deusa Kali, mas com muitos mais braços, dançasse a alta voltagem. Os meus poros, incapazes de suster por mais tempo a torrente, abriram as comportas. A camisa cola-se-me como uma segunda pele. O mesmo acontece com os jeans. Com as pontas dos dedos amparo o suor que escorre em catadupas pela testa e empapa os cabelos. Antes mesmo de levar o gin tónico à boca, encosto o copo fosforescente ao rosto, na esperança que o gelo, além de dormência, me traga alívio. Recosto-me no balcão. Afino a mira e varro toda a sala até achar o alvo. Está encostado a uma coluna, também de copo na mão, e não se esquiva quando se percebe debaixo de fogo. A mesma altura, o mesmo tipo físico. Até as roupas que usamos são idênticas. A semelhança não me constrange. Antes me atiça a ir até ao fim. De um só gole termino o que comecei. Em momento algum o perco de vista. Ele não se move. Serei eu a avançar. Caminho sem pressa, indiferente a quem se atravessa pelo meio. Não paro. Passo rente, como se o meu foco fosse outro, contorno a coluna e, sorrateiro, ataco-o pelas costas. Sussurro-lhe apenas três palavras ao ouvido e largo-o onde o encontrei. Não espreito uma única vez para trás, mas confio no meu ardil. Conheço os cantos à casa e sei que, àquela hora, a casa de banho reservada aos funcionários, no andar acima, estará a salvo da confusão. Abro alas por entre os que se prostraram nos degraus à conversa. Quando atinjo o topo das escadas, ouço passos no meu encalço. Entro na primeira porta à esquerda do corredor vazio. Atraso-me de propósito para garantir que ele me vê entrar. Às apalpadelas encontro o interruptor da luz. Fecho-me lá dentro. Não é muito grande, sobretudo porque a utilizam também como depósito, mas serve os meus intentos. Não tenciono demorar-me, de toda a forma. Sem perder mais tempo, abro a torneira do lavatório e recebo a água fria, primeiro nas mãos em concha, logo depois directamente no pescoço e no rosto em brasa. Quando me olho no espelho baço, já ele está pespegado na soleira da porta. Não me viro imediatamente e ele fica a observar-me enquanto enxaguo as mãos. Passo o trinco na porta sem que ele se desvie um milímetro. Quase de imediato, lança as mãos ao meu pescoço para me beijar. Travo a investida. Tenho outros planos. Sôfrego, ele volta à carga, e mais uma vez eu recuo. Isso deixa-o momentaneamente atordoado, pelo que aproveito o momento de fraqueza para o encurralar num canto. Mal se apercebe da volta-face inesperada, começa a debater-se na armadilha, mas estou em vantagem e abocanho a sua jugular de supetão. Uso a boca como uma ventosa, sem me preocupar em deixar marcas da minha passagem. A rendição é-me anunciada sem palavras, quando a resistência amaina e dá lugar a espasmos. Dos seus lábios entreabertos soltam-se os primeiros gemidos, abafados, entrecortados por uma respiração arfante. Com uma das mãos asseguro-me que não se solta, mas a outra está livre para, debaixo da camisa desfraldada, avançar às cegas. Ensaio piruetas incompletas ao redor do seu umbigo, afago e belisco, ao de leve, a pele até sentir os seus mamilos intumescidos. Detenho-me por segundos, até que ele sustém a respiração. Ficamos suspensos. Ao sinal, irrompo com a força de um madrigal, ceifo a seara alheia e tomo entre os meus dedos o seu sexo latejante. E só então permito que me beije. Cerro os olhos. Quando os abro, continuo ali; não mais com ele, mas com quem desejei e não me quis.

7.4.08

Linhas cruzadas

Quanto mais se é obcecado pelo sexo,
mais sentimentais nos tornamos;
desconfiar sim daqueles a quem o sexo não interessa.
Há qualquer coisa neles que dá medo.
(tradução livre de uma citação de Michel Houellebecq)


Subverter a ordem habitual das coisas. Gosto disto. Por isso, hoje, troquei as voltas ao (pré)estabelecido e comecei antes por uma citação, com a qual nem concordo muito, mas serve o propósito da provocação. E eu gosto de (vos) provocar. Não muito, só um pouco. As imagens vêm depois. Quanto à música, lembrei-me de uma muito bonita – eu acho – dos Clã, em que “E até nos momentos em que digo que não quero / E o que sinto por ti são coisas confusas / E até parece que estou a mentir / As palavras custam a sair / Não digo o que estou a sentir / Digo o contrario do que estou a sentir”. Estou assim, a modos que com um problema de expressão.






Estão a ver aquele momento em que o vosso cabelo está porreiro, mas amanhã, se não se puserem a pau, já desandou? Pois um destes dias acordei, olhei-me ao espelho e conclui que já estava no day after. Para remediar, fui ao meu cabeleireiro – até gostaria de lhe chamar barbeiro, que é mais viril, mas ele é mesmo cabeleireiro e, ao contrário de mim, parece nem estar ai para estereótipos -, que, para não variar, me ignorou estoicamente quando lhe pedi para não cortar tanto como da última vez, que eu até prefiro ver-me com o cabelo mais comprido e tal… Resignado à minha sorte – ainda hei-de perceber por que a maioria dos gays dá tanta importância ao cabelo, se depois muitos deles o usam muito curto, quase rapado… -, e enquanto sua eminência das tesouras dava os últimos retoques à freguesa do lado, distraí-me a folhear umas revistas de moda – é impressão minha ou boa parte dos modelos masculinos das grandes campanhas internacionais parece que acabou de sair dos cueiros? Tudo bem, nada contra um padrão de beleza mais andrógino, mas também não precisam de exagerar no quesito baby face, né? Felizmente, ainda há quem aposte num meio-termo apetitoso, como é o caso do manequim de Giorgio Armani (acima) que, mesmo com uma camisa aos favos, consegue ter ar de macho. Benzódeus-tão-perfeitinho (um assim é que eu precisava para levar a Mykonos…). Adiante.

Ficam desde já a saber: os calções querem-se muito curtos e esqueçam lá isso de andar com as cuecas à mostra. Passou. Está out.

L. mandou-me uma mensagem, há dias – semanas? -, a desafiar-me para irmos juntos a um jantar de bloggers que o Pinguim está a organizar. Um jantar de bloggers gays, que fique entendido (a posteriori, o Pinguim fez questão de esclarecer que não é um jantar de "bloguistas gays", talvez de maioria gay, mas não só gay, pelo que fica feita a correcção). Tenho perfeita consciência de que é apenas um ponto de partida e que ninguém ali - já falam em cerca de 50! - vai querer fazer disso o seu cartão de visita. É já no dia 19. Ainda não sei se poderei ir.





Tony Ward (vejam bem, está mesmo aqui por cima). Aposto que, pelo nome, também não chegam lá… Aquela barba impediu-me de o reconhecer à primeira, mas quando olho com um pouco mais de atenção não demoro muito a reconhecer as feições do rapaz que, há uns anos valentes, causou alvoroço no videoclip Justify My Love, de Madonna. Tirava-lhe a barba, mas o resto está de boa saúde e recomenda-se, como podem ver pela foto.





Na mesma revista, a edição francesa da Vogue Hommes International, num número especial dedicado ao erotismo, detenho-me na produção dedicado ao fétichismo, que faz capa também. É um universo distante do meu, mas a que ainda assim não sou totalmente indiferente. Acho que ninguém o é. Não sei bem porquê, a minha primeira reacção é imaginar-me a entrar, seguido pelo tipo das fotos (acima), no Hôtel Costes, em Paris… Quase consigo ver as caras de espanto, a fingirem um ar blasé – afinal quem frequenta o Costes não dá parte de fraco nem abre a boca de espanto -, à nossa passagem enquanto nos dirigimos ao elevador. Sim, admito, há um lado meu obscuro – reprimido, será? - que não se importaria nada de encostar à parede um bad boy destes, subvertendo por completo as regras do jogo. Couro preto, tatuagens, correntes, uma mansarda parisiense com veludos encarnados e reposteiros pesados. Combina tudo na perfeição. Na minha cabeça, pelo menos.

Aflige-me de certa forma a ideia de deixar um livro a meio, sem terminar de o ler para ver como a história acaba… Há meses que ando para trás e para a frente com um livro desses, está encalhado, eu sei, mas ainda assim não arranjei coragem para o despachar de vez. Comecei por o deixar à vista em cima de uma mesa, numa pilha, mas, a cada dia que passa está mais soterrado por papéis e outras coisas que chegaram depois. Já quase não vejo, mas sei que ele está ali. É chegada à hora de o colocar na prateleira, de onde, muito dificilmente, voltará a sair – quem não percebeu nada da conversa: não, não estou mesmo a falar de livros.

Apetece-me dizer a um certo alguém: não me digas aquilo que julgas que eu quero ouvir – sobretudo quando o que pensas que eu quero ouvir é o mesmo que dizes a todos os outros. Mostra-te antes como és e aí sim, eu vou começar a prestar atenção e a levar-te a sério.

3.4.08

A profecia

Alusão à cena bíblica em que Jacob luta com o Anjo, tema também de uma obra de José Régio que vale a pena conhecer.


Calling all angels
I need you near to the ground
I miss you dearly
Can you hear me on your cloud?
All of my life
I've been waiting for someone to love
All of my life
I've been waiting for something to love

(Calling All Angels, Lenny Kravitz)


Volto zonzo de mais uma viagem, com a sensação de estar esvaziado por dentro. Talvez a culpa não seja de quem me acompanha. Mea culpa, por não ter ao meu lado quem eu quero e preciso nas horas em que as camas de hotel se tornam demasiado pesadas. Ao regressar a casa, atiro-me ao que resta dos chocolates da Páscoa e no DVD coloco directo a série completa de Angels in America ― pergunto-me como foi possível ter passado todo este tempo ao lado de uma obra-prima como esta! Ainda para mais realizada por um dos meus realizadores de eleição, o Mike Nichols (de filmes como Closer, que adoro também!), e com actuações fabulosas de consagrados como Al Pacino e Merly Streep e revelações como Jeffrey Wright e Mary-Louise Parker.

Na sequência em simultâneo em que Louis abandona cobardemente o seu namorado, Prior, às portas da morte no hospital e em que um muito torturado Joe revela finalmente à mulher, Harper, que é homossexual, fico por uns segundos no limiar.

Recomponho-me.

Que bela escolha, estão a pensar alguns de vocês por esta altura, para alguém que estava na mó de baixo… Pois é, acontece que eu nunca tive medo de densidade emocional nem de bons argumentos, o que me assusta mesmo são as histórias de que deserto a meio porque deixo de querer saber como acabam, os orgasmos frouxos, os beijos que não me fazem perder a vigília e as pessoas que supostamente se apaixonam por mim não por aquilo que eu sou e lhes tenho para dar mas por aquilo que elas queriam que eu fosse no seu mundinho perfeito do faz-de-conta.

Porra, crucifiquem-me em praça pública, amarrem-me na lanterna dos inaptos para amar, por não querer ― ainda, não sei se um dia ― a casa, as cuecas misturadas no varal, o almoço de domingo, o amor sereno ou a mão dada no supermercado…

Eu quero e preciso é de perder o chão, do nó na barriga, da vertigem, do orgasmo que me faz quase perder os sentidos, do beijo que me deixa com vontade de mais e da inquietação de querer virar a próxima página para descobrir o que vem depois. Não me façam ultimatos. Obriguem-me antes a sair do pedestal e tornem-me vulnerável. E eu juro que vou. Nem que seja para ficar na cama ao lado a velar pelo teu sono.

1.4.08

Retrato-robô


The teenage queen,
the loaded gun;
The drop dead dream,
the Chosen One
A southern drawl, a world unseen;
A city wall and a trampoline
(
Read My Mind, The Killers)


Há dias, ao abrir a caixa de correio electrónico associado a este blogue, deparei-me com uma missiva de remetente misterioso que dizia apenas isto, depois do seguinte cabeçalho "We're off to see the wizard, the wizard of Oz":

“Só para deixar um comentário de apreciação pelo bom gosto musical, pelas palavras, suaves, pensadas e ecléticas; por apenas”

Os mais cépticos – entre os quais eu cerro, não raras vezes, fileiras – dirão não se tratar de um procedimento inteiramente inocente e que há nele uma intenção disfarçada de aguçar primeiro a minha vaidade, depois a minha curiosidade. Talvez seja. Mas resolvi não o entender assim.

Em meados de Março fez um ano que, aos vários desdobramentos da minha personalidade – porque eu sempre acreditei que podemos ser vários sem deixarmos de ser um só - , resolvi dar voz ao Oz - não se assustem, não sofro do síndroma de Napoleão e no dia em que começar a falar do Oz na terceira pessoa do singular, como se de uma entidade separada se tratasse, podem meter-me na camisa de forças. O Oz sou eu, sempre fui, mas sou eu em partes. Nas partes em que me predisponho a reflectir sobre a minha sexualidade e tudo que a ela diz, directa ou indirectamente, respeito.

É claro que, muitas vezes, ao longo deste último ano, me interroguei sobre a imagem que estava a construir aos olhos dos que me lêem sem ter acesso a mais nada da minha vida que os ajude a preencher os contornos do retrato-robô... Como me imaginam? Que leituras fazem nas entrelinhas? Que tipo de sentimentos desperto?

Não foi algo que premeditei ou que tão pouco estimulei, mas, sem nunca abdicar de me resguardar – mas também sem fazer disso um segredo de estado ou uma esquizofrenia -, aos poucos tenho cedido à curiosidade – natural, eu acho -de querer descobrir mais sobre determinadas pessoas que se escondem, tal como eu, atrás de um alter-ego; da mesma forma, tenho vindo a permitir que algumas dessas pessoas descubram também um pouco mais do que sou para lá do que apenas cabe aqui, entre estes quatro cantos de um ecrã.

Dos que frequentam, ou frequentaram, os meus blogues, apenas duas pessoas me conhecem pessoalmente; existem ainda mais quatro ou cinco, que eu me lembre assim de repente, que eu tenho a certeza de que virei, inevitavelmente, a conhecer, pois há muito que deixaram de ser só palavras para passarem a ter também um nome, um rosto e um contexto que ajudaram a fazer deles mais do que simples esboços na minha vida. Há ainda outros, não muitos, com quem mantenho, de forma mais ou menos esporádica, algum contacto extra blogue, mas sem qualquer intuito, de parte a parte, de ir para além do circunstancial. Por isso, e para a grande maioria, eu vou permanecer o que sou e o que projecto através do que revelo aqui e só aqui. Sem rosto. Nem gordo, nem magro. Nem alto, nem baixo. Nem moreno, nem louro. Nem branco, preto ou vermelho.

Porque acredito, de verdade, que a maioria não precise, nem queira, ver de mim mais do que eu mostro aqui. Para esses, aliás, estou em crer, o meu encanto, a ter algum, está precisamente no que lhes permito imaginar sem nunca lhes contrapor a realidade. E lembrei-me agora do que me escreveu um dos meus mais novos amigos – um dos poucos que não tem alter ego na blogosfera, nem precisa - um dia destes:

“Gosto da maneira que você escreve, há certa sensualidade entre as palavras que me seduzem. Isso me deixa curioso, fico a pensar: “É intencional ou natural? Como ele consegue?”. Por favor, não responda, não gosto de estraga-prazeres.”

Fiz-lhe a vontade e não respondi. Até mesmo porque não saberia o que lhe responder. Do mesmo modo que não fui tratar de saber quem me enviou a missiva. Ainda não.