27.4.09

Arejar o armário

Marc Jacobs, Kate Moss e Justin Timberlake in Vogue, May 2009


Some boys take a beautiful girl,
And hide her away from the rest of the world.
I wanna be the one to walk in the sun.

(Girls Just Wanna Have Fun, Cyndi Lauper)


Domingo à tarde. Dia assim-assim. Preguiça de sair. Preguiça de deitar mãos ao (muito) que continua por fazer. O sofá chama por mim (e antes que alguém de boa memória se apresse a esfregar-me na cara a contradição, adianto já que não vejo mal nenhum em gastar uma tarde de domingo no sofá; sou é avesso, como escrevi antes, a quem quer fazer disso uma prática continuada, e ainda por cima, pretensamente, romântica. Tout court). Assumo o comando e começo a zapear. Estou com sorte. Em menos de 15 minutos vai começar O Sexo e a Cidade, o filme, num dos canais a cabo.
Sem querer beliscar susceptibilidades alheias, O Sexo e a Cidade, o filme, é coisa de gaja. Okay, a série também era sobre e para gajas; ainda assim, acho, era mais abrangente e com vários alibis semeados para que nós, os gajos que gostam praticamente das mesmas coisas que as gajas [mas não ao ponto de termos por fétiche calçar uns stilettos Manolo ou por fantasia casar num longo branco asssinado por Vivienne Westwood], nos sentíssemos identificados. Já o filme, dou de barato, cumpre perfeitamente a sua missão num domingo coach potato, mas apertou o cerco e, para meu gosto, ficou muito clube das luluzinhas - porque uma coisa é um gajo gostar de ler a Vogue, saber que o Marc Jacobs, além de low fat, está de tal forma enrabichado pelo seu namorado brasileiro que até já trocou alianças e cortou o bolo, ou ainda ter uma opinião formada sobre o regresso das ombreiras; outra bem diferente é, repito, ter por fétiche calçar uns stilettos Manolo ou por fantasia casar num longo branco assinado por Vivienne Westwood. No fundo, a diferença, subtil mas a diferença, entre o "tá-se bem entre elas" para o "deixa-me cá ser uma delas", if you know what I mean...

Não soltar a franga (ou manter os cojones no lugar, se preferirem). É ai que pretendo chegar. Folheio a edição de Abril da Esquire, versão espanhola, e nem preciso ir mais longe. Aqui está uma revista, como a grande maioria das publicações masculinas que não tenham por tema dominante carros e mulheres nuas, que só sobrevive graças aos muitos gajos que gostam praticamente das mesmas coisas que as gajas, mas que não querem sentir-se uma Carrie Bradshaw da vida airada (ou devo antes dizer, da virada?). Não tenhamos é ilusões. Ou vocês acham por acaso que se o target da Esquire, só para continuar no mesmo exemplo, não fosse - ainda que encapotado - gritantemente gay, os moneymakers do grupo editorial deixavam passar uma produção de moda desportiva com o modelo, to die for, enfiado numa jaqueta de vinil roxa combinada com umas calças de treino em malha preta coleante (pág. 180) ou ainda com duas bolas enfiadas no pólo Dsquared (pág. 181)? Óbvioooooooooooooooooo que não. Da mesma forma que não teríam baixado os calções, até ao limite da decência, ao campeão olímpico de natação Michael Phelps... Elementar, meu caro Watson, elementar.

E, subliminarmente ou não, a mensagem passa. Olho para a nova colecção retro, que a Adidas e a Vespa vão lançar em conjunto, e começo a salivar. Quero. Mas contenho-me porque, lá está, lembro-me a tempo da Carrie Bradshaw sempre que se depara com um novo par de Manolos e não quero fazer a mesma figura. Estica o peito, afasta as pernas, ma man. Gajo que é gajo pode até gastar mais dinheiro em roupa do que muita gaja, só não precisa é admiti-lo. Afinal, os armários estão ai para isso mesmo (ahã, é um duplo sentido).

E pronto. Se levaram demasiado a sério tudo o que escrevi até agora, está na hora de soltarem uma grande gargalhada e de irem às compras.

20.4.09

After 30's

I can see the end, of what I've become
A tale of love, come and gone
And now my love, now promises
I wont go falling in love
(Velvet, the Big Pink)


O manifesto "há vida depois dos trinta" já soa a fraco consolo e não falta quem, no afã de provar que ainda está ai para as curvas, até se dê ao trabalho de imprimir no peito a frase lapidar "a vida começa depois dos trinta".

Não vou tão longe, mas digo, sem grandes pruridos, que, quando olho para trás, não sinto grande nostalgia dos meus anos 20. Nesta década, entre ganhos e perdas, ganhei mais do que perdi. Depois, e com tanto trintão (e não só, abençoados Clooney e Pitt, só para citar dois quarentões óbvios) enxuto por ai, nós, os comuns mortais, conquistámos até o direito de estar (e de parecer) bem sem termos de passar pelo despautério de escutar coisas do tipo "julgava que eras bem mais novo"! Mais novo o tanas, afinal a Idade Média já passou à história e se morremos cada vez mais tarde, o mínimo que se pode esperar de alguém nos trinta é que faça por aguentar a peteca. Ou não, que cada um sabe de si.

Curiosamente, o estigma dos trinta continua a fazer estragos no ego e muitos, mesmo os tais que até "passam por menos" (ou talvez exactamente por isso), cedem à tentação de mentir na idade... Aconteceu-me há dias de reencontrar online um velho conhecido, que, sem o menor pejo, na hora de se insinuar resolveu tirar, que eu desse conta, uns quatro anos da sua certidão de nascimento. Para azar do tipo, eu tenho muito boa memória, mas, a fina ironia é que ele nem tinha por que mentir.

Por estas, e por outras, um outro amigo meu brincou comigo e, à laia de provocação, resolveu atirar-me "onde é que fica a tua fonte de juventude?". Ri-me, pois então. Mas fiquei a matutar naquilo. E se, como dizem agora, Darwin sempre teve com a razão do seu lado? Sim, e se andamos para aqui todos ufanos a achar que demos a volta à Natureza quando, na verdade, ela é que continua a dar as cartas?

Passa-me, de repente, pela cabeça a ideia de que o imperativo de nos mantermos jovens aos 30, 40 (e por ai adiante) pode não passar de um estratagema, de um recurso da Natureza, necessário a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, ainda não cumpriram o seu papel na evolução... É uma tese demasiado determinista para quem, como eu, acredita piamente no livre-arbítrio, mas, ainda assim, não totalmente destituída de (alguma) lógica. Olho para mim, por exemplo, e enxergo-me no pleno dos meus 30's com uma série de coisas por resolver - continuo solteiro, tive de me reinventar profissionalmente e voltei a ponderar, seriamente, a hipótese de senão viver, pelo menos de passar largas temporadas num outro país (que é assunto para um outro post) - e interrogo-me se não preciso efectivamente de me manter jovem para levar a cabo tudo aquilo que (ainda) não realizei?

13.4.09

Esperança em tempos de cólera

Is this the place, we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?
(Somewhere Only We Know, Keane)


Ninguém está a salvo dos seus (falsos) pressupostos. Muito menos eu. Tenho vivido todos estes anos plenamente convencido de que nunca me apaixonei para valer e, de tanto o repetir, o que começou, na verdade, por ser uma mera interrogação acabou por tomar ares de certeza (quase) definitiva. E ai transformou-se num daqueles postulados idiotas que não me suscitam orgulho, mas também não me provocam dramas existenciais e/ou recriminações. Foi mais o tipo de coisa que deixamos dobrada no fundo de uma gaveta, na qual até remexemos de quando em vez, mas que não nos damos ao trabalho de despejar para fazer uma selecção do que fica e do que vai fora porque deixou de servir.

Agora, colocando vários episódios recentes em rewind, já não tenho tanta certeza assim... Acho mesmo que há a chance, séria e real, de me ter apaixonado, quiçá até mais do que uma vez, e de não ter dado conta... Parece altamente improvável, esdrúxulo até, eu sei, mas quem se apressar a pensar assim estará, porventura, a cometer o mesmo erro grosseiro que eu.
Entre outros devaneios que não são para aqui chamados, passa-me pela cabeça que eu poderei ser do tipo que não sabe reconhecer em si os sinais da paixão. Dito de outra forma, começo a desconfiar de que, vá-se lá saber porquê, eu ter-me-ei persuadido que paixão era uma determinada coisa, uma coisa tão arrebatadora e tão inequívoca que, ao passar por mim, eu teria, necessariamente, de parar para lhe prestar atenção. E por arrebatador e inequívoco leia-se arrepios na espinha, estômago embrulhado e pernas titubeantes se essas fossem imagens poéticas do meu agrado, mas esse talvez esteja a ser o meu mais terrível e traiçoeiro engano.

Talvez a paixão não me deixe indisposto. Talvez ela me deixe antes disposto para cometer loucuras e actos apressados. É que, para quem se diz intocado pela paixão até hoje, eu tenho cometido vários de cada nos últimos tempos. O que me leva a matutar: se eu sou capaz de loucuras e de gestos grandiosos por pessoas a quem apenas quero bem - ou me suscitam curiosidade, que é uma palavra cautelosa que eu passei a empregar amiúde para salvar a face em caso de derrocada iminente -, o que farei quando realmente achar - tiver a certeza? - que estou arrebatadora e inequivocamente apaixonado? O chão vai tremer? Os sinos vão dobrar? Vai parar de chover? Cristo desce novamente à Terra? Provavelmente, não; provavelmente, não. Percebem onde quero chegar?

Se não entenderem também, não é caso para se incomodarem. Até porque nada do que escrevi até estas linhas é para fazer (muito) sentido. É mais um exercício de lógica e de purga a que me sujeito num dia em que acordei de bem com a vida e comigo. Não que seja raro eu acordar de bem com a vida e comigo, pois passo ao largo das criaturas que foram amaldiçoadas com um despertar rabugento e ácido, mas acontece que sobrevivi a uma manhã particularmente merdosa. Uma manhã em que me vi sozinho num lugar onde não queria estar, sem referências e sem um rosto familiar por perto. Pior, descobri-me longe das pessoas com quem deveria realmente estar naquela manhã de celebração.
Não vou armar-me em forte nem em blasé e dizer que tirei de letra aquela manhã; não tirei. Ela custou a passar e foi dolorosa. Demorei horrores para sair daquele lugar; e demorei ainda mais para me libertar do que me conduziu àquela manhã. De certo modo, uma parte de mim ainda está presa naquela manhã. Mas, como disse, sobrevivi. E sobrevivi inteiro e em paz.

Não se iludam. Não faço minimamente a linha dos que dão a outra face sem ripostar, sem ferir. Mas, não gosto de passar por uma provação sem ficar com o consolo de que, ao menos, aquilo me serviu para aprender a lição. Por isso, em vez de estar furioso e de querer esmurrar alguém que, apesar de todas as vigílias nocturnas, ainda não atingiu o grau de humildade e humanidade necessário para se colocar, por um instante que seja, na pele do outro, eu estou grato.
Porque quando alguém bate a porta, a meio de uma madrugada chuvosa, sem se importar com o que deixa para trás - porque não soube apreciar a nossa companhia, porque não se ralou muito em perceber os nossos gostos e nem sequer hesitou ante a certeza do que tivemos de abdicar para estar ali -, é caso para perder o sono. Mas não é caso para perder a esperança.

Naquela manhã, arrependi-me duramente de não ter dado ouvidos à minha intuição que, por mais de uma vez, me segredou para não ir. Teimei e fui, paguei um preço alto, mas conquistei na adversidade algo inesperado: se, com todas as minhas limitações, desacertos e dúvidas, decidi ir ao encontro - num gesto quem sabe precipitado, admito, mas que me exigiu generosidade e coragem - de alguém que, não obstante a inconstância, a imaturidade e até um certo desapego a roçar a frieza, me tem inspirado, mais do que tesão ou desejo, um carinho genuíno e uma vontade legítima de tentar ir mais além (porque falar em química é vago), então eu ainda tenho esperança. A esperança de que, tarde ou cedo, eu vou deixar de ser uma excepção para passar a ser uma regra. A regra dos que se apaixonam, com ou sem arrepios, com ou sem borboletas, nem que para isso tenham de partir a cara mil vezes.

Cansei-me de ser a excepção que confirma a regra. A manhã passou; ficará o orgulho ferido, quando muito, e uma mágoa que nem sequer é (só) de agora. Mas o que aprendi sobre mim naquelas horas, isso eu vou querer lembrar sempre.

25.2.09

Enquanto isso...

By Oz, algures no Rio


... na ressaca do Carnaval carioca, e prestes a prosseguir a minha viagem até Belo Horizonte, dei por mim a reflectir, mais do que nunca, no excerto que, precisamente, um amigo mineiro me mandou um destes dias do livro Estranhos Estrangeiros, de Caio Fernando Abreu:


AMIGO 1: Entre dois homens, amor é igual a sexo que é igual a cu que é igual a merda. Sabe que não agüento merda? Eu vejo um cara e gosto e tal e me aproximo e rola umas, sempre rola umas, porque eu canto bem, eu sei cantar, veja que vaidade, e daí eu penso Deus, daqui a pouco a gente vai pra cama e chupa daqui, chupa dali, baba, roça, morde, e no fim inevitável tem o cu e a merda no meio. Você acaba sempre dando a bunda ou comendo a bunda do outro. Se você dá, ainda não é nada. Tem a dor, a puta dor. Caralho dói pra caralho. Tem uns jeitos, uns cuspes, uns cremes. Mas é nojento pensar que o pau do outro vai sair dali cheio da sua merda. Mesmo nos casos mais dignos, você consegue imaginar Verlaine comendo Rimbaud? E se você come o outro, tem a merda do cara grudada no teu pau. Mesmo no escuro, você sente. (…) Tem amor que resista? (…) Amor entre homens tem sempre cheiro de merda. (…) Por isso, eu não agüento. (…) Eu não consigo aceitar que amor seja sinônimo de cu, de cheiro de merda. (…) Ter cu é insuportável, é degradante você se resumir a um tubo que engole e desengole coisas. Eu não vou aceitar nunca que o ser humano tenha cu e cague. (…)


AMIGO 2: E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. (…) Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você pode até gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda”.


Talvez seja isso. Falta-me, até hoje, a coragem para virar bicho.

8.2.09

Ajoelha e reza

Blowjob by Dolce & Gabbana


Are we human or are we dancers?
My sign is vital, my hands are cold
And I'm on my knees looking for the answer
Are we human or are we dancers?

Pay my respects to grace and virtue
Send my condolences to good
Give my regards to soul and romance
They always did the best they could

And so long to devotion
You taught me everything I know
Wave goodbye, wish me well
You've gotta let me go
(Human, The Killers)


Por esta altura da minha vida já deveria saber que o despeito não é um bom conselheiro. Quis dar o troco a alguém que, sem aviso prévio - ou assim o quis entender, que, a bem da verdade, os sinais estiveram quase sempre lá não tivesse eu teimado em lhes fazer vista grossa... -, me deixou apeado, já desfraldado e de pele eriçada, com o bolo nas mãos. Claro que isto de querer entrar a meio numa outra festa, para a qual guardámos o convite "just in case", raramente dá boa coisa. E foi assim que, por mais de uma semana, arquei com as consequências do meu acto impensado e aprendi a duras penas - espero - que, não tão raro como isso, os primeiros instintos são os que contam. Que é como quem diz: se durante mais de um mês não deste o teu número de telefone a um tipo, não lho dês depois só porque um outro filho da mãe te deixou, literalmente, na mão. É asneira da grossa e não vale o trabalho que dá para remediar o mal feito.

Para me redimir do meu ímpeto vingativo, resolvi, depois de ter perdido as estribeiras e de ter dito poucas e boas ao Casanova de trazer por casa, recuar. Fi-lo, disse na altura, porque "o seu erro não justificava o meu", mas essa é a parte bonita e edificante desta estória. A moral, nua e crua, está bem menos para Santa Teresa d'Ávila, pois, por uma vez, achei ser hora de começar a usar quem também me usava - e pelos vistos com maior mestria e sem remorsos. Entrámos assim numa espécie de acordo nunca assumido, mas até certo ponto consentido (quem cala, consente), de mútua e descarada conveniência.

Em teoria, esta coisa de uma mão lavar a outra parece saída dos ideais proclamados desde a Revolução Francesa, mas, na prática, pergunto-me se estou pelos ajustes e se a alcova em questão vale que me arme em Valmont. Mas isto, claro está, são dúvidas e hesitações de quem ainda não se converteu por inteiro ao cinismo e para quem um momento de prazer não justifica todos os meios para lá chegar. Ter-me-ei tornado, para mal dos meus pecados, no último dos moicanos?

15.1.09

"Por ai, eu não vou"



Day one, day one
Start over again
Step one, step one
I'm barely making sense
For now I'm faking it
(Not As We, Alanis Morissette)


A semana fecha com mais um equívoco. Não sei se chego a lamentar. Não sei se há realmente algo a lamentar. Deixei uma porta entreaberta, mais por descargo de consciência do que por convicção de que poderá valer a pena. Não cheguei a tirar os pés do chão e ainda tive de andar a disfarçar, como um adolescente, o chupão no pescoço.

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Há mais ou menos uma semana, estava eu, banho tomado, a secar o cabelo num dos espelhos do balneário quando um dos personal trainers veio dividir a bancada comigo. Nada de mais, não fosse o facto de eu estar vestido, como é normal, e ele totalmente nu. Já o vi várias vezes no ginásio: mais de um metro e oitenta, moreno, boa pinta e corpo musculado. Claro que lhe tirei as medidas pelo espelho, mas tentei ser o mais discreto possível para não lhe dar a satisfação de "alvo atingido". Não faço a menor ideia se o fulano é gay ou não; tão pouco me dei ao trabalho de ficar ali plantado mais tempo do que o estritamente necessário para um tira-teimas. Mas, a ser verdade que ele se estava a fazer a mim, não deixa de ser lisonjeiro, pois o fulano deve ser o sonho de consumo de muito macho por ai, mas não levo jeito para este tipo de engate com linguagem cifrada. E se não é gay, o que eu duvido pela forma como se exibiu, tem imenso talento para a coisa, pois nunca vi um tipo levar tanto creme para um ginásio e colocar tamanho empenho na aplicação de um corrector de olheiras. S-E-I.

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Há dias, nesse mesmo espelho, de novo a secar o cabelo (sim, eu sou dos que não saem para a rua de cabelo molhado). Assim como quem não quer a coisa, o mesmo tipo com quem ainda há pouco tinha cruzado o olhar enquanto estávamos os dois a fazer cardio, chega-se à bancada com o pretexto de se ajeitar antes de sair. Fico com a sensação de que os seus gestos saem meio atabalhoados e que tudo não passa de um pretexto esfarrapado para trocar mais um olhar comigo. Dá-me mesmo a impressão de que, por uma fracção de segundos, fica à espera de alguma reacção minha. Azar. Eu realmente não levo jeito para este tipo de coisas. O fulano acaba por se ir embora e é uma pena. Não me importava nada de ter ficado com o seu número, just in case...

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Escrevi há pouco que deixei uma porta entreaberta, não foi? Ah, já me arrependi. Esqueci-me que por cada porta fechada, Deus abre-nos uma janela. Do nada recebo um sinal de fumo de alguém que julgava já perdido para quem o soubesse apanhar... Leio na mensagem "É só para saber se está tudo bem contigo...". S-E-I. Acho que vou responder: estava uma merda, mas agora pode ficar óptimo.

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Um dia destes, eu ainda me canso de ser um homem decente e enveredo de vez pelo mau caminho. Bem ao género "Oh God make me good, but not yet".

31.12.08

08.Oz.09

by Joe Oppedisano


Coming out of my cage

And I've been doing just fine

Gotta gotta be down

Because I want it all

It started out with a kiss

How did it end up like this?

It was only a kiss

It was only a kiss

(Mr. Brightside, The Killers)



Irrita-me sobremaneira o ritual das 12 passas de uva engolidas à pressa. Aliás, vou mesmo mais longe ao assumir que a ideia de Réveillon, per si, quase não me faz cócegas. Não é que me seja totalmente indiferente, mas a sensação com que fico é que, tal como as passas engolidas à pressa, este é um ritual de passagem particularmente artificial.
De toda a forma, este é, queira eu ou não, goste eu ou não, um momento de reflexão; com a vida em suspenso, assim me parece, dei por mim a deitar contas à dita e a chegar a algumas conclusões interessantes.
Desde já aviso: valem o que valem. Não são, nem quero que sejam, verdades absolutas. Têm prazo de validade e prestam-se a ser contrariadas. Ao fim e ao cabo, mais do que ressacas e doses homéricas de boa disposição impingida, quando não mesmo simulada, o conceito de Réveillon serve, valha-nos ao menos isso, para manter acesa a ilusão de que nos é sempre possível recomeçar, emendar a mão, corrigir a trajectória. E essa ideia agrada-me.
Vamos então para 2009 e quem for o último da fila, por favor, que feche a porta.

1. Preciso ser mais caloroso com os meus amigos. Aliás, preciso ser mais caloroso de uma forma geral, o que não quer de todo dizer que vá andar por ai a distribuir beijos e abraços a torto e a direito. Apenas constatei que há coisas que precisam ser ditas e não apenas demonstradas.

2. Preciso controlar os acessos de raiva. Não me fica bem perder a calma, já para não falar no aprumo e na compostura. Contar até dez ou respirar fundo antes de explodir são receitas antigas que ainda funcionam. Permitir-me-ei, de quando em vez, e só para não perder a graça e o charme, uma ou outra birra, um ou outro amuo.

3. Preciso dar ordem às coisas. Rejeitei o amante, mas esforço-me para conservar o amigo... faz realmente sentido? Os fins justificam os meios, ao ponto de andar a "cozinhar em lume brando" alguém que ainda não percebi se quero como amigo ou como amante? Vale a pena continuar a insistir na ideia do amante, só para não morrer estúpido, ou teria mais juízo se me ficasse, de uma vez por todas, com o amigo? O que me leva a não colocar um ponto final numa situação que está, ao que tudo indica, para lá dos meus limites?

4. Não preciso de resposta para tudo. Da mesma forma que nunca me senti inteiramente hetero, é bastante provável que nunca me venha a sentir um gay de corpo inteiro. Não é uma questão de proporção. Não dá para quantificar ou medir. Mas não é um drama. Não é uma fatalidade. Tão pouco é uma maldição. A vida não é a preto e branco e eu tenho de aprender a viver com as (minhas) nuances.

5. Preciso ser mais objectivo. Rala-me o preconceito dos outros, mas ainda lhe estou imune porque, na verdade, em vez de me colocar na pele dos visados, eu mantenho-me a uma distância segura e tudo observo de fora. Logo, o preconceito é também meu.

6. Não preciso de aprovação, mas quero respeito. A minha "luta" nunca passará por os outros me aceitarem ou não como sou. Não preciso de aprovação; precisarei que me respeitem, antes de tudo mais, para que, de futuro, não venha a sentir-me forçado a justificar ou a fazer da minha sexualidade um rótulo.

7. Preciso dar a mão à palmatória. Ao contrário do que sempre imaginei, as probabilidades de me vir a envolver - pelo menos nos tempos mais próximos - com tipos da minha idade são ínfimas. Demorou, mas percebi que jogamos em campeonatos distintos.

8. Não preciso de fag hags no meu eixo de gravitação. Tenho uma relação bastante cúmplice com as mulheres da minha vida. Gosto de as ter por perto e de as ouvir. Gosto de saber que, mais do que confiarem apenas em mim, confiam no meu discernimento. Mas que nenhuma delas, no dia em que a minha sexualidade deixar de ser nebulosa, caia no supremo disparate de querer fazer de mim uma alcoviteira ou o seu "homem de mão". Trocar cromos (figurinhas, para quem não sabe o que são cromos) de marmanjos ou galar o galalau na mesa ao lado não fazem, definitivamente, parte das coisas que quero partilhar com elas.

9. Preciso ganhar mais dinheiro. Até sei viver sem ele, mas a minha vida fica tão mais divertida quando não tenho de andar a equilibrar-me no arame. Não ligo a dinheiro, mas ligo muito a tudo de bom que ele compra e me proporciona. I'm a material boy, mas o meu interior também é bonito. Podem espreitar.

10. Não preciso de yesmen nem de gueixas. Há quem goste de ter alguém a seus pés e pronto a dizer que sim a tudo e a reclinar-se ao menor estalar de dedos. Não é para mim. Gosto de quem me dá luta. De quem me desafia. De quem, em doses saudáveis, mantém uma certa dose de perversidade e imprevisibilidade. Gosto de encurralar o adversário na parede, mas também aprecio um igual que, na luta corpo a corpo, me saiba tirar o tapete. Uma mão lava a outra e as duas juntas formam um braço de ferro.

1.12.08

Strangeluver

by Joe Oppedisano


Looking everywhere, I see nothing but people
Looking everywhere, but I see nothing but people
Where have they gone? I always thought I could never leave them
They are calling me, but they don't know I can't stay all night long

(Dr. Strangeluv, Blonde Redhead)



Há uns bons anos, num daqueles jantares que antecediam uma noite de copos e desvarios no Bairro [Alto], alguém me perguntou, já não me lembro a propósito do quê (nem isso interessa para o contexto), se me considerava romântico... Sem pensar muito, soltei um lacónico "Tenho dias" que suscitou um risinho nervoso entre os presentes e uma aquiescência generalizada que valia por um "Lá está ele a armar-se em diferente". Ainda hoje recordo a cena, com um misto de orgulho e de pesar, e dou por mim, não tão raro como isso, a reflectir no peso (e nas implicações) que essa mesma postura ambígua, cultivada com igual bravata mas também com algum desconforto à mistura, tem tido na minha vida amorosa ao longo dos anos como Homem adulto.


Não sou romântico, facto assente, mas, mais do que ser capaz de gestos românticos, eu cultivo até, quando estou para ai virado, certas intenções românticas. O que não é bem a mesma coisa. Talvez por isso, não sei ao certo, nem sempre me faço entender; todavia, pior do que não ser inteiramente compreendido nas boas (e más) intenções, é a dificuldade, mais minha do que dos outros, em conseguir achar um ponto de equílibrio entre o não ser (ou não querer ser) romântico e o poder estar romântico - que é como quem diz: eu não sou romântico,
mas estou muitas vezes romântico. Não vejo nisto uma contradição de termos, mas admito que possa estar equivocado.


Da mesma maneira que ontem me escapulia de mulheres terrivelmente cor-de-rosa em busca de um porto seguro, agora não escondo igualmente a desconfiança sempre que me vejo às voltas com homens assumidamente românticos que me passam a sensação de uma vulnerabilidade e de uma dependência extremadas - algo que passei a definir por "sindroma do domingo à tarde no sofá" e que me coloca quase de imediato, como nos desenhos animados, em sinal de alerta! Escrito por outras palavras, eu diria que manifestações do tipo "Quero tanto encontrar alguém com quem possa me enroscar aos domingos à tarde, num sofá, a ver filmes" desperta em mim a mesma apreensão, para não ser bruto e falar antes em aversão, que me dizerem "Quero ter alguém para me aquecer os pés"!

Não me entendam mal, eu adoro tardes de preguiça num sofá e não sou insensível à questão dos pés frios - em sentido figurado ou não -, mas só acho brochante ter isso logo por condimento numa altura em que a conquista dita outro tipo de pimenta.
Para falar honestamente, ando um bocado assustado com o número impressionante de gajos aos suspiros que me tem aparecido nos últimos tempos... A partir de que momento é que os homens caíram na ratoeira de também eles andarem à procura do príncipe encantado? Não é por nada, mas quando se está mais interessado em seduzir e em ser seduzido, a ideia de passar directamente à sala e ao sofá não me é nada estimulante...

Há muito que tenho claro não fazer minimamente o género "foder-como-se-não-houvesse-amanhã-sem-olhar-a-quem, mas, por outro lado, também não faço de todo a linha "homem-para-casar-e-prestes-a-calçar-as-pantufas. Procuro um meio-termo, mas o meio-termo não tem sido nada fácil de encontrar. Ou então, lá está, eu é que não tenho sabido hastear a bandeira certa e isto de não ser, mas poder estar, romântico não passa de mais um mito urbano.

6.11.08

Passa a outro e não ao mesmo...


They only want you when you're seventeen
When you're twenty-one
You're no fun
They take a polaroid and let you go
Say they'll let you know
So come on

(Seventeen, Ladytron)


Como já dizia o outro, não sei bem quem, mas também não vem ao caso, não há fome que não dê fartura. E não há fartura que não dê enjoo, acrescento agora eu. Depois de várias semanas a brincar ao gato e ao rato, resolvi que merecia umas tréguas. Não, não tirei o meu da recta, salvo seja, mas um bom estratega sabe sempre a hora certa de se retirar de campo. Sai de cena, mas estou disposto a voltar a jogo logo que a ocasião surja. Neste meio tempo, aproveitei, por exemplo, para me entupir de DVD's e para ver ao vivo os Ladytron no Lux - adoro a liberdade de poder andar na boa-vai-ela (sempre quis usar aqui esta expressão e descobri que vem no Houaiss!) numa terça à noite, ainda para mais tendo por companhia uma amiga que é tudo de bom na minha vida (e pensar que estive a ponto de trocar a sua companhia no concerto por um tipo que virou abóbora...).

Mas, e para provar que não rio apenas da desgraça alheia, permitam-me que vos faça o apanhado rápido de um, talvez o mais caricato, dos meus désaires mais recentes:
No post anterior contei-vos do antropólogo, que vim a saber depois ser também professor universitário - segundo o meu amigo Latinha, eu demonstro uma propensão alarmante por académicos...

A forma como tudo começou parecia tirada de um filme. Em menos de um ano, saía-me na rifa um gajo que tinha o nome do meu primeiro ex-quase namorado, e olhem que não é um nome lá muito comum, e que sabia escrever - e como escrevia bem, o filho da mãe! Desarmou-me pelo meu ponto mais erógeno, o cérebro, e entre tanta coincidência e gosto comum não nos tornámos amigos de infância porque, enfim, já não íamos a tempo.

Só que, mesmo quando cativado, eu não deixo de ficar atento e havia nas entrelinhas pequenas pistas semeadas que me perturbavam sobremaneira: percebi, por exemplo, que a relação de que ele queria tanto sair - ou não, não cheguei a entender... - tinha alguns contornos bizarros, quase doentios... Fiquei de sobreaviso. Ai, como quem não queria a coisa, começou a dança do acasalamento com pérolas do género "Estou com vontade de te despentear, no sentido literal" ou "Tou com uma insónia de todo o tamanho (...) Eu não devia escrever-te à uma e tal da manhã, n'est-ce pas? O que é que o Oz vai pensar do F.? Don't let him know that you are alone, thinking of him in the middle of the night...".

Tinha uma certa graça, ou por outra, eu achava uma certa graça àquela corte à luz das velas, embora na altura, verdade seja dita, eu andasse entretido a teclar madrugada fora com o ninfeto formado em Literatura Clássica (outro académico... o Latinha bem sabe o que diz...) - que grande sacana, pensei eu, afinal também sou capaz de agir como um sacana!, e quase rebentei de orgulho. Mas, à medida que se aproximava a passos largos o momento em que íamos ficar face to face, a luz vermelha começou a piscar e não mais parou; vai ele e atira à queima-roupa: "Mas já agora, há algumas coisas sobre mim que talvez seja melhor saberes antes que se torne ou irrelevante ou complicado de falar delas. Não me dou assim muito bem com homens que têm o culto excessivo dos banhos e dos produtos de higiene, um pouco como as mulheres têm (...) O que eu quero dizer é que, para mim, um homem é um homem, o seu estado mais atraente é o seu estado natural, com pelos e cheiro a «suor, mijo e esperma», para citar a fórmula do Perfume".

Okay, pensei, sou um tipo arejado, deixa-me cá não levar isto ao pé da letra e dar o devido desconto semântico. Só que ele voltou à carga para desfazer as dúvidas: "Se for for meu amante, a única coisa que eu peço é que me deixe também usufruir do seu corpo (e da sua roupa interior) quando está com cheiro a homem".

Nessa altura, acabaram-se igualmente as minhas dúvidas: este gajo não me apanha entre os lençóis, eis a minha sentença. Tenho-me, no entanto, na conta de um tipo que sabe separar as águas. Pensei, na minha santa ingenuidade - e eu todo ufano por, ao mesmo tempo que lhe dizia talvez, manter outras opções em aberto... -, que cada um sabe do que gosta e que, chegados àquele ponto, seria um desperdício descartar um fulano que poderia vir a ser um amigo - se um amigo sente gozo em ir para a cama com homens a cheirar a cavalo e em snifar cuecas meladas, posso até torcer o nariz, mas é lá com ele!

Escusado será dizer que o trovador não queria amigo porra nenhuma. Ele queria mesmo era um gajo que alinhasse na rambóia. Assim que percebeu que eu sou lavadinho e não dou as minhas cuecas a cheirar, não deu parte de fraco, mas não perdeu tempo a mandar-me umas linhas, sempre em prosa elegante, já não mais a querer despentear-me, mas a despachar-me, literalmente é claro.

Toma e embrulha. Tão cedo, se esta me serviu de lição, não me volto a meter com alguém que não seja do meu tamanho...

13.10.08

Confessions on a dance floor


So slide over here
And give me a moment
Your moves are so raw
I've got to let you know
I've got to let you know
You're one of my kind


I need you tonight
'Cause I'm not sleeping
There's something about you girl
That makes me sweat

(Need You Tonight, INXS)


"Gajo, adorava foder contigo". Tout court. Dizem que quem anda à chuva é para se molhar, mas, ainda assim, este é o tipo de abordagem straight to the point que, por norma, me deixa algo indiferente. Há quem diga que tenho pruridos a mais, que me comporto, não raras vezes, como um "donzelo" e que, para uma queca (transa) descartável, não é preciso estar cá com coisas. Talvez o problema seja esse, o das quecas descartáveis. Não tenho nada contra uma boa queca descartável, mas já o mesmo não digo das pessoas. Não gosto de quecas com pessoas descartáveis a priori. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Garanto-vos que não é.

Agora o reverso da medalha...

O Médico, boa conversa, um ano mais velho do que eu. Diz que a sua relação de vários anos está em crise, que me acha atraente, interessante, rebeubéu, pardais ao ninho... Acena-me com um jantar, mas, como mostro alguma reserva, sugere antes um copo... Não gosto de blind dates; insisto que antes vai ter de se mostrar. Desaparece do mapa.

O Oficial da justiça e O Advogado. O primeiro vai bem lançado nos trinta, o segundo está quase a chegar lá. Nenhum dos dois me deixa extasiado do ponto de vista físico, mas parecem pessoas agradáveis e de bom trato. Conversamos, mas, quase sem me darem tempo para mais nada, já estão a fazer cobranças, a reclamar exclusividade e a amuar. É delete sem contemplações.

O Arquitecto, primeira metade dos trinta, corpitcho bom todos os dias. A conversa começa bem. Tipo inteligente, com sentido de humor e bom gosto. Numa noite de insónia, manda-me uma mensagem. Mas, lá está, dá-me a impressão de que não andamos bem ao mesmo. Estamos num impasse. Está morno. Quase frio.

O Louro Alto que se julga o Pequeno Príncipe, só que em versão sei-que-sou-bonito-e-safado. Começámos a trocar farpas sem grande consistência, mas a coisa arrasta-se e ele nunca me deixa sem resposta. Tem namorado, diz ele - e eu julgo que até sei quem é, um moreno de parar o trânsito -, mas ainda assim está cheio de graças para o meu lado. A dar alguma coisa, vai ser só putaria da grossa.

O Gestor de linha férrea, seja lá o que isso quer realmente dizer. Não é bonito, mas tem um bom corpo e sabe conversar. É dos tipos que mais se interessou por mim, fora a embalagem, nos últimos tempos. Num só dia mandou-me 11 mensagens e não esconde que está muitoooooooooo a fim, mas fá-lo com elegância. Detalhe: tem uma relação aberta com o seu companheiro de há 13 anos... À última da hora inventei uma desculpa para ganhar tempo. Acho que vou sair de fininho enquanto ainda posso. Não tenho pedalada para estas coisas muito modernas.

O Antropólogo, a mesma idade, com namorado na Polónia. Diz que quer ser meu amigo, mas não arrisca um "desta água não beberei". Estou fascinado com a sua inteligência, com o seu sentido de oportunidade e pela forma como me desafia. É daqueles que dá luta e isso deixa-me muito, mas mesmo muito curioso. Está-me a conquistar pelo cérebro e isso é perigoso. Não sei onde isto vai dar. Vamos jantar na sexta.

O Contabilista, idade de Cristo, bem menos sonso e inocente do que parece ao primeiro olhar. Está louco para arranjar um namorado, o que me deixa de pé atrás. Não me atrai, mas ainda assim, e como tratou logo de me passar o seu número e de insistir imenso para irmos beber um café, eu lá resolvi tentar. Na hora, o tipo fez-se de caro e depois desculpou-se imenso. Fiquei fulo. Purgatório com ele.

O Investigador na área de Humanidades, com apenas 24 anos. Sacrilégio. Não era, não é, meu propósito envolver-me com alguém tão novo. Abro uma excepção e, desde logo, a primeira conversa revela várias afinidades... Desde então, a afinidade não pára de crescer e ele revela uma maturidade que eu não estava à espera. Tenho imensas reticências, mas não nego que a coisa está a tomar um rumo inesperado. Marcámos um café na quinta.

A lista é extensa e nem sequer está completa. A avaliar pelo tamanho da encrenca em que me estou a enfiar, muitos, não duvido, dir-me-ão que mais valia, por ventura, eu dar ouvidos a quem não perde tempo com floreados ou converseta de salão e vai directo ao que (lhe) interessa: "gajo, gostava de foder contigo". Pois é, acontece que eu gosto de preliminares e de jogos de salão.
"Oh God, make me good, but not yet!".