31.8.08

Au fil des jours

River Phoenix e Keanu Reeves em My Own Private Idaho


I don't care if Monday's black
Tuesday, Wednesday - heart attack
Thursday, never looking back
It's Friday, I'm in love

Monday, you can hold your head
Tuesday, Wednesday stay in bed
Or Thursday - watch the walls instead
It's Friday, I'm in love

Saturday, wait
And Sunday always comes too late
But Friday, never hesitate...
(Friday I'm in Love, The Cure)




Pela boca morre o peixe. Nunca dizer nunca, não vá o Diabo tecê-las, tornou-se uma espécie de postulado dos nossos dias, uma superstição - lagarto, lagarto, que o Diabo seja cego, surdo e mudo - a que nem os descrentes escapam incólumes. Ninguém quer morrer pela boca. Ninguém quer ser apanhado em flagrante negação. Não sendo eu a excepção que desdiz a regra, sexta-feira passada caí em contradição. Fi-lo por impulso, mas suficientemente consciente para não me agarrar à primeira desculpa esfarrapada. Fi-lo porque cheguei ao chamado ponto do não retorno, e entre dar o dito pelo não dito ou deixar alguém de quem gosto na mão, eu posso até hesitar, mas não vacilo. Fi-lo não porque a isso me levaram, mas porque a isso eu deixei que me levassem. Porque na vida, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, todos nós somos postos à prova. E é ai que deixa de ser apenas uma questão de saber viver com as nossas escolhas para passar a ser também uma questão de aprender a viver com as implicações dos nossos actos. Podemos teimar em viver pelas regras que a nós mesmos impusemos. Ou não. Na sexta-feira passada caí em contradição. Mas sou Homem o bastante para não fazer disso uma excepção. Desdizer-me-ei tantas quantas as vezes em que me permitir a liberdade de voltar atrás. Entre uma página imaculada, sem borrões, e uma página reescrita, com emendas e rasuras, agarro a última. Há erros grosseiros que se evitam. Mas há outros que só o são se assim os entendermos. Sexta-feira passada não caí em contradição. Tão-só não permiti que o medo de errar me impedisse de viver o momento.

26.8.08

Esperando aviões - Parte III

O "meu" voo SP-BH prestes a decolar de Congonhas. By Latinha

I find you in the morning
After dreams of distant signs
You pour yourself over me
Like the sun through the blinds
You lift me up
And get me out
Keep me walking
But never shout
Hold the secret close
I hear you say

(Cuts You Up, Peter Murphy)



Salto da cama ao toque do despertador, sem delongas e sem dar sequer tempo ao corpo de fazer manha. Ainda assim, Latinha faz-se anunciar antes do que previa ― por um triz, escapo à suprema vergonha de ser surpreendido de cabelo em pé, amarfanhado e a cheirar a ontem. Abro a porta. Aquele rosto, de sorriso escancarado, é-me extraordinariamente familiar, por mais que esta seja a primeira vez que estejamos, para valer, frente a frente.
Noutros tempos, é bem provável que eu e o Latinha trocássemos longas cartas, que demorariam semanas (quiçá meses) para chegar aos seus respectivos destinos, e nos tratássemos por “meu muy estimado amigo”. De certa forma, parece-me, há qualquer coisa nas nossas condutas e posturas que nos faz continuar a sentir, não raras vezes, como ovelhas tresmalhadas entre pares ― e foi isso, mais até do que a feliz coincidência de escolhermos o mundo de Oz e a estrada de tijolos como analogia para uma nova fase das nossas vidas, que nos aproximou ― e a sentirmo-nos fora de contexto, ou, em outras palavras, lost in translation.

Ironia ou não, o facto é que foram, precisamente, as novas ferramentas do mundo moderno a permitir que, no espaço de um ano e pouco, nos tornássemos amigos e, até certo ponto, confidentes. Por isso, naquela manhã parda de uma São Paulo a prometer (finalmente) chuva, dei-lhe um abraço, puxei-o para dentro e tratei de o instalar, dispensando maiores cerimónias, numa cadeira enquanto me continuei a barbear. Latinha saíra ainda de madrugada da sua cidade, mas não acusava o menor vestígio de cansaço. Pelo contrário, mostrava-se ansioso em retomar a conversa no ponto onde havíamos parado dias antes. E foi o que fizemos. Não mais por MSN, por e-mail, por Skype ou até de webcam ligada, mas como dois antigos roomates que se reencontram. A grande diferença foi que desta vez, para variar, não tivemos nem um Atlântico, nem um fuso ingrato de cinco horas a separar-nos.

Alguém se lembra de Os amigos de Alex (The Big Chill no original)? Este filme de Lawrence Kasdan marca-me até hoje. E, por curioso ou inusitado que vos possa parecer aqui a referência, o certo é que a minha passagem por São Paulo, que serviu de pretexto para estar com o Latinha, teve ainda um outro efeito colateral que me trouxe à memória esse filme. No estranho (e fabuloso também) mundo à parte dos blogues estabelecem-se afinidades e ligações que desafiam a lógica. Quando me iniciei em A Metamorfose de Oz, não tinha de todo a intenção de fazer amigos; muito menos de me dar a conhecer. Só que a vida troca-nos as voltas e, sem que me desse conta, fui quebrando, uma a uma, várias regras que me tinha imposto.
Além do Latinha, o Edu foi outra das pessoas que me "obrigou" a reconsiderar a minha postura e a baixar as defesas. O meu contacto com Edu extra-blogue é limitado, para não dizer mesmo escasso, ainda assim ele soube conquistar um espaço entre os meus afectos pelo seu humor certeiro, pela forma como encara a vida, pelos seus valores e, muito importante, como, de uma maneira ou de outra, ele arranja sempre maneira de se fazer presente. Latinha e eu brincamos que Edu é uma espécie de guru para nós, pois durante muito tempo fomos (e ainda somos, até certo ponto) os dois “gays” mais teóricos até onde a vista alcança nesta vasta blogosfera.
Na realidade, eu não sou muito de pedir conselhos, mas gosto de observar (mesmo que a uma distância segura). Edu, juntamente com Ricardo ― ora ai está outra figura-chave, já falei dele antes; ao contrário de Edu, não chega de mansinho, pois entrou de rompante na minha vida, soube antes de mim que íamos ser amigos e não esmoreceu quando me mostrei, tantas vezes, esquivo e arredio; hoje, além de um querido amigo, é também alguém que me ensina a não ser tão definitivo nas minhas apreciações ―, é quem está mais próximo de mim na faixa etária, mas olho para ele, e para a relação cúmplice e equilibrada de quase 9 anos que tem vindo a construir com o M. (aka Bichinho ou Mau-Mau), e não deixo de me sentir um quase “adolescente tardio”.
Excelente a tarde e noite que passámos juntos: Edu e M. vieram-nos buscar ao nosso hotel na Paulista e levaram-nos a passear pela “sua” São Paulo mais a norte. Fomos dos primeiros a visitar a casa nova, a experimentar as poltronas acabadas de estrear e a partilhar o leito da cama super king size (nada de pensamentos impuros, que só estivemos sentados à conversa e a troçar do ar desconfiado do vizinho da frente…). Fomos também voluntários na importante missão de testar a qualidade das pizzas locais.

Na manhã seguinte, eu e Latinha fizemo-nos à estrada. À nossa espera, em Campinas, tínhamos Z., amiga do Latinha há uns bons anos, uma daquelas pessoas que nos conquista desde o primeiro momento. Além de nos abrir as portas da sua casa por uma noite, Z. foi uma anfitriã que me guiou, apesar do tempo chuvoso, por lugares da sua cidade como a feira dominical de artesanato, o Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim ou o restaurante Bráz. Mas, mais até do que isso, o que me cativou mesmo foi a sua disponibilidade para a vida, o seu olhar arguto e a sua mentalidade transversal. Falámos das nossas sexualidades sem tabus e sem falsos pudores. Rimos, brincámos e levei, pela primeira vez, eu acho, a sério alguém que me aconselhou a enfrentar o divã do psicanalista.

Até agora, só tenho falado dos encontros que aconteceram durante esta viagem, mas também houve desencontros. O primeiro deles ocorreu com o Jackson, que, na última chamada, não se deu. Já combinámos que ficará para uma próxima. O segundo foi com alguém que insiste em não sair da minha vida, mas que, nos momentos cruciais, não se comporta como um amigo, o que dirá de quem se diz com pretensões a ser muito mais do que isso. O terceiro, para ser justo, não chegou a ser bem um desencontro, pois, vendo a frio, só eu ponderei seriamente a ideia de um encontro. Não é muito do meu feitio correr riscos, sobretudo quando há luzes encarnadas a piscar e já fui avisado, mais do que uma vez até, a não tomar aquele atalho.
Ainda assim, trocámos várias mensagens telefónicas durante quase toda a minha estada no Brasil. É um jogo sem fim à vista, para já. Há afecto (e cumplicidade até onde ele deixa e eu estou disposto a ir), mas uma coisa chamada tesão impede-nos de sermos só amigos ― e seria, acreditem, muito mais fácil (e sensato) para os dois se nos ficássemos pela amizade. Mas não dá. Já tentei ser uma espécie de irmão mais velho, de me ficar pelo papel seguro de quem vê de fora, mas, a dado momento, a coisa resvala sempre para uma tensão que pede cama. Pergunto-me agora se algum dia ele terá maturidade, coragem e foco para sair da toca do lobo e se mostrar de corpo inteiro, despido de artifícios e ciente de que a paixão, como a vida, terá sempre o seu quê de impoderável.

Por fim, e após um breve retorno a Belo Horizonte, regresso a casa com muitos mais quilos na mala ― entre outras coisas, não resisto a trazer vários pares de sapatos e ténis. Em compensação, estou mais magro. Não suficientemente magro, mas já naquele ponto em que a minha mãe vai olhar, desconfiada, para o fundo das minhas calças e achá-lo com pano a sobrar... Mas, coração de mãe, é sabido, fraqueja; o mesmo já não posso dizer, infelizmente, dos Aussiebum e dos Blueman guardados na gaveta, que não enganam nem fazem favores. Santa futilidade, dirão alguns. Não se apoquentem. Esta viagem deu-me tempo de sobra para (re)pensar algumas coisas. Ainda não sou o homem que gostaria de ser, mas também já não sou mais o Homem que era ontem. Sei por onde vou, só não sei quando vou lá chegar.

Fim

18.8.08

Esperando aviões - Parte II

Por Jordi Labanda

I’m only human
Of flesh and blood I’m made
Human
Born to make mistakes

(Human, Human League)


Deixo Belo Horizonte ao final da tarde, já com a sensação de que ficam para trás rotinas, lugares e pessoas que se tornaram por demais familiares nos últimos dias. O meu avião para São Paulo imobiliza-se na pista de Confins quase uma hora, à espera provavelmente do okay de Congonhas, mas isso, por mais que me irritem atrasos de última hora anunciados aos bochechos, em nada interfere com os meus planos. Amigos e conhecidos estranham a minha escolha. Para eles, o lógico seria eu ir de malas aviadas para a Bahia, talvez para o Rio, mas não para São Paulo, essa metrópole desmesurada, com mais habitantes do que Portugal inteiro, conhecida pela sua neblina fina e pelas libelinhas ruidosas que riscam os céus ― tantas que a capital paulista só perde para Nova Iorque ― na esperança de fintar o famigerado trânsito. Em São Paulo, todas as horas são de ponta.
Mas eu gosto de São Paulo. Aliás, já gostava de São Paulo ainda antes de ali colocar os pés pela primeira vez, há uns bons anos. Logo, volto sempre que posso. Como todo o bom urbano-convicto, eu não me intimido com ruas maltratadas, gente a mais, condutores mercenários ou criminalidade. Não me incomoda também o lado anónimo da grande cidade, porque em (quase) todas elas eu sou capaz de traçar a minha geografia afectiva. É um facto, raramente fico sozinho em São Paulo ― e sim, isso faz muita diferença na hora de a enxergar a uma escala mais humana ―, mas eu gosto da arquitectura, dos restaurantes, das livrarias, das lojas, dos museus, do teatro, dos “inferninhos” da Augusta…

Três noites e dois dias. Não é muito para matar a saudade. Não vai dar tempo de passar no Ibirapuera, de comer no libanês do Paraíso, de ficar indeciso na padaria do Benjamim Abrahão, em Higienópolis, de me tentar com os pastéis do Zé, em Pacaembu, ou de me esbaldar na happy hour da Vila Madalena, mas, em compensação, não falho a taça de açai gelado na esquina da Augusta com a Oscar Freire, nem os meus pousos de sempre na Lorena, onde gosto de ficar à conversa com os empregados da Cavalera, de beber o expresso com muffin do Suplicy ou de me perder por entre as estantes da Livraria da Vila ― não é tão grande, nem tão diversificada, como a Cultura da Paulista, mas tem um traçado e uma disposição primorosos.
Na primeira noite, chego já tarde e sem disposição para uma balada feroz. Gosto de andar a pé, mesmo fora de horas e em São Paulo; aproveito que não estou longe, e que o espaço fica aberto até tarde, para ir comer o hambúrguer premiado do Ritz. Os mais poupados dificilmente acharão bem empregue o dinheiro que se paga por um pedaço de carne embrulhado em pão, mas os hambúrgueres do Ritz inscrevem-se na não-tão-nova-assim lógica de fazer de um prato rápido algo mais caprichado e (quase) gourmet. A carne é muito tenra, desfaz-se na boca, e a clientela… bem, a clientela da casa na Alameda Franca é famosa por ter feito dali um animado e concorrido point gay. Saboreio a carne, poupo a garganta ainda inflamada com um suco de abacaxi com hortelã e deixo-me ficar, entretido, a observar as manobras de diversão dos rapazes, a solo, em dupla ou em matilha. A noite está só a começar para eles, mas para mim o dia vai longo. Cama.

Sexta-feira. Passo os olhos rapidamente pela Veja São Paulo e, quando dou por mim, já vou a meio da Augusta à cata de ingressos para essa mesma noite. A crítica não poupa elogios à Festa de Abigaiu, uma peça adaptada a partir de um texto de Mike Leigh ― realizador de Closer, um dos meus novos “clássicos” ―, em cartaz há um ano. Confesso que, à partida, não sou grande entusiasta de comédias, mas esta, sobretudo na metade final, acabou por me arrancar umas boas gargalhadas.
Ainda não é meia-noite quando saio para a rua, mas a Augusta já está num frenesim de dar gosto. Não posso dizer que me sinto totalmente tranquilo por ali, mas o meu lado assumidamente voyeur sempre leva a melhor. Aquela coisa decadente do chamado Baixo-Augusta, na Consolação, outrora point da Jovem Guarda e zona chique na década de 1970, continua a ter muito de Boca do Lixo, que os apreciadores de uma estética trash-cult têm sabido manter. Gosto daquela mistura explosiva de cerveja barata e clubes nocturnos de putas e michês (os nossos chulos). Pelo meio ficam vários “inferninhos” dignos de nota, como é o caso do Vegas.
O Vegas foi-me apresentado por uma amiga paulistana há uns dois anos e desta vez, mesmo sem estar na cidade, ela não desarmou. Como ainda era cedo, comi à pressa uns temakis que não me deixaram saudades e lá me fui colocar na fila para entrar no Vegas ― muito organizada, a minha amiga havia-me colocado na lista de entradas dessa noite, mas eu esqueci-me de confirmar… Entrei à mesma. O Vegas mudou a decoração e, dizem as más-línguas, está a tentar imitar a iluminação do D-Edge. Os “informantes” da minha amiga, parece, também não aprovaram por completo a frequência da casa nessa noite, mas eu, que não sou freguês habitual, não quis nem saber e joguei-me na pista de copo na mão.
Achei o Vegas, liberal por vocação, muito mais gay do que da última vez, mas confesso que gostei de ver os dois “ursões”, que destoavam da maralha, a passar de mão dada sempre que iam aviar mais um copo ao bar. Lá pelo terceiro vodca com energético ― misturado com uma dose cavalar de Naldecon, não fosse a gripe querer ser mais teimosa do que eu… ―, o DJ de serviço é atacado por uma onda de nostalgia e vai repescar, mas com a devida batida techno, um clássico dos late 80’s. Não devo ser o único da casa a reconhecer Human, dos Human League, pois canta-se em uníssono. Eu bem tento juntar-me ao coro, mas, na altura do refrão, a voz atraiçoa-me ― grande maldade… sabe-se lá quando volto a ouvir Human League num porão escuro...
Só sei que o vodca, os Human League, as luzes, tudo junto, desviaram o meu foco para um casal. Estou para saber até hoje se eram namorados, mas isso também não vem ao caso. A cumplicidade entre eles era evidente. Ela, muito bonita, tinha um dragão enorme tatuado nas costas nuas, já ele apresentava-se com um look no melhor estilo “bom rapaz, mas tenta-me e verás”, e era igualmente delicioso ― pelo menos, àquele adiantado da hora, pareceu-me… Não me perguntem como, só sei que ― shame on me ― me insinuei claramente para eles. Já estava quase colado aos dois a dançar quando o meu alarme soou:
- Mas que porra é esta? Onde é que eu quero chegar?
Tudo bem que continuo a ser assaltado por uma certa ambiguidade, mas daí a envolver-me num triângulo de vértices pouco definidos não me pareceu o melhor caminho. Não agora. Não ali. Discretamente, bati em retirada antes que fosse tarde demais. Assim como assim, tinha a desculpa de não me poder esticar muito na noitada… Afinal, ainda antes das sete da manhã teria o Latinha a bater-me à porta do quarto…

(continua…)

11.8.08

Esperando aviões - Parte I


E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
(
Esperando Aviões, Vander Lee)



Jeans brancos. Botas, camisa e blusão pretos. Acho que já passa das dez da noite quando me vou encontrar com eles. A Cantina do Lucas fica dentro do edifício Maleta, antigo reduto da boémia mineira, mas não os acho de imediato nas mesas do lado de fora. Toca o telefone. Aliviado, levo a mão ao bolso das calças e atendo; não me apetece nada ficar ali, especado, a revistar um por um todos os rostos até encontrar algum que me seja vagamente familiar ― claro que ser míope, e insistir em sair para a rua sem lentes, também não facilita a tarefa! São duas da manhã em Portugal, mas em casa querem saber se cheguei bem ― sim, cheguei bem.
Nisto, vejo alguém, que reconheço das fotografias, levantar-se de uma das mesas e acenar para mim. É o Ricardo. Será ele o primeiro que abraço. Ser o último a chegar ― a bem da verdade, não fui o último, já que Ludo e J. chegaram depois, mas deles falarei mais à frente ― tornou aquele momento menos óbvio do que esperava. Mas há, por mais que já tenhamos falado com aquelas pessoas antes, que já as tenhamos visto em fotos ou que até saibamos detalhes da sua vida pessoal que muita gente mais íntima desconhece, coisas que precisam de um tempo para acontecer. Todos se conheciam entre si, já tinham bebido o primeiro copo de cerveja gelada e não precisavam de articular o seu português para se fazerem entender. Eu, sabia-o desde o início, é que vim baralhar um pouco as regras do jogo e introduzir um elemento de novidade no grupo – um papel que, convenhamos, tirando uma certa timidez que ainda me deixa sem graça nos minutos iniciais, me agrada.
Assim que nos acostumámos à presença física uns dos outros ― curiosa, muito curiosa, essa coisa de termos um retrato robô pronto, que é preciso agora ajustar à pessoa que passa a estar, ao vivo e a cores, na nossa frente, do nosso lado… ―, e que eu desacelerei o meu sotaque lusitano, tudo fluiu naturalmente. E o resto do serão, na companhia do Ricardo, do Marco, do Leandro, do Ludo, de J. e de outras pessoas que se juntaram a nós, foi o que era suposto ter sido: um encontro de amigos e uma forma muito prazenteira de eu assinalar o meu regresso a Belo Horizonte.


O apartamento de Marco, onde ficaram Ricardo e Leandro, acabou por funcionar como quartel-general, onde as tropas se reuniam, em amena cavaqueira ― na verdade, as conversas eram calorosas; amena esteve quase sempre a temperatura em BH, apesar dos protestos veementes da infantaria carioca, habituada a um Inverno de trinta e muitos graus! Rsssss ―, ao redor de taças de sorvete com generosas colheradas de doce de leite Viçosa (um vício de Marco altamente contagiante, tanto que eu, antes de me ir embora da cidade, fui ao Mercado Central abastecer-me de tão precioso levanta-moral). Como Marco é um rapaz recatado(?), estou, até hoje, em crer que o entra e sai de tanto homem junto naqueles dias terá provocado um ou outro franzir de sobrolho na portaria do prédio. Mas tudo decorreu sempre no maior decoro… até mesmo naquela manhã de domingo, em que eu, Marco e Ludo, depois de termos varado a madrugada na Jô ― a mais badalada e elitista boate gay da capital mineira, com direito a descamisados sem ruga no peito nem prega no colarinho, gogo boys rebolativos, cenas a três, cenas a dois e cenas múltiplas, mas sem que ninguém se tenha de sentir desconfortável por isso ―, irrompemos pelo apartamento e acordámos Ricardo, Leandro e Arthur na batucada (os dois primeiros ficaram de molho devido ao clima “ameno”; já Arthur, o namorado de Marco, aproveitou a desculpa para ficar a dormir que nem um justo). Para compensar, havíamos passado antes na padaria e comprado pão fresco e broa mineira (que, para minha surpresa, leva coco!) para o primeiro café do dia da rapaziada. Vencidos pelo cansaço, Marco e Ludo, que já foram namorados e hoje são os melhores amigos, "apagaram" na cama de casal; não sem antes me oferecerem, encarecidamente, uma vaga. Achei melhor declinar o convite, não por nós ― que somos todos rapazes de família! Rsssss ―, mas por ter a certeza de que não se escapa incólume duas vezes de uma situação embaraçosa.
[Momento rewind: final de noite na Jô, ainda tomados pelo álcool, eu e os rapazes achámos por bem realizar, como lhe poderei chamar sem melindrar os profissionais do ramo?, uma pequena performance num dos queijos onde antes tinham actuado os gogo boys].
Dessa vez, felizmente, não houve fotos para mais tarde recordar, mas desta feita eu sabia que não teríamos a mesma sorte, pois o “capeta” andava de máquina à espreita… Fui flagrado sim, mas sozinho, no sofá da sala, antes de me levantar estoicamente para acompanhar os madrugadores de plantão numa incursão à feira dominical da avenida Afonso Pena ― e lá fui eu, não muito viçoso, mas ainda assim airoso, sem óculos escuros para aliviar a ressaca, de caveira ao peito e correntes à cintura!


“Meu pai é que tinha razão… Como é que uma pessoa do meu nível social e intelectual poderia ficar com uma bichinha afectada como você”. Estou sentado a duas mesas de distância, mas ainda assim ouço, sem esforço algum, todo o desenrolar da novela que ele, “a bichinha afectada” em pessoa, conta com detalhes sumarentos.
Na realidade, ele fala para os seus dois amigos, um homem e uma mulher que mal abrem a boca, mas o seu tom de voz faz com que boa parte dos transeuntes da calçada, dos restantes clientes e dos empregados que àquela hora serviam à mesa no Café com Letras, um espaço para lá de simpático na Antônio de Albuquerque, ficasse a par do seu desaire amoroso e de como o “namorado o maltratava só pelo facto de deixar a escova de dentes molhada na mesa”…
BH é hoje, para minha relativa surpresa, uma cidade cada vez mais gay friendly. Claro que não nos podemos deixar iludir pelas aparências, até porque os mineiros são conhecidos pelo seu conservadorismo, mas o certo é que, além de se multiplicarem na cidade vários espaços assumidamente gays, é fácil detectar na rua ― e em pontos públicos tão diversos como o Mercado Central ou a Feira de Artesanato, que possui mesmo um Ponto G! ― a presença de “colegas”.
E isso, às vezes, acontece mesmo em lugares inusitados, como é o caso do MP5, um clube-galeria, lá para os lados da avenida Raja Gabaglia, onde insisti em ir numa terça-feira à noite. Nem Marco nem J. conheciam o espaço, mas a minha experiência anterior tinha-me revelado um local animado, com boa batida electrónica e gente bonita. Chegados ali, não demorámos nem cinco minutos a perceber que a casa, além de meio vazia, estava por conta dos rapazes. Rapazes que gostam de rapazes, entenda-se. Enfim, não arrepiámos caminho de imediato, dançámos, fizemos por não entrar em rota de colisão com a “loura alucinada”, tirámos as fotos da praxe ao colo do patinho cintilante da entrada – não tirem conclusões precipitadas, o pato é uma graça! Rssssssss ― e acabámos num posto de abastecimento, a aquecer cachorros com molho cheddar no microndas. De brinde, além de animarmos a noite dos pobres miúdos que trabalhavam sem música no posto, ainda levámos para casa porta-sapatos.


Nesta minha passagem por “Belzonte” ― piores do que nós, portugueses, para “engolir" sílabas, só mesmo os mineiros, sobretudo os do interior, que ainda assim têm um sotaque cantado delicioso ―, fui quase sempre apresentado como “amigo do Marco”. O Marco, é bom que se diga, além de excelente pessoa, é um advogado que trabalha no duro para se afirmar, orgulho do pai, da mãe e dos amigos. Marco é também discreto na sua postura perante o mundo e a sociedade, mas muita gente à sua volta tem sabido, progressivamente, da sua orientação sexual. Logo, ser apresentado como “amigo do Marco” acabou por ter um peso e por, desde cedo, me dar uma “cor” à qual não estou habituado.
Não vou dizer que encarei isso de ânimo leve, mas, pela primeira vez na minha vida, aceitei não fazer disso um cavalo de batalha. Aceitei, inclusive, que muitas daquelas pessoas, que não tinham qualquer juízo prévio a meu respeito, fizessem as suas deduções. Se me incomodou? Incomodou um pouco, não vou mentir, mas ajudou-me também a constatar que a grande maioria daquelas pessoas encara a homossexualidade de forma aberta. Tão aberta que se permitem mesmo fazer algumas piadas a respeito, o que é sempre bom para quebrar o gelo.
Entre todas elas, houve uma com quem acabei por conviver de muito perto, até porque foi ela, na ausência de Marco ou Ludo, a minha grande companhia nas tardes de ócio. J. é o que se pode chamar, se quisermos colocar um rótulo, de fag hag, uma espécie de Grace na vida do Will/Marco. A cumplicidade entre os dois é algo muito bonito de sentir, mas foi um processo que exigiu amadurecimento de parte a parte: J., como tanta mulher que se vê rodeada de gays e passa a fazer disso uma realidade, demorou a perceber que tinha de ter a sua vida, os seus amigos e os seus amores fora deste círculo restrito; Marco aprendeu que pode tê-la sempre por perto, mas que há coisas que ela precisa viver sem tê-lo ao pé para apagar os fogos.
Conversei muito com J. Passeámos no shopping, tomámos chocolate quente no Kahlua, almoçámos no Minas Clube, estivemos na sua casa a ouvir música, a ver fotos de família… Ela falou-me dela e quis saber de mim. E eu, que gosto tanto de observar as mulheres, de ver com elas mexem no cabelo, como se movimentam, como tocam, fiquei fascinado com a espontaneidade e a graciosidade de J. ― mesmo quando a flagrava a tentar medir a minha reacção à passagem de outros homens ou quando ela, sem dar parte de fraca, armou um encontro “casual” entre mim e um seu vizinho gay… J. tornou-se, em poucos dias, uma amiga querida e devolveu-me a certeza de que eu, por muitas voltas que a vida dê, vou sempre viver rodeado de mulheres. Elas fazem-me muito bem.

(continua…)

21.7.08

I'll show you mine if you show me yours


Are you ready to play the game
Ready to lose it all

Sure you want to play

This Tainted love?

(
Tainted love, Kwan)


Tenho uma amiga que não suporta O Sexo e a Cidade. E, no entanto, não me surpreenderia nada se viesse a descobrir que muitas daquelas gagues deliciosas foram inspiradas na sua desvairada vida amorosa. Sim, essa minha amiga tem aquilo que podemos chamar de "queda" para o desastre. Chegada à encruzilhada dos trinta, ela é a encarnação perfeita da mulher moderna, independente e bem resolvida sexualmente que, sem perder a graça, mas já meio cismada quanto às suas opções de vida, se começa a interrogar: "será que tenho apostado nos cavalos errados?"

Parece que não está nada fácil às mulheres arranjarem um homem decente nos dias que correm. Não querendo ser cínico, eu diria que, no caso dela, não ajuda muito o seu humor afiado como uma navalha - aliás, arriscar-me-ia a acrescentar que só há uma coisa que deixa os machos de plantão mais vulneráveis do que se sentirem presas de uma mulher sexualmente activa; que é o de se sentirem alvo da chacota de uma mulher inteligente. É que esta minha amiga têm o péssimo hábito - mas que nos poupa a nós, os amigos, a tarefa ingrata de troçar dos seus namorados às escondidas - de ser a primeira a fazer piadas de um namorado que se revele mais desajeitado, não hesitando mesmo em dar-lhes petit noms nem sempre muito lisonjeiros. Tal pode ser encarado como meio caminho andado para o desaire amoroso, mas não é isso que está em causa.

Confesso que, às vezes - mea culpa, assumo, não é só às vezes, mas o que querem se, tratando-se dos amores alheios, eu sou de uma clarividência quase sempre certeira... -, me falta paciência para fazer, pela enésima vez, o papel de confidente sobre amores que cedo revelaram - pelo menos aos meus olhos, mas, que sei eu, afinal sou míope... - não ter pernas para andar, mas, shame on me, sou dos primeiros a soltar a gargalhada quando ela, com o seu seu jeito muito "Fernanda Young" de ser, abre a caixa e começa a desfiar o rosário de "acidentes de percurso". Num destes dias de muito calor, estávamos nós os dois na praia, a torrar ao sol, quando ela se sai com esta pérola:
- "ah, Oz, teve um tipo com quem sai por pouco tempo, um homem bem bonito por sinal, que, numa das vezes que me chamou para conversar no MSN, perguntou se podia ligar a cam... Eu respondi que sim, mas não esperava que ele fosse começar a despir-se... Pior, a dada altura, e sem me dar sequer tempo para reagir, quando vi já ele estava a bater uma!!!! Nossa, acho que nem consegui dormir direito nessa noite..."

Eu, que conheço bem a amiga que tenho, não resisti a provocar:
- "Hummmmmmmm, confessa, não foste apanhada tão desprevenida quanto isso... Quase aposto, tu bem deves ter dado corda ao desgraçado para ele se enforcar, confessa..."

Ela, que me conhece, mas não tão bem quanto julga, não se deu por achada:
- "Ah, sabes como é, né, rsssssssssss... Mas, sério, eu realmente não tinha previsto aquilo...Agora, admito, claro que não resisti a contar a alguns amigos. Os meus amigos gays, então, ficaram histéricos e só me diziam 'gente, pensava que esse tipo de coisas só aconteciam connosco!'. Ai, tu sabes que eu não presto mesmo, quase que fiquei tentada a chamar alguns deles lá a casa na segunda vez em que ele fez o seu showzinho para mim... rsssssssssss!"

Eu, como quem não quer a coisa, sacudi a água do capote:
- "Tu não prestas mesmo! rsssssssss E esses teus amigos, hein, não se cansam nunca de ver um homem com as calças arreadas! rsssssssssssssssssss"

É, por estas, e por outras também que não vêm agora ao caso, a mim, que sou moderno-mas-não-tão-moderno-assim, muito dificilmente me apanharão algum dia com as calças na mão fora de contexto adequado... Sim, tenho medo de ir parar ao youtube, sim, não me agrada a ideia de cair na boca do povo... Mas, mais do que isso, eu sou mesmo é, tratando-se de baixar as calças, um tipo à moda antiga. Chamem-me puritano, mas eu ainda sou daqueles que, à falta do lugar certo, prefere ficar-se pelo implícito. Além de que já passei da idade para me contentar com puerilidades do género "mostro o meu se tu me mostrares o teu". But I'm sorry I don't pray that way. Para mim, as coisas resolvem-se com as cartas na mão, sem trunfos escondidos nas mangas. E ai ou se paga para ver ou não. Como quem diz: "ajoelhou, agora vai ter de rezar".


7.7.08

Ex, mas pouco...


Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...
(Codinome Beijaflor, Barão Vermelho feat. Cazuza)


Para onde quer que me vire, nestes dias, parece que há sempre alguém, mais ou menos próximo, às voltas com um(a) ex... E ai, ao ouvir Cazuza (sim, Cazuza tem esse efeito em mim...), interroguei-me: o que, em sã consciência, nos poderá levar a manter um(a) ex nas nossas vidas? Pensei, tornei a pensar, pensei melhor e cheguei à conclusão que só pode ser por:
  1. Terceiros, porque se há filhos, mais tarde, ou mais cedo, vamos ter de levar com 0(a) ex. Há também quem partilhe a custódia do cachorro.
  2. Amizade, porque, antes de tudo, o(a) ex é nosso(a) amig0(a). O sexo foi, é e será apenas um prolongamento disso.
  3. Egoísmo, porque o(a) ex se tornou o nosso plano B e por isso recusamo-nos a abrir mão dele.
  4. Despeito, porque não tivemos a última palavra e isso deixa-nos P da vida. Queremos reconquistá-l0(a) só pelo gostinho de provarmos [a nós, a ele(a) e aos outros] que somos capazes de virar o jogo.
  5. Masoquismo, aquela pessoa não nos quer mais, mas nós achamos que não seremos capazes de viver sem ela. Daí, inventamos mil pretextos para não sair de perto e estamos até dispostos a viver de migalhas.
  6. Masoquismo + Despeito = dar o troco. Aquela pessoa dispensou-nos, mas ainda assim nós insistimos em não sair por completo da sua vida. Espiamos as suas entradas e saídas no hi5, no orkut, colocamos amigos comuns ao barulho e, quando finalmente não restam mais dúvidas de que ele(a) já tem outro(a), cometemos a suprema desfaçatez de lhe tentar fazer ciúmes.
  7. Pena ou sentimento de culpa, porque o(a) ex ficou um farrapo após a separação e nós sentimo-nos responsáveis.
  8. Princípio, porque metemos na cabeça que ficar amigo do(a) ex é uma demonstração de grande maturidade e civilidade da nossa parte.
  9. Preguiça, porque o(a) ex já faz parte da mobília e mudá-la de lugar dá muito trabalho.
  10. Impedimentos legais, porque no desvario da paixão acreditámos que seria para sempre e, como tal, não pensámos que poderíamos um dia vir a ser co-responsáveis pelas suas dívidas. O(a) ex torna-se um estorvo, mas, na impossibilidade de o(a) mandar para o diabo que o(a) carregue, só nos resta o consolo de o(a) imaginar nas piores e mais inenarráveis formas de humilhação pública. Queremos sangue. O seu sangue.

30.6.08

O síndroma da cama vazia


Soy un perdedor
Im a loser baby, so why dont you kill me?

(Loser, Beck)


Take 1
Sexta-feira à tarde. O termómetro marca mais de trinta graus. Deixar o trabalho em banho-maria para me escapulir com a amiga a tiracolo rumo à praia tem, de repente, aquele mesmo gostinho a travessura de quando, ainda adolescente, fazia gazeta às aulas para me enfiar numa matiné do King ou do Quarteto. Pena que tanta gente tenha a mesma falta de sentido de dever... O comboio para Cascais já sai do Cais do Sodré sem um único lugar vago. Saltamos na estação certa e caminhamos um pouco. Felizes da vida por Lisboa, com todos os seus defeitos, ainda nos proporcionar prazeres simples como este, que é o de ter várias praias a meia-hora, se tanto, de distância. Em lugar da brisa, que seria bem-vinda, o vento que se levanta varre o areal, soltando grãos de areia que fustigam a pele. Depois de lagartear ao sol, vamos à água. Está fria. Está estupidamente fria. Ela não se atreve para lá do tornozelo, eu insisto. Ela aplaude a minha bravata. Deixamo-nos ficar depois, enrolados nas toalhas, à conversa. Diz-me ela:
- Cheguei à conclusão que nós, mulheres, na ânsia de querermos ser modernas, muitas vezes não conseguimos mais do que ser modernosas. Ficamos a tentar provar aos homens que também somos capazes de ser desprendidas, que podemos encarar o sexo da mesma forma que eles, mas, a verdade é que não somos assim e não temos de o ser. Estamo-nos a violentar! Temos de deixar de ter vergonha e dizer que aquilo não nos basta e que queremos mais.
Confesso que não a levei muito a sério. Não por discordar; mas por achar que, no fundo, aquilo era mais para se justificar do que para seguir à risca. Talvez por isso, ou porque os homens - mesmo os que se dizem capazes de ouvir uma mulher - raramente desviam os olhos do que fica para lá do seu umbigo, enquanto ela falava eu estava mais entretido em comprovar os efeitos nefastos da água gelada na anatomia masculina... Futilidade? Com certeza, mas quem nos pode levar a mal se até mesmo os Beckham desta vida não gostam de ficar mal no retrato quando se exibem em público em trajes menores?!

Take 2
O final de tarde promete. Está-se bem na praia, mas temos sede. Fome também. Recolhemos a trouxa e assentamos arraiais na "nossa" esplanada preferida desde outro dia. Bem de frente para o mar. Enquanto esperamos pelo pedido, ela saca de um livro de Machado de Assis e dá-me a ler a dedicatória que um amigo lhe deixou. Palavras bem articuladas. Palavras de quem a conhece do direito e do avesso. Não lhe faltam homens amorosos na sua vida. Faltam-lhe, quiçá, homens que ela não tenha pressa em amar... Claro que guardo isso para mim.
Primeiro trazem o sumo de maracujá - gelado de fazer estalar a língua, como gosto. Depois trazem a tosta de frango. Reparo que o pão vem cortado em forma de coração. O que aconteceu às velhas e tradicionais tostas em pão quadrado? Há uns bons anos, uma colega minha de universidade perguntou-me se era romântico, ao que lhe respondi, com a ironia possível dos vinte anos, "tenho dias...". Pois tostas em forma de coração continuam a não me comover. Lamento. Mas isso sou eu, um gajo a quem, ainda há semanas, acusaram de, no que toca a manifestações de carinho, "ser de uma frieza quase cirúrgica"... Bom, por mais que isso "faça parte do meu show", a prova de que no meu peito desafinado também bate um coração é que não pude deixar de me sentir incomodado quando, a meio da minha tosta, ela se saiu com o seguinte desabafo:
- Decidi que não vou mais responder ao 'ser humano'... Se ele me mandar e-mail, se ele me procurar no MSN, não vou responder... Nem vou atender o telefone! Isto se ele ligar, o que eu duvido! Mas se ligar, não vou atender também... Bom, talvez atenda, mas só se ele ligar mais de uma vez...
'Ser humano' foi o codinome que ela arranjou para não ter de dar nome aos bois; neste caso um marmelo que ela, por mais que esteja à frente do seu nariz a canalhice (e cobardia, caramba como nós, homens, podemos ser cobardes na hora de sair de cena!), não consegue descartar de vez. E isso aflige-me. Aflige-me que ela, uma mulher atraente, rápida no gatilho e independente, esteja há dois meses sem namorar - um namoro que, diga-se de passagem, durou apenas três semanas - e já acuse o peso (o vazio?) da solidão.

Take 3
Vou a casa tomar banho, trocar de roupa e comer qualquer coisa rápida antes de voltar a sair. Sexta à noite. Encontro marcado no Bairro [Alto] para abrir as hostilidades. Levam-me duas cervejas de avanço. Apetece-nos dançar. A mim apetece-me, pelo menos. Vamos para a Bica. As ladeiras a pique, que ainda há dias mal continham a enxurrada de gente, estão agora mais desafogadas, mas ainda assim, a parca calçada em socalcos está semeada de grupos à conversa. Apostamos no Bicaense, mas a pista está às moscas. Não ficamos e continuamos a descer até ao Lounge. Assumidamente retro, o Lounge está composto e aposta num som à la Pulp Fiction. Mais uma cerveja, mais um brinde a coisa nenhuma. Dançamos. Até que alguém olha para o relógio. Já começam a ser horas de descer aos infernos. Tóquio, Music Box ou Jamaica? Como elas não pagam, são elas que entram primeiro para tirar o pulso às casas. Hesitam, mas, sem grande convicção, lá se decidem pelo Jamaica. Ao contrário daquele bar que passava na televisão, onde toda a gente sabia o nome de toda a gente e onde todos metiam o bedelho na vida uns dos outros, no Jamaica a familiaridade não chega a tanto, mas é o tipo do lugar, desprovido de qualquer graça natural, onde se canta em uníssono a música dos anos 80 que deixou saudades - incluindo a mais foleira; sobretudo a mais foleira - e se tem a garantia de que se sairá, madrugada alta, com a roupa colada ao corpo. Pena que nenhum de nós estivesse verdadeiramente virado para o Jamaica nessa noite. Ainda assim, e com a pista acanhada a rebentar pelas costuras, demos o nosso melhor. Mesmo quando alguém sem noção, como a mulher farta, uma criatura digna de Botero, encoxa libidinosamente à minha frente com um tipo qualquer. Das duas, uma: ou recuo e me reduzo à minha insignificância; ou peço licença e pergunto se posso fazer uma participação especial. Mas ai, a minha amiga, que tinha estado calada até então, aproxima-se e segreda-me ao ouvido:
- Estou a ver ali no meio o futuro pai dos meus filhos!
- Cadê?
- Ali, aquele de cabelinho todo despenteado... (detalhe: o seu ideal de cabelo num homem é algo à imagem do vocalista dos Beirut...)
Estico o pescoço e finjo achá-lo no meio da multidão - "Aham, estou ver..." é o melhor que consigo dizer -, mas quem me pode levar mal se Tainted Love é emendado com Enola Gay. Vou dançar, nem que para isso tenha de abrir espaço a minha volta à cotovelada.

Take 4

Já passa das cinco. A porta não tem descanso e cada centímetro livre na pista é avidamente disputado. Para piorar, há ainda quem esteja convencido que certas coreografias ensaiadas ao espelho são para ser mostradas em público... O mais sensato seria bater em retirada, mas ninguém parece querer ser o primeiro a dar parte de fraco. Ligo o piloto automático e seja o que Deus quiser. Detenho-me nela, a minha amiga, e acho-a murcha, espremida a um canto. Mais adiante, como que por milagre, abre-se uma pequena clareira. Duas miúdas beijam-se sofregamente, como se não houvesse amanhã, indiferentes aos urros dos machos exultantes à volta que, de repente, já não estão mais no Jamaica, mas sim à volta de um ringue, onde mulheres seminuas chafurdam na lama. Quando Prince sucede a David Bowie, quase acredito, por segundos, que elas vão a vias de facto ali mesmo... Entre os meus, é ela, a amiga murcha, que entrega os pontos. Aliviado, trato de sair dali para fora. Preciso de ar. E de espaço. O dia está a clarear. Antes de a despachar num táxi, ela ainda me diz:
- Ah, eu bem o vi a olhar para mim, mas ele não veio ter comigo; também não havia de ser eu a ir ter com ele...
Penso, mas não lhe digo, que isto de ser ou não ser uma mulher moderna traz água no bico. Para mim, felizmente, tudo é mais fácil (e óbvio): basta-me a ideia de que tenho à minha espera, ainda que vazia, uma cama. Uma cama de lençóis esticados onde não vejo a hora de me esparramar.

24.6.08

O casting


If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

(Elephant Gun, Beirut
)


Não tenham medo, sintam-se à vontade para exagerar na mise-en-scène, pois dificilmente vão errar a mão. Este post pede uma música burlesca, maquilhagem pesada e mãos cheias de acessórios pirosos. O enredo não chega a ser almodovariano, mas deixa qualquer novela mexicana a esvair-se de raiva.
Façam género e gritem “Tirem-me deste filme”, que eu não vos levo a sério... Afinal, quem, no seu perfeito juízo, quer de facto sair a meio quando o melhor da festa ainda nem aconteceu? Sinto alguma estranheza no vosso olhar... mas também eu, quando me ponho a olhar em redor, me interrogo em que momento, sem que eu me tenha dado conta, semelhante galeria de personagens aterrou no meu quintal?! Serei eu um projecto de "chico de Almodóvar" e ninguém teve a decência de me avisar que a câmara indiscreta já começou a rodar?
Mas eles existem, não são invenção da minha imaginação alucinada e, ou muito me engano, ninguém faltou à chamada. Tem o ex renascido das cinzas, a quem seja talvez o caso de perguntar "tudo isso é saudade" ou "deu vontade de ir à desforra"?; tem a amiga querida, mas muito carente, que cismou em fazer de mim o seu livro de auto-ajuda privado; tem o ex-namorado dela, o “todo bom”, que "regressou" gay e, diz a lenda, foi visto, não se sabe bem por quem, a rebolar de gogo boy, com tanga tigrada e tudo, numa festa da louca Ibiza; tem a senhoria megera, a que não se pode dar confiança, que fala mal nas costas e que oferece empadão ao domingo; tem as vizinhas de porta da amiga, que, como os gatos, só atacam ao cair da noite; tem a melhor amiga da amiga, beijada uma noite, traída na seguinte por um gajo que se acha engraçado; tem a melhor amiga da amiga da amiga, um verdadeiro coirão que também tem a mania que é engraçada; tem o diplomata novinho, avistado no Jamaica a beber sozinho, que não sabe beijar e ainda diz, a tropeçar no sotaque, “quero fazer amor contigo”; tem o “playboy de trazer por casa”, mais para canalha do que para cavalheiro com as amigas que se julgam muito liberadas e atentas à "cantiga do bandido", que fala, fala, mas na hora do bem bom não dá uma; tem as gémeas anãs, que, quando não estão a aviar copos no bar ou a despachar o homem do talho em cima da mesa da cozinha ao melhor estilo d'O carteiro toca sempre duas vezes, fornecem coca aos marmanjos que, pelos vistos, não se cansam do cliché "sou gay, sou bonito, tenho dinheiro e uma queca sem cheirar não é queca. E que se fodam os chatos"; tem o espanhol com suspensórios, colega do amigo da amiga, mais o seu "clube do Bolinha" que, tenho cá para mim, só foram ao Majong porque parecia mal ir directo à rua de baixo, a tal onde ficam muito juntinhos os rapazes que, como eles, também gostam de rapazes; tem o amigo colorido da amiga que vem de Londres em Julho; tem a amiga com o casamento em crise e doida para cair na má vida, porque é isso que o marido dela já faz há tempo; tem o “bom filho, menino da vó”, que já mora sozinho mas ainda vai comer todos os dias à casa da mãezinha, só à espera de alguém que o arrebate, o despenteie, o ajude a escolher as cuecas, o atire na parede e lhe chame "lagartixa"… e eu, metido no meio disto tudo, sem saber de cor as minhas falas e se é ou não suposto tirar a roupa.
Será castigo porque quis fazer a linha "tou nem ai" e não atirei a moedinha da praxe ao santo?

17.6.08

Não façam género

David Bowie

Girls who are boys
Who like boys to be girls
Who do boys like they're girls
Who do girls like they're boys
Always should be someone you really love
(Girls & Boys, Blur)


O portal português www.iol.pt fez eco da seguinte notícia:


«As semelhanças são enormes, segundo um estudo divulgado pela revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS). O cérebro de um homem gay é mais parecido com o de uma mulher heterossexual do que com o de um homem heterossexual.

Os dados foram apresentados pela equipa de neuro-cientistas liderada por Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, da Suécia. Será a prova mais sólida jamais apresentada de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica, dado que a ressonância magnética demonstrou que o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual.

O cérebro de um homem gay é muito semelhante ao de uma mulher heterossexual, apresentando os dois hemisférios mais ou menos do mesmo tamanho. O de uma lésbica, por outro lado, assemelha-se ao homem heterossexual, dado que tem o lado direito um pouco maior do que o esquerdo. A investigadora optou por estudar parâmetros fixos, como o tamanho e a forma do cérebro, que se mantêm os mesmos desde o nascimento.

A equipa também analisou o fluxo de sangue na amígdala, a área do cérebro que controla os aspectos emocionais, o humor e a agressividade. E, também aqui, o padrão masculino homossexual correspondeu ao feminino heterossexual e vice-versa. Foram estudadas 90 pessoas (25 heterossexuais e 20 gays de cada um dos sexos).»

Por sua vez, este estudo mereceu os seguintes três comentários de internautas:

Na minha idade estes estudos baralham-me! 2008-06-16 / 22:48 por: Astonished
Não tanto pelo fluxo de sangue na amígdala que disso toda a gente sabe, mas sobretudo por terem sido analisados cérebros, já que o busilis está muito mais abaixo! E até me atrapalha ficar a saber que as minhas experiências com mulheres heterossexuais me possam um dia vir a comprometer já que muito semelhantes a outras que eu não tive e de que posso vir a ser acusado!

Tal como Deus diz na Bíblia
2008-06-16 / 22:36 por: Maria Jacinta
Trata-se de uma doença e como o próprio artigo diz, não muda durante a vida da pessoa a não ser devido à intervenção directa do Espírito Santo. Estas ciências sempre atrasadas em relação ao grande livro. Deus é omnisciente. As respostas a todos os problemas e questões estão na Bíblia. Para quê gastar dinheiro com isto?

CLARÍSSIMO
2008-06-16 / 22:27 por: TOPATUDO
TINHAM DE TER UM CÉREBRO MAIS PEQUENO, DE ATRASADOS MENTAIS.

Os comentários nem me merecem considerações. Valem o que valem. Já este tipo de estudos deixa-me algo inquieto e muito desconfiado quanto aos seus verdadeiros propósitos...
Digo desde já que não me choca o facto de se tentar estabelecer uma maior afinidade entre os homens gay e as mulheres hetero - ou entre as lésbicas e os homens hetero -, porque até acho que, em certa medida, esse paralelo não é de todo descabido; já considero, todavia, muito forçado - para não dizer simplista - o facto de se querer fazer disso um postulado científico para, no fundo, repetir a ideia de que os gays, homens e mulheres, são um desvio à "normalidade". Com uma diferença: antes eram apontadas razões sociológicas para esse desvio, hoje procuram-se, supostamente munidos das melhores intenções, explicações genéticas e biológicas. Serão os gays um "acidente" genético?
Lamento, mas não consigo ver nada de apaziguador nestas "conclusões". Porque para mim elas mais não fazem do que perpetuar um erro grosseiro, que é o de se partir do pressuposto de que todos os homens gay são necessariamente efeminados - logo todas as lésbicas são também necessariamente masculinas. E não é assim. Dentro da homossexualidade há muitas cambiantes e variações, por mais que desse muito jeito poder arrumar todos na mesma prateleira!
Analisada a questão, fica-me o amargo de boca de perceber que a ciência, como a sociedade, continua a ter muita dificuldade em aceitar algo que, em última instância, pode ser bem mais simples do que se quer crer: um homem deseja e ama outro homem sem o deixar de ser - tal como uma mulher deseja e ama outra mulher sem o deixar de ser. O que há de tão complicado nisto?

11.6.08

Com as calças na mão


Sexy boy, sexy boy ...
Où sont tes héros aux corps d'athlètes
Où sont tes idoles mal rasées, bien habillées
Sexy boy, sexy boy ...
Dans leurs yeux des dollars
Dans leurs sourires des diamants
Moi aussi un jour je serai beau comme un Dieu
Sexy boy, sexy boy ...

(Sexy Boy, Air)


Se for apanhado com as calças na mão, ao menos que esteja a usar um par de cuecas Aussiebum. Como não é o tipo de presente que se peça de aniversário à mãe ou à tia, eu mesmo tratei do assunto: fui direito ao site e fiz a festa. Ainda acho que a marca australiana deveria fazer uma forte campanha publicitária junto dos familiares que têm por (mau) hábito oferecer cuecas e meias ― sem um pingo de imaginação ― pelo Natal…

Enfim, para compensar tamanho arremesso de futilidade, aproveito os feriados e a chegada do Verão ― que já tardava! ― para colocar a leitura em dia. De uma penada só, devoro Hermann Hesse, Ian McEwan e José Eduardo Agualusa. Diz Siddhartha:
«Podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria. Podemos encontrá-la, podemos vivê-la, podemos ganhar importância com ela, podemos fazer maravilhas com ela, mas não podemos comunicá-la e ensiná-la.»

Partilhar conhecimentos é bom. Podemos sempre aprender alguma coisa com os erros e acertos alheios. Mas há limites para a partilha. Em vésperas de Santo António, em vez de ir desabafar com o santo casamenteiro, a minha amiga do post anterior, a confirmar os meus receios, cismou em fazer de mim seu cúmplice à força. Assim, antes de nos lançarmos na orgia de sangria, sardinha assada ― que eu dispenso! ― e manjerico, vou ter de passar pela dura provação de a ouvir contar-me, com detalhe e minúcia, o que se passou entre ela e o “motoqueiro galanteador”... As mulheres, mesmo as que se dizem modernas e muito à frente, são vítimas delas mesmas. Passo a explicar. No início, armam-se em fortes, dão trela a marmanjos que, está na cara, só as querem apanhar entre os lençóis, mas insistem... Argumentam elas que estão a dominar as regras do jogo e, como tal, são perfeitamente capazes de encarar o sexo como algo descartável. Siga para bingo.

O pior vem depois. Podem até não dar parte de fracas na altura, mas assim que deixam a toca do lobo e ficam a remoer no que ouviram da boca do gabiru ― o clássico “não tenho vocação para o compromisso nem para a fidelidade”, metido desajeitadamente entre uma garfada e um gole de vinho, e que vale como o seguinte aviso de navegação: não te iludas que o jantar a dois é mesmo só um pretexto porque parecia mal irmos para a cama a seco ―, mal disfarçam a falsa resignação de quem “foi comida e não gostou” . E como as amigas estão longe, e os seus sentimentos para comigo são algo ambíguos, sobrou para mim fazer as vezes de ombro amigo. Deve ser castigo… Só pode ser castigo. É nestas alturas que gostaria de ser apenas, e só, um sexy boy como aqueles rapazes que vêm nos catálogos da Aussiebum... Mostram o que está à vista e a mais não são obrigados.